`Não se faz obra pública no Brasil sem propina´
A declaração acima atribuída ao advogado do suposto operador do PMDB no escândalo do Petrolão, Fernando Baiano, que estava foragido e que se entregou à Polícia Federal, Mário de Oliveira Filho, faz sentido. Desde que o Brasil foi descoberto em 1500, nada nestas terras tupinikim sai de graça. A título de exemplo, pouco tempo depois da chegada dos portugueses a Porto Seguro, na Bahia, eles começaram a perceber que era muito lucrativo a madeira do pau-brasil, pois ela servia para fazer móveis e até roupas na Europa.
Os Tupinikins não seguiam a lógica dos europeus de acumular riquezas, logo quando trocavam a madeira por um objeto eles não a cortavam mais. Mas os nossos irmãos lusos precisavam de muita madeira, e quando o escambo não deu mais certo, começou então a escravizar os indígenas. Isso foi dito pelo próprio Pero Vaz Caminha, responsável por descrever tudo a respeito da nova terra ao Rei de Portugal. Caminha era uma espécie de correspondente que acompanhava a esquadra de Cabral.
De lá pra cá tudo continua como dantes no Quartel de Abrantes. O jogo de interesses não mudou em nada e o “é dando que se recebe” continua em voga, como diria o sertanejo lá dos brejos do interior do Nordeste. Querer esconder o sol com a peneira é não querer enxergar as coisas que acontecem nos bastidores da política brasileira. O advogado Mário de Oliveira Filho foi perfeito quando disse que “pagamentos a políticos são comuns e quem nega ‘desconhece a história do país”.
É hipocrisia se pensar que superfaturamento de obras e troca de favores só ocorrem nos governos do PT. Não estou aqui defendendo os governos de Lula e de Dilma não, até porque como diz o slogan do blog, não sou “progressista” nem “conservador”, apenas faço jornalismo e fazer jornalismo pra mim é relatar os fatos. E relatar os fatos é dizer como a defesa de Fernando Baiano disse, ou seja, “não se faz obras pública no Brasil sem propina”.
Aliás, quem leu o livro “Nobre Deputado”, do juiz Marlon Reis, sabe bem do que o advogado Mário de Oliveira Filho fala. O livro do magistrado retrata bem a prática de usura na política tupinikin. Numa emenda de uma parlamentar, por exemplo, para a duplicação de uma rodovia, 70% da verba fica com o deputado que a apresentou. Aí, 25% dos 70% vão para o prefeito do município onde a estrada vai passar, claro. Os outros 50% restantes são embolsados pelo deputado. É onde entra o tal superfaturamento. É óbvio que a construtora não vai arcar com o prejuízo. Se uma duplicação de uma rodovia custa na realidade R$ 1,5 milhão, esse valor é duplicado passando a custar R$ 3 milhões. E quem paga a conta? O contribuinte, caro leitor.
É a velha usura praticada pelos portugueses no início do descobrimento do Brasil, como relatei no lead deste texto. Então, sendo assim, políticos e empreiteiros querem sair no lucro, que se dane o eleitor-contribuinte. Por isso digo que em todo governo, seja ele do PT, do PMDB, do PSDB ou qualquer outro partido, o toma lá da cá vai existir. Ilusão se pensar que isso é “privilégio” apenas de governos petistas.
Como isso vai mudar? Repito o que já disse em outras oportunidades, só com uma reforma política ampla e irrestrita que acabe de uma vez por todas com essa história de financiamento privado em campanhas políticas. Isso virou um vício. Se uma empresa X financia uma campanha é claro que ela vai cobrar a fatura depois. Pode verificar, caro leitor, que estas empresas financiam dois, três candidatos ao Executivo. e qual o interesse disso? O interesse é que quem ganhar a eleição ela, a empresa, estará garantida em receber recursos na maioria das vezes superfaturados e com licitações viciadas, traduzindo, cartas marcadas.
Charge: Amorim