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A produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi marcada por uma série de questionamentos dos roteiristas sobre episódios da trajetória política e militar do personagem central, além do envio de informações que já haviam sido desmentidas por investigações e agências de checagem. A revelação é da Agência Pública [1], que teve acesso exclusivo a documentos internos relacionados ao desenvolvimento do projeto cinematográfico.
Segundo a reportagem, os documentos, datados de março de 2024, registram trocas de mensagens entre os irmãos Cyrus e Mark Nowrasteh — respectivamente diretor e coautor do roteiro — e integrantes da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa ao lado do deputado federal Mário Frias. O financiamento do projeto contou com participação de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente.
Os registros mostram que os roteiristas buscaram informações adicionais sobre diversos episódios da vida de Bolsonaro, incluindo sua passagem pelo Exército, sua relação com a Amazônia, povos indígenas, a perseguição à guerrilha durante a ditadura militar e o atentado a faca sofrido durante a campanha presidencial de 2018.
Questionamentos sobre indígenas e Amazônia
Entre os temas levantados pelos roteiristas está a alegação de que Bolsonaro teria atuado em defesa dos povos indígenas e da Amazônia. Nos documentos analisados pela Pública, Cyrus e Mark Nowrasteh perguntam se o então militar chegou a trabalhar diretamente com comunidades indígenas durante sua carreira no Exército.
Os roteiristas questionam: “Ele teve contato com elas? Ele as utilizou em suas operações? Recebeu ajuda delas? Elas serviram como guias?”.
A reportagem destaca que Bolsonaro serviu principalmente em unidades militares localizadas no Rio de Janeiro e em Mato Grosso. Também relembra que o ex-presidente construiu sua trajetória política como crítico de políticas de proteção ambiental e de direitos indígenas.
Durante seu mandato presidencial, Bolsonaro foi alvo de críticas por medidas relacionadas à fiscalização ambiental. Segundo levantamento citado pela Agência Pública, o desmatamento na Amazônia aumentou significativamente durante seu governo, atingindo recordes em áreas protegidas.
Visão distorcida sobre a trajetória militar
Outro aspecto apontado pela reportagem é a suposta falta de familiaridade dos roteiristas norte-americanos com a história política brasileira.
Em uma das mensagens, eles pedem esclarecimentos sobre os episódios envolvendo Bolsonaro e o Exército durante os anos finais da ditadura militar. Os autores perguntam se a detenção e o julgamento de Bolsonaro por publicar um artigo crítico à instituição ocorreram durante o regime militar e se ele chegou a ser visto como uma ameaça ao governo da época.
A Pública observa que Bolsonaro jamais foi considerado uma ameaça ao regime militar e que, ao longo de sua carreira política, tornou-se um dos principais defensores do golpe de 1964 e da ditadura instalada no país.
A narrativa sobre Carlos Lamarca
Os documentos também mostram interesse dos roteiristas em uma versão frequentemente citada por Bolsonaro, segundo a qual ele teria ajudado militares a localizar o guerrilheiro Carlos Lamarca quando ainda era adolescente.
Os autores perguntam: “Um Jair Bolsonaro adolescente que levou o Exército de sua comunidade para encontrar o acampamento deles?”.
A reportagem lembra que essa narrativa já foi contestada diversas vezes. Registros históricos apontam que Lamarca conseguiu escapar das operações realizadas no Vale do Ribeira e só seria localizado mais de um ano depois.
Segundo a Pública, não há evidências de que Bolsonaro tenha fornecido informações que contribuíram para a perseguição ao guerrilheiro. A própria versão apresentada pelo ex-presidente contém inconsistências temporais, já que o confronto citado por ele ocorreu durante a noite, quando não havia aulas na escola que afirmou frequentar.
Facada de 2018 e teorias conspiratórias
O episódio que mais chama atenção nos documentos analisados diz respeito ao atentado sofrido por Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.
De acordo com a reportagem, a equipe ligada ao filme encaminhou aos roteiristas conteúdos que sustentam teorias conspiratórias sobre o caso, incluindo a hipótese de envolvimento de grupos de esquerda e do narcotráfico.
A Pública ressalta que três investigações realizadas pela Polícia Federal concluíram que Adélio Bispo agiu sozinho e que sofria de transtornos psiquiátricos.
Mesmo assim, os materiais enviados aos irmãos Nowrasteh incluíam vídeos e conteúdos digitais que propagam versões já desmentidas. Entre eles estão produções que alegam depósitos financeiros a Adélio Bispo e supostos mandantes do crime — afirmações que foram rejeitadas pelas investigações oficiais e por agências independentes de checagem.
Também foi encaminhado aos roteiristas material produzido pela Brasil Paralelo, organização frequentemente citada em debates sobre desinformação política.
Busca por uma narrativa heroica
A reportagem afirma que diversas perguntas feitas pelos roteiristas demonstram o interesse em construir uma narrativa cinematográfica de caráter heroico para Bolsonaro.
Em uma das mensagens, os autores descrevem uma cena em que o então candidato apareceria após uma longa caminhada entre apoiadores e subiria sozinho ao palco para um “retorno triunfal”.
“Após essa longa caminhada, ele chegou a um pódio onde subiu — sozinho, sem ajuda — e fez um discurso de retorno triunfal para mostrar ao mundo e aos seus oponentes que ele ainda não desistiu!”, escreveram
Na mesma mensagem, os roteiristas afirmam: “Essas respostas são cruciais para a história e para nossa capacidade de torná-la o mais precisa e cheia de suspense possível, e o mais dramaticamente gratificante.”
A Agência Pública observa que os documentos não registram a resposta dada a essa pergunta específica.
Novas revelações sobre a produção do filme
A reportagem integra uma série de investigações sobre a produção de Dark Horse. Em publicações posteriores, a Agência Pública revelou documentos que indicariam tentativas de contratação de serviços financeiros na Hungria para viabilizar pagamentos ligados ao projeto.
Os registros também apontariam uma possível transferência de US$ 57,5 mil ao diretor Cyrus Nowrasteh, além de negociações envolvendo direitos sobre a história de vida de Bolsonaro.
A Agência Pública informou que procurou Cyrus Nowrasteh e a Go Up Entertainment para comentar as informações reveladas nos documentos, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.
Aportes milionários para o projeto
Segundo documentos obtidos pelo The Intercept Brasil, o planejamento financeiro previa quase US$ 24 milhões em aportes para o projeto de Dark Horse, valor que correspondia a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época.
A investigação revelou ainda que, até maio de 2025, pelo menos US$ 10,6 milhões já haviam sido transferidos ao fundo Havengate, responsável pela produção do filme. O fundo é controlado por Paulo Calixto, advogado do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Imagem reproduzida da Internet