por Fábio de Sá e Silva, no Intercept Brasil
O escândalo do financiamento do filme “Dark Horse” revela um problema que vai muito além do bolsonarismo. Ele expõe uma zona cinzenta perigosa entre política, negócios privados, influência internacional e ausência de controle institucional. E o Congresso precisa enfrentar isso antes que seja tarde.
O último furo de reportagem do Intercept [1] abriu uma verdadeira caixa de Pandora. Até então, Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, senador licenciado e pré-candidato à Presidência da República, insinuava que jamais teria sequer conversado com Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master — que foi liquidado pelo Banco Central —, e que hoje está preso sob acusações de gestão fraudulenta e corrupção.
Questionado pelo repórter Thalys Alcântara sobre o suposto financiamento do filme “Dark Horse”, produção dedicada a glorificar Jair Bolsonaro, Flávio reagiu dizendo tratar-se de “mentira” e tentou desqualificar o jornalista como “militante”. Horas depois, o próprio Intercept divulgou um áudio em que o senador pede dinheiro ao ex-banqueiro para o projeto, o chama de “irmão” e demonstra solidariedade pelo “momento difícil” vivido por ele.
As mentiras e contradições
Primeiro, Flávio afirmou que se tratava apenas de dinheiro privado. Mas o Banco Master [2] foi amplamente abastecido por recursos públicos e paraestatais, inclusive por meio de fundos ligados a aposentadorias do setor público [3].
Depois, alegou que não poderia revelar os aportes de Vorcaro porque havia cláusulas de confidencialidade nos contratos. Mas, ao que tudo indica, Flávio não era parte desses contratos. Logo, não estava juridicamente obrigado a guardar segredo algum. Foi pego numa mentira elementar.
As inconsistências continuaram. Mário Frias inicialmente disse não ter recebido recursos. Mais tarde, o próprio Flávio reconheceu pagamentos de R$ 61 milhões. Frias, então, corrigiu a versão: o dinheiro teria vindo não diretamente de Vorcaro, mas de um fundo ligado a ele. Como se isso resolvesse o problema.
Orçamento inflado e conexões no exterior
Também não passou despercebido que, apenas de Vorcaro, teriam sido buscados R$ 130 milhões para financiar o filme, que ainda contaria com “mais de dez” investidores não identificados. As cifras são muito superiores ao orçamento normal de produções cinematográficas, inclusive de filmes premiados internacionalmente.
‘Ou seja, parece que não era só no Master que o “compliance” era “zero”. Era e é, também, no Congresso’.
Soube-se, então, que um fundo gerido pelo mesmo responsável por administrar os recursos “do filme” adquiriu uma propriedade no Texas, estado onde reside Eduardo Bolsonaro. A partir daí, as perguntas inevitavelmente se ampliam. O dinheiro foi usado apenas para um filme? Ou também para financiar estruturas políticas, lobby internacional e articulações fora do país?
Como pano de fundo de tudo isso, há um dado estruturalmente problemático: Eduardo Bolsonaro [4] teria negociado os direitos do filme no exterior ainda enquanto exercia mandato parlamentar. Mário Frias, que responde como produtor-executivo do projeto mesmo sendo deputado federal, enviou emendas em favor da ONG dirigida por outra produtora do filme junto com os deputados do PL Alexandre Ramagem, Bia Kicis, Karla Zambelli e Marcos Pollon. Flávio, no exercício do mandato de Senador, captava recursos vultosos junto a empresários e investidores cuja identidade permanece parcialmente desconhecida do público.
Ou seja, parece que não era só no Master que o “compliance” era “zero”. Era e é, também, no Congresso.
Um alerta para o Congresso brasileiro
O Congresso Nacional –– que se tornou extremamente leniente com condutas que atentam contra a democracia e o estado de direito –– deveria encarar o caso “Dark Horse” menos como um constrangimento circunstancial do bolsonarismo e mais como um alerta institucional.
Não é razoável que parlamentares possam abrir empresas e fundos, captar recursos milionários de origem obscura, operar contratos internacionais e manter relações financeiras opacas enquanto exercem mandato e influência direta sobre os rumos do país, inclusive mediante a alocação de emendas. Além de proibidas por suscitarem potencial conflito de interesse, essas condutas deveriam ser investigadas e punidas pelas próprias casas legislativas –– a Câmara e o Senado.
Se o Parlamento não enfrentar essa discussão, continuará permitindo que estruturas privadas de financiamento e influência avancem sobre a política brasileira sem transparência compatível com a democracia.
Imagem reproduzida da Internet
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