Está no Blog da Sandra Cohen
O primeiro aniversário do retorno de Donald Trump [1] à Casa Branca, nesta terça-feira (20), escancara uma Europa enfraquecida e sob ataque de seu maior aliado transatlântico. O alvo da vez é a Groenlândia [2], objeto de cobiça do presidente dos EUA, que ameaça aplicar, a partir de fevereiro, tarifas de 10% sobre produtos de França, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Dinamarca, Noruega e Finlândia [3], por não concordarem com seu projeto obsessivo de anexar o território semiautônomo da Dinamarca [4].
A escalada de tensões entre EUA e Europa põe a Otan [5] num momento inédito e decisivo em 76 anos, no qual a sua unidade está sob risco. Trata-se de um país-membro sob a ameaça de outro — no caso, o maior contribuinte da aliança.
Se a conquista da Groenlândia era vista como mais uma bravata de Trump, agora é levada a sério por seus pares. Tanto que diversos países europeus enviaram tropas para a ilha [6] sob o pretexto de exercício militar, irritando o presidente americano. [7]
No primeiro ano do segundo mandato de Trump, ficou claro que a estratégia conciliadora dos europeus não amenizou a retórica belicosa do presidente, primeiro em relação à Ucrânia invadida pela Rússia e agora com a ambição pela Groenlândia, rica em minerais raros e considerada por ele vital para a segurança dos EUA. Este argumento, contudo, cai por terra, já que a proteção de seus 27 membros é a função primordial da Otan.
A saga expansionista de Washington direcionada a um aliado europeu é preocupante. “Não tanto pela tarifa de 10% em si, mas pela sua justificativa: tomar território de um aliado e tentar coagir publicamente seus aliados. Como o mundo reagiria se a China ou a Rússia enviassem uma ameaça como essa a alguns de seus aliados?” considerou Faisal Islam, editor de economia da BBC.
Sob esta perspectiva, Trump equipara a sua postura imperialista à de Putin, deixando a Europa fragilizada e, ao mesmo tempo, encurralada entre EUA e Rússia. De antemão, a fragmentação da Otan beneficiaria Moscou e Pequim e desestabilizaria a segurança europeia. O continente abriga 31 bases e 19 instalações militares dos EUA, totalizando cerca de 70 mil militares abrigados, em grande parte em países como Alemanha, Reino Unido e Itália.
A reação do bloco, tradicionalmente cautelosa e reflexo da histórica acomodação à dependência dos EUA em sua defesa, começou a se desenhar de forma mais contundente em medidas retaliatórias.
Partiu do presidente da França, Emmanuel Macron, a proposta de ativar o Instrumento Anticoerção, uma ferramenta apelidada de “bazuca comercial” [8]para limitar a atuação de empresas de tecnologia americanas e outros prestadores de serviço. Criada em 2023, esta arma ainda não foi utilizada pela União Europeia [9].
Líderes europeus expressaram clara insatisfação em relação ao que chamaram de chantagem praticada por Trump. “Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará”, escreveu Macron. Em uma ligação ao presidente americano, o premiê britânico Keir Starmer classificou como “completamente errada” a aplicação de tarifas.
A experiência do último ano demonstrou que é mais perigoso ceder à pressão de Trump do que resistir, avalia Gideon Rachman, colunista do jornal britânico “Financial Times”.
“A resposta é que, para evitar os piores resultados, os líderes europeus precisam reagir agora. Ao longo do último ano, eles tentaram apaziguar os ânimos e bajular. E foi exatamente isso que conseguiram. Precisam mudar de rumo imediatamente”, afirma Rachman.
Em seu primeiro ano na Casa Branca, Trump erodiu o relacionamento com a Europa. E, por mais dura que seja, a resposta do bloco às investidas erráticas do presidente americano chega tarde.
*Sandra Cohen é especializada em temas internacionais, foi repórter, correspondente e editora de Mundo em ‘O Globo’
Foto reproduzida da Internet