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O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou a negar, por meio de uma nova nota oficial, que tenha questionado a integridade do sistema de votação brasileiro durante um evento promovido com diplomatas estrangeiros em Brasília. Apesar de o novo comunicado reiterar uma declaração de “integral confiança” nas urnas eletrônicas e no processo eleitoral do país, o parlamentar evitou explicar ou retratar a menção a uma informação falsa sobre a origem dos equipamentos de votação utilizados no Brasil.
Durante discurso proferido na terça-feira (21) no encontro “Debatendo o Brasil” — evento organizado pelo portal The Brazilian Report e pela agência Novo Selo Comunicação —, o filho de Jair Bolsonaro (PL) citou dados inverídicos que vinculam as urnas brasileiras à empresa venezuelana Smartmatic. A declaração ocorre no mesmo contexto em que seu pai, Jair Bolsonaro, cumpre pena de inelegibilidade determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) justamente por ter realizado uma reunião com embaixadores para desferir ataques e insinuações sem provas contra o sistema eleitoral.
Silêncio sobre a origem da informação falsa
No novo documento divulgado à imprensa, assinado conjuntamente por Flávio Bolsonaro, pelo senador Rogério Marinho (coordenador-geral da pré-campanha) e pela advogada Maria Claudia Bucchianeri (coordenadora jurídica), a equipe do pré-candidato ignora a origem da fake news citada no evento, desmentida categoricamente pela Justiça Eleitoral desde 2017.
O texto oficial argumenta que, em seu pronunciamento perante representantes diplomáticos de 42 países — incluindo nações como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Israel, Austrália, África do Sul, Paraguai e integrantes da União Europeia —, o senador “se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa”.
De acordo com o comunicado assinado pela cúpula da pré-campanha, os dois pontos abordados em caixa alta na nota foram:
“1) O FATO ORIGINARIAMENTE GERADOR DA INELEGIBILIDADE DE SEU PAI, JAIR BOLSONARO (uma notória reunião com embaixadores); 2) UM RELATÓRIO RECENTEMENTE DIVULGADO PELA CIA, A RESPEITO DE FRAUDES NAS ELEIÇÕES VENEZUELANAS”.
A nota acrescenta que a fala do parlamentar sobre o tema foi “brevíssima” e enfatiza que Flávio explicitou no evento não estar “questionando o sistema de votação brasileiro”, mas apenas incentivando o envio de missões internacionais de acompanhamento.
“AFASTADA QUALQUER DESCONTEXTUALIZAÇÃO DAS FALAS DO PRÉ-CANDIDATO, SUA EQUIPE DE PRÉ-CAMPANHA REAFIRMA SUA INTEGRAL CONFIANÇA NO SISTEMA ELEITORAL BRASILEIRO E SUA CRENÇA IRRESTRITA DE QUE AS MISSÕES DE OBSERVAÇÃO INTERNACIONAL DEVEM SER FORTEMENTE ESTIMULADAS, POIS CONTRIBUEM PARA O ‘APERFEIÇOAMENTO DO PROCESSO ELEITORAL, AMPLIANDO A TRANSPARÊNCIA, A INTEGRIDADE E A CONFIANÇA PÚBLICA NAS ELEIÇÕES’”, destaca o trecho final do comunicado.
As declarações e a citação de documentos da CIA
Apesar de a nota alegar que o pré-candidato não colocou as urnas sob suspeita, a fala presencial de Flávio Bolsonaro resgatou alegações infundadas. Na ocasião, o parlamentar fez menção a papéis atribuídos à Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), tornados públicos recentemente no contexto de desdobramentos promovidos pela gestão de Donald Trump após as eleições norte-americanas de 2020.
Embora o próprio relatório citado aponte apenas que oficiais venezuelanos desenvolveram interesse e “alguma capacidade” para manipular sistemas eletrônicos — sem apresentar qualquer confirmação definitiva de fraudes eletrônicas em grande escala executadas naquele país —, Flávio utilizou o documento para citar diretamente a Smartmatic perante os diplomatas:
“E uma das suspeitas é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, é que tenha uma programação para alteração das votações naquele país”, afirmou o senador durante o painel. Em seguida, completou com o dado falso: “Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”.
Instantes depois de proferir a declaração incorreta, o parlamentar fez o apelo pelo envio de observadores externos:
“O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes”, declarou.
O desmentido oficial do TSE e o histórico da Smartmatic
A alegação de que as urnas eletrônicas brasileiras seriam fabricadas ou programadas pela Smartmatic é totalmente improcedente e já foi alvo de reiterados desmentidos formais por parte da Justiça Eleitoral em 2017, 2020 e 2022. Procurado novamente após a fala do pré-candidato, o TSE reafirmou categoricamente que não existe qualquer vínculo entre a fabricação ou operacionalização do sistema de votação nacional e a empresa citada.
Conforme esclarecido pela Corte Eleitoral em nota oficial emitida ainda em 2017:
“As urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas por técnicos a serviço da Justiça Eleitoral e são produzidas, sob a sua direta coordenação, por empresas selecionadas por meio de processos licitatórios públicos e de ampla concorrência”.
A Smartmatic atuou no Brasil unicamente em contratos específicos para prestação de serviços de apoio e conexão de transmissão de dados e voz, sem jamais ter tido acesso, ingerência ou participação na programação, desenvolvimento de software ou operação interna das urnas eletrônicas. A empresa chegou a disputar uma licitação pública para a fabricação dos modelos de urnas utilizados no pleito de 2020, porém foi derrotada no processo concorrencial por outra companhia.
Defesa de Jair Bolsonaro e omissão nas redes sociais
Durante o evento em Brasília, Flávio Bolsonaro também aproveitou a presença dos embaixadores para tentar reinterpretar o episódio que levou seu pai à inelegibilidade. Em 2022, Jair Bolsonaro convocou diplomatas no Palácio do Planalto para veicular ataques sem provas contra as urnas, ação que a Justiça Eleitoral enquadrou como abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação de massa, devido à transmissão do ato na TV Brasil e em redes oficiais.
Na avaliação de Flávio, contudo, o ex-presidente era apenas “alguém que tinha uma preocupação com a transparência, a segurança do nosso sistema eleitoral e apenas manifestava as suas preocupações para que os embaixadores levassem esse cenário de preocupação para os seus países”.
Nas redes sociais, o senador optou por divulgar trechos selecionados de sua participação no evento. Ele publicou um vídeo focando na menção à condenação de Jair Bolsonaro e a uma alegada “perseguição” contra seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) — citando que este foi recentemente beneficiado com a concessão de um green card pelas autoridades dos Estados Unidos. As declarações em que propagou o dado falso sobre a relação entre as urnas eletrônicas e a Smartmatic, no entanto, não foram incluídas na publicação realizada pelo parlamentar.
Foto: Agência Senado