Jornalismo se faz assim, sem medo e sem hipocrisia
Sob a manchete de capa (veja reprodução clicando Aqui [1]) “O amor nos tempos de Feliciano” o Correio Braziliense deu hoje mais um exemplo de como se faz jornalismo sem medo e sem hipocrisia. O texto começa assim:
– Acusado de homofobia, Marco Feliciano (PSC-SP) enfrenta protestos diariamente país afora desde que assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Artistas e celebridades decidiram reforçar a campanha, iniciada por ativistas gays, pela saída do parlamentar do cargo. O beijo na boca que a atriz Fernanda Montenegro, 83 anos, deu na boca da colega Camilla Amado, 77, virou símbolo do repúdio e foi seguido por diversos artistas, como a modelo Yasmim Brunet e a atriz Antonia Morais. Ontem, foi a vez de Daniela Mercury abrir intensa discussão nas redes sociais ao postar fotos e texto em que assume o casamento com a jornalista Malu Verçosa. “Não podemos andar para trás. como os felicianos da vida”, escreveu a cantora baiana. Irritado e sob forte pressão, Feliciano — que já linha mandado prender um ativista em sessão anterior da comissão—tomou uma decisão radical. A partir de hoje, o acesso às reuniões que preside será restrito: manifestantes e ativistas de direitos humanos estão proibidos de entrar. A novela, pelo visto, ainda parece longe do fim.
O lead do texto publicado pelo Correio traduz bem a insatisfação que tomou conta da sociedade brasileira com a indicação do deputado Marco Feliciano para presidir a Comissão de Constituição de Direitos Humanos da Câmara Federal. Sua situação chegou a um ponto insustentável. Dificilmente ele se manterá na presidência do colegiado, tamanha a repercussão negativa de suas declarações e atitudes. As manifestações públicas por parte de artistas com atitudes que grande parte, senão a maioria da sociedade repudia, é uma clarividência de que, embora esta mesma sociedade ainda não aceite esse tipo de comportamento mantendo um tabu que Feliciano faz questão de conservar, ela, a sociedade, por outro lado, abomina por completo o radicalismo homofóbico do deputado-pastor.
Marco Feliciano já disse que só deixará o cargo de presidente da CDH da Câmara morto. Disse também que nada adiantará a reunião com o colégio de líderes se for para pedir a sua saída. Vejo como única forma de retirá-lo da presidência do colegiado a abertura de processo disciplinar contra sua pessoa protocolada pelo PSOL por suposta quebra de decoro parlamentar. O documento alega que o deputado, há um mês sob intensa pressão para deixar o comando da Comissão de Direitos Humanos, teria utilizado o mandato em proveito próprio e gasto recursos públicos da verba de gabinete de forma irregular. Também foi protocolado ontem na Mesa Diretora da Câmara recurso pedindo a anulação da reunião da Comissão de Direitos Humanos que elegeu Feliciano presidente do colegiado. Assinado por sete deputados petistas, o documento pede que o plenário da Câmara delibere sobre o pedido de nulidade.
Os deputados petistas argumentam que a eleição de Feliciano não poderia ter sido realizada sem que antes fosse analizada questão de ordem apresentada na ocasião pelo deputado Padre Ton (PT-RO). O deputado questionava se Feliciano teria legitimidade para exercer a presidência da comissão já que é autor de declarações consideradas racistas e homofóbicas.
Agora, a declaração do presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), desaprovando a decisão do deputado-pastor Marco Feliciano (PSC-SP) de restringir o acesso às reuniões da comissão, fechando-as para o público.
– Isso foge à tradição do Parlamento. É absurdo, disse.
Sem dúvida nenhuma o Correio Braziliense, com a manchete desta quinta-feira (4), trouxe uma grande contribuição ao polêmico debate em torno do deputado Marco Feliciano. Sem medo e sem hipocrisia, até porque entre os seus leitores muitos são evangélicos, o jornal marcou um gol de placa mostrando “O amor nos tempos de Feliciano” que a hipocrisia muitas vezes não quer enxergar. Parabéns ao Correio Braziliense. Jornalismo se faz assim!
Charge: Quinho, no Estado de Minas