Renan e Aécio proporcionam cenas de uma comédia pastelão
Os nobres parlamentares deveriam ter ao menos respeito aos seus eleitores, já que ao povo brasileiro, de um modo geral, isso está longe de acontecer. Ontem, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o seu colega de Parlamento, senador Aécio Neves (PSDB-MG), proporcionaram ao país verdadeiras cenas de uma comédia pastelão. Cenas estas que foram levadas ao ar em rede nacional pelos telejornais e certamente ao mundo. Diga-se de passagem que ali estavam o presidente do Congresso Nacional e um ex-candidato à Presidência da República.
O tempo fechou durante a escolha dos demais membros da Mesa Diretora do Senado, com direito a anúncio de desfiliação por parte da senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) e troca de ofensas, aos gritos, entre o presidente da Casa, Renan Calheiros e o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves – um dos responsáveis, segundo a própria tucana, por sua decisão de deixar o partido. Ao final da tumultuada sessão preparatória da nova legislatura (2015-2018), que durou cerca de três horas e provocou debandada de blocos partidários do plenário, a chapa única foi aprovada por 46 votos a dois, com uma abstenção.
– Vossa excelência subverte a ordem natural das coisas. Pergunta se o PSDB ainda mantém a sua indicação, ou o PSB? Não. Essas são as indicações naturais, com base na proporcionalidade, no respeito à população, no respeito à democracia interna. Vossa excelência será o presidente dos ilustres senadores que o apoiaram, mas perde a legitimidade para ser presidente dos partidos de oposição nesta Casa, vociferou Aécio, imediatamente rebatido por Renan.
– Que bom que isso esteja sendo dito por vossa excelência, que foi candidato a presidente da República, e tem a dimensão do que é a democracia, rebateu o peemedebista, já abandonando o tom sereno das colocações – e, com mais uma declaração, em tom irônico, irritou Aécio ao fazer menção à postura do tucano durante as eleições. “Por isso deu no que deu”, emendou Renan, sugerindo que Aécio relativiza os valores democráticos ao não transigir com o entendimento da maioria.
– Vossa excelência perdeu a chance de ser presidente da República, porque é estreito!
– Vossa excelência está desrespeitando, senador Renan! Desrespeita a democracia para atender às conveniências da sua eleição! Tive 51 milhões de votos, que eu honro! Perdi (as eleições) de cabeça erguida! Olho nos olhos dos cidadãos! Vossa excelência apequena esta Casa! Vossa excelência venceu perdendo a dignidade que esse cargo deveria ter!, replicou Aécio, aos berros, acusando o grupo de Renan de urdir uma estratégia que deixaria o PSDB de fora da composição da Mesa – mesmo argumento utilizado por PSB e DEM.
– Respeite a Mesa! Respeite a Mesa! Tenha a dimensão da democracia! Respeite seus colegas!”, devolveu Renan, também com o dedo apontado para o interlocutor, aos gritos.
Caro, leitor: briga de comadre num daqueles cortiços de antigamente é fichinha. Dois senadores da República que não se dão ao respeito não merecem o voto do povo. Renan Calheiros, todos já conhecem. Aécio Neves mostrou ao Brasil quem é, na verdade. Lembro que na campanha diziam ser Aécio um novo Collor, tamanha a sua intempestividade. Me parece que a comparação tinha ou tem sentido. Arrogância e bravata foi o que não faltou aos nobres senadores. O Brasil não merece isso. O povo brasileiro não merece isso!
Mas, enfim, isso é o Congresso Nacional, que me desculpem os bons parlamentares.