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Gilbson Cutrim Júnior – condenado por um homicídio em São Luís que trouxe à tona suspeitas de um esquema de desvio de dinheiro público no Maranhão [1] – entregou à Polícia Federal [2] (PF) documentos que, segundo ele, podem ajudar a comprovar a participação do grupo do governador Carlos Brandão (MDB) em crimes:
- um papel escrito à mão com números de processos;
- a etiqueta que acompanhava um maço de dinheiro vivo; e
- o vídeo de um carro estão entre as supostas provas.
De acordo a defesa de Gilbson Júnior no documento obtido pela reportagem, o governador e familiares combinaram com ele a “cobrança de processos referentes a recebíveis de gestões passadas e o transporte de valores para o escritório da família” Brandão.
O esquema, segundo Gilbson Júnior, consistia em procurar empresas que tinham valores a receber de governos anteriores e combinar o pagamento, na atual gestão, desde que os empresários devolvessem uma parte do dinheiro.
“Ficou acertado que Gilbson César Soares Cutrim Júnior deveria ‘correr atrás’ de empresas que teriam valores a receber de gestões passadas, mais especificamente os valores que fossem acima de R$ 5.000.000,00 (cinco milhões). Para tanto, foi-lhe repassada uma relação de processos conforme foto do documento abaixo”, afirmou a defesa em petição enviada à PF.
Gilbson Júnior foi condenado por matar um homem a tiros em agosto de 2022, em um centro comercial de São Luís, o Tech Office. [3] Inicialmente, a Polícia Civil do Maranhão concluiu que o homicídio, à luz do dia, resultou de uma briga pessoal.
Em 2024, ele foi condenado sozinho pelo crime a uma pena de 13 anos de prisão.
Depois, porém, a PF entrou no caso e apontou que o assassinato tinha relação com um suposto desentendimento devido à divisão de propinas oriundas de contratos públicos.
Na última terça (18), o g1 revelou um depoimento que Gilbson Júnior prestou à PF. Ele afirmou que teve várias reuniões com o governador Carlos Brandão dentro do Palácio dos Leões [1], sede do Executivo maranhense, e transportava dinheiro para o local.
Na segunda-feira (17), o ministro Flávio Dino, relator das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu afastar do cargo o presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), Daniel Brandão [4] — que é sobrinho do governador.
Daniel é suspeito de envolvimento nos crimes e estava presente na reunião no Tech Office que culminou no homicídio.
‘Compra de silêncio’
Antes de Gilbson Júnior e seus familiares decidirem contar sua versão e implicar políticos nos crimes, o assassino teria recebido pagamentos mensais, em dinheiro vivo, para ficar em silêncio, de acordo com sua defesa.
“Foi oferecida a importância mensal de R$ 30 mil para comprar o seu silêncio. Acontece, entretanto, que do valor acordado, somente R$ 15 mil passaram a ser recebidos pela família do preso. Tais pagamentos eram feitos por intermédio do motorista do senhor Marcus Brandão [irmão do governador], o nacional ERICK, que entregava o valor em mãos ao pai do senhor Gilbson Júnior”, afirmou a defesa à PF.
“Em um dos encontros para recebimento do dinheiro em espécie, foi retirada uma foto do carro usado”, disse a defesa, com o objetivo de identificar o proprietário a partir da placa.
Ainda segundo a defesa, em um dos pagamentos mensais, “foram entregues maços de dinheiro com etiqueta identificável do Banco do Brasil”.
A família de Gilbson Júnior tirou uma foto da etiqueta que teria vindo no maço de dinheiro e a apresentou aos investigadores.
A ideia é ajudar a polícia a identificar a agência bancária para chegar em quem sacou aquelas notas.
A defesa do assassino confesso também entregou à PF prints de contatos telefônicos e o recibo do pagamento feito pela empresa que gerou a briga que resultou no homicídio em 2022.
O que dizem os investigados
Daniel Brandão, afastado do TCE-MA, afirmou em nota no início da semana que vai comprovar sua “absoluta inocência”. Ele disse estar “à disposição das autoridades e do Poder Judiciário para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários”.
O governador Carlos Brandão negou as suspeitas e afirmou que é “revoltante que o depoimento de um réu confesso” seja visto com credibilidade.
Veja a nota do governador na íntegra:
“Recebo com indignação a acusação de que eu seria chefe de uma organização criminosa, e de que recebi valores de um criminoso dentro do Palácio. Isso é inadmissível!
É revoltante ver que o depoimento de um réu confesso, que cumpre pena por um assassinato em local público e que mudou a versão sobre o caso, está pautando a discussão, sem qualquer questionamento sobre sua credibilidade ou veracidade. Não há sequer uma prova de todas essas inverdades que estão sendo ditas.
Tenho 35 anos de vida pública e até antes do rompimento entre grupos políticos, nunca tinha respondido a nenhum processo. Foi só depois disso que passei a ser alvo de acusações e ações judiciais. Tudo que construí na vida – minha trajetória, minha família, meu patrimônio – foi com muito trabalho. Não aceito que queiram jogar minha história na lama.
Destaco que minha defesa continua não tendo acesso à integralidade dos autos do inquérito. Mesmo assim, seletivamente, foram publicizadas três decisões.
Destas, me chamou atenção o fato de que a própria Procuradoria-Geral da República se manifestou no sentido de que este caso não deve ser conduzido pelo Supremo Tribunal Federal.
Tenho serenidade de que a verdade vai prevalecer. Inclusive, enquanto governador, tenho mais de 70% de aprovação. Por isso, sigo focado no que sempre fiz ao longo de toda a minha vida pública: trabalhar muito pelo povo do Maranhão.”
Fotos reproduzidas do Blog do Glaucio Ericeira