Destinos entrelaçados
– A imprensa brasileira, que adora plagiar os títulos dos romances de Gabriel García Márquez, já tinha preparado de véspera suas manchetes de Crônica de uma Morte Anunciada para José Sarney, confirmando o prognóstico do Outono do Patriarca maranhense. Mas, sendo as tramas da política tão imprevisíveis quanto as da literatura, o enredo que se deu foi o Relato de Um Náufrago. À deriva, abandonado pelos companheiros de partido, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, era quem lutava desesperadamente na volta do recesso para salvar o próprio mandato da cassação, juntar os cacos de sua reputação como parlamentar ético e tentar garantir sua reeleição no ano que vem.
O drama do líder tucano expõe a pantomima da pseudocampanha de moralização do Senado e que não passa, no fundo, de uma disputa política cujo pano de fundo é a sucessão presidencial de 2010. Não que essa vitória tática da tropa de choque de Sarney deva ser aplaudida. É uma lástima para o Brasil e para a melhora dos costumes políticos. Mas ela reflete o resultado de uma novela em que só os distraídos e os de má-fé foram capazes de associar a uma luta entre o Bem e o Mal. Os moralizadores e os iníquos. Era e é, na verdade, uma disputa com objetivos bem menos nobres. Neste vale-tudo de intenções, ganha quem pratica os golpes mais baixos. E, nesse ponto, a tropa sarneyzista domina o ringue.