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A eleição presidencial brasileira de 2026 já se desenvolve sob uma variável externa de enorme peso: a atuação do governo de Donald Trump. O assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, embaixador Celso Amorim, alertou, durante audiência na Câmara dos Deputados, para o risco de ações unilaterais dos Estados Unidos e de formas de intervenção direta em assuntos brasileiros, num cenário em que Washington volta a reivindicar abertamente o continente americano como sua esfera prioritária de influência.
A preocupação não surge apenas de declarações isoladas. Ela se insere numa sucessão de movimentos políticos, econômicos e diplomáticos do governo Trump, que tem manifestado apoio à família Bolsonaro e às forças da direita ultraconservadora na América Latina. Para críticos dessa política, como o historiador e dirigente político Valter Pomar, a interferência já ocorre por diferentes meios e poderá se intensificar à medida que a eleição brasileira se aproximar.
Washington recupera abertamente a lógica da Doutrina Monroe
Um dos sinais mais explícitos da nova orientação norte-americana ocorreu em 11 de agosto, quando o Departamento de Estado divulgou um vídeo apresentando os Estados Unidos como potência dominante no continente e reafirmando, na prática, uma interpretação contemporânea da Doutrina Monroe.
Formulada em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina nasceu sob o lema de oposição à recolonização europeia nas Américas. Ao longo dos dois séculos seguintes, porém, passou a servir de fundamento político para a hegemonia norte-americana no continente e para sucessivas intervenções militares, econômicas e políticas dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe.
Sob Trump, essa concepção voltou a ocupar posição central na política externa de Washington. A ideia de que as Américas constituem uma área estratégica na qual os Estados Unidos possuem interesses especiais ganha ainda mais importância diante da crescente presença econômica da China na região.
China está no centro da disputa estratégica
Pequim tornou-se o principal parceiro comercial de diversas economias sul-americanas e um dos maiores investidores em infraestrutura, energia, mineração, tecnologia e outros setores estratégicos da região.
Para muitos países latino-americanos, a relação com a China ampliou mercados, investimentos e alternativas diplomáticas. Para setores do establishment norte-americano, entretanto, o crescimento da influência chinesa representa um desafio direto à histórica predominância dos Estados Unidos no hemisfério.
O Brasil ocupa posição particularmente importante nessa disputa. Além de ser a maior economia latino-americana, integra os BRICS, mantém uma parceria estratégica abrangente com a China e defende uma política externa baseada na multipolaridade e na autonomia diante das grandes potências.
A eleição brasileira, portanto, possui consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais.
Apoio de Trump aos Bolsonaro
É nesse contexto que deve ser compreendido o apoio político de Trump à família Bolsonaro. O presidente norte-americano tem feito manifestações favoráveis ao campo bolsonarista e críticas a autoridades e decisões brasileiras.
Esse posicionamento adquire peso especial durante uma eleição presidencial porque Trump não é apenas um aliado ideológico estrangeiro. É o chefe de Estado da maior potência militar e financeira do mundo, cujo governo dispõe de instrumentos diplomáticos, comerciais, tecnológicos e econômicos capazes de exercer pressão sobre outros países.
Na avaliação dos críticos da atuação norte-americana, existe uma diferença fundamental entre a manifestação de preferência de um cidadão estrangeiro e o envolvimento do governo de uma potência na disputa política interna de outro Estado.
Pomar alerta para a possibilidade de interferências cibernéticas e operações destinadas a influenciar o ambiente político brasileiro. Em um cenário de forte polarização, ações digitais realizadas ou estimuladas a partir do exterior poderiam potencializar conflitos internos e colocar em dúvida a legitimidade do processo eleitoral.
Há ainda preocupação com o período posterior à votação. Um dos cenários levantados é a possibilidade de forças estrangeiras questionarem ou contribuírem para deslegitimar um resultado eleitoral brasileiro contrário aos seus interesses.
Crime organizado abre outra frente sensível
A política norte-americana para o crime organizado adiciona uma nova dimensão ao problema. O enquadramento de organizações criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), sob categorias associadas ao terrorismo amplia as implicações internacionais do combate ao narcotráfico.
A mudança não é apenas terminológica. Classificações dessa natureza podem servir de fundamento para sanções financeiras, operações de inteligência e outras medidas extraterritoriais.
É justamente nesse ponto que Celso Amorim defende uma linha clara: o Brasil deve combater suas organizações criminosas com suas próprias instituições e preservar o comando nacional sobre sua política de segurança.
Para Amorim, cooperação internacional é possível e necessária, mas não pode ser confundida com tutela estrangeira.
Celso Amorim alerta para ações unilaterais
Durante sua participação na Câmara, Amorim chamou atenção para o risco de ações unilaterais norte-americanas que ultrapassem os limites normais da cooperação entre Estados soberanos.
O Brasil, segundo essa concepção, pode trocar inteligência, combater fluxos financeiros ilícitos e cooperar internacionalmente contra o tráfico de drogas e armas, mas não deve aceitar que outro país determine unilateralmente como operações serão conduzidas dentro do território brasileiro.
Amorim também sustenta que o País precisa possuir capacidade própria para enfrentar ameaças externas e internas, ressaltando os investimentos realizados pelos governos do PT na área de defesa.
Da pressão política à hipótese militar
Entre os cenários apontados por críticos da política de Trump está uma escalada progressiva dos instrumentos de pressão: manifestações políticas, apoio eleitoral, sanções, tarifas, operações informacionais, medidas cibernéticas e, no limite, ameaças de caráter militar.
Isso não significa que todos esses cenários necessariamente ocorrerão no Brasil. A advertência é que a reafirmação de uma política de esfera de influência aumenta o risco de medidas unilaterais contra países latino-americanos cujas decisões contrariem interesses estratégicos de Washington.
As pressões contra Cuba e Venezuela e a tentativa de enfraquecimento do governo de Nicolás Maduro são citadas como exemplos de uma política externa que combina instrumentos econômicos, diplomáticos e políticos para tentar produzir mudanças internas em outros países.
Eleição de 2026 também envolve uma disputa pela soberania
O pano de fundo é a transformação da ordem internacional. Estados Unidos e China disputam influência econômica e tecnológica, enquanto países como o Brasil procuram ampliar sua autonomia num sistema cada vez mais multipolar.
Por isso, a interferência externa na eleição brasileira não precisa assumir a forma clássica de uma intervenção militar para produzir efeitos. Apoio explícito a candidatos, ameaças econômicas, tarifas, sanções, operações informacionais e tentativas de condicionar decisões soberanas também podem funcionar como instrumentos de pressão.
Para Celso Amorim, a resposta brasileira passa pelo fortalecimento da soberania e da capacidade nacional de tomar decisões sem tutela externa. A eleição de 2026, nesse sentido, não decidirá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos. Em meio à retomada da Doutrina Monroe por Washington e à disputa estratégica entre Estados Unidos e China, também colocará em discussão até que ponto o Brasil conseguirá preservar sua autonomia diante das pressões da maior potência do continente.
Foto: Reprodução/Instagram/@FlavioBolsonaro via BBC