por Pedro Benedito Macial Neto, no Brasil 247
Todos já perceberam que a candidatura de Flávio Bolsonaro é “de papel”, assim como as “cidades de papel”.
As “cidades de papel” são locais fictícios inseridos propositalmente em mapas por cartógrafos. O principal objetivo dessa prática era a proteção de direitos autorais, servindo como uma prova jurídica para pegar concorrentes que cometam plágio ao copiar o mapa sem autorização.
No que diz respeito ao filho “01” do ex-presidente Jair Bolsonaro, a candidatura é “de papel” pois não tem substância, propostas e sequer representa algum interesse nacional. Os Bolsonaro propõem a anistia ao ex-presidente e um alinhamento integral aos interesses dos EUA; essa é toda a proposta deles.
E é exatamente esse alinhamento integral que deve nos preocupar, pois é inegável que o decadente império busca submeter toda a América Latina aos seus interesses e o faz sem qualquer pudor, tanto que Trump confessou que roubou petróleo venezuelano.
Mas não é só.
Bastidores políticos apontam que a ingerência externa na América Latina pode estar prestes a ganhar um novo e perigoso capítulo. Especula-se que o Departamento de Justiça e o Departamento de Estado dos Estados Unidos — sob controle direto da extrema-direita alinhada ao governo de Donald Trump — estariam dispostos a forjar delações premiadas no exato estilo do que foi feito na Operação Lava Jato, tendo como um dos alvos centrais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Assim como os agentes da chamada “República de Curitiba” atuaram para desenhar narrativas e influenciar o cenário político brasileiro, Washington estaria preparando uma verdadeira bomba reputacional contra lideranças progressistas do continente.
A articulação foi detalhada em reportagem assinada por Luiz Carlos Azenha na Revista Fórum, sob o título “EUA podem forjar delação contra líderes de esquerda da América Latina”, apontando a Venezuela como o epicentro das manobras geopolíticas da Casa Branca.
O papel de Alex Saab e o precedente da Lava Jato
Segundo a análise de Azenha, o ponto de virada para essa nova estratégia gira em torno de Alex Saab, empresário colombiano-venezuelano apontado como figura de confiança do antigo regime chavista. Após ser preso novamente em Caracas e entregue às autoridades norte-americanas, Saab enfrenta acusações na Flórida e uma pena que pode chegar a 20 anos de prisão. E pode ser ele a delatar em troca de sua liberdade.
Diante de uma condenação severa, o cenário cria o ambiente ideal para acordos de colaboração premiada dirigidos. Assim como ocorreu nos anos de pico da Lava Jato no Brasil, acordos firmados sob forte pressão penal correm o risco de se tornarem instrumentos de acusação sob encomenda, moldados para atingir alvos políticos predeterminados.
O objetivo geopolítico dos EUA é redesenhar a América Latina
O pano de fundo dessas movimentações ultrapassa as fronteiras judiciais e escancara um objetivo estratégico de longo prazo: desarticular a autonomia política da América do Sul e neutralizar líderes que desafiam a hegemonia de Washington.
Há um componente de vingança nisso tudo. O avanço sobre a região é visto por analistas como uma resposta tardia à derrocada da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) em 2005, em Mar del Plata, articulada ativamente por nomes como Lula, Hugo Chávez e Néstor Kirchner.
Com mudanças recentes no comando do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) e a ascensão de nomes de estrita confiança da extrema-direita na diplomacia, o uso de aparelhos de Estado para interferência política externa voltou ao centro das atenções.
O cenário regional recente já acumula episódios polêmicos de apoio a governos alinhados e disputas eleitorais marcadas por denúncias de fraude e atuação clandestina na América Central e do Sul.
O alerta emitido por analistas e veículos da imprensa independente acende o sinal vermelho para o processo democrático brasileiro e sul-americano. A utilização do aparato policial e judiciário norte-americano para fabricar acusações contra Lula e outros líderes regionais reativa a velha tática do lawfare em escala internacional. Trata-se de uma ameaça direta à soberania dos países latino-americanos e à estabilidade das suas instituições democráticas.
E na quadra dos investimentos? O que interessa ao Brasil?
No século XXI, os Estados Unidos mantêm a liderança no estoque histórico de investimentos diretos no Brasil, enquanto a China registra o crescimento mais rápido e foca em setores estratégicos de infraestrutura e energia. Nenhuma das duas informações deve ser ignorada.
Os Estados Unidos lideram o ranking acumulado de investimentos estrangeiros diretos (IED) no país, somando mais de US$ 270 bilhões a US$ 300 bilhões, resultado de uma longa presença de filiais e operações multinacionais tradicionais.
Já a China possui um estoque acumulado menor (na casa de dezenas de bilhões), mas apresentou um salto expressivo nos últimos anos, atingindo aportes anuais superiores a US$ 6 bilhões (com alta de 45% recentemente), liderando frentes globais de expansão externa no mercado brasileiro.
Os investimentos dos EUA estão focados em bens industriais, tecnologia da informação, serviços financeiros, bens de consumo e reconfiguração de cadeias de valor globais por empresas privadas.
Os investimentos da China são direcionados fortemente por estatais e grandes corporações para setores de infraestrutura, energia elétrica, petróleo, mineração e, mais recentemente, veículos elétricos e energias limpas.
Desde 2009, a China superou os EUA como o principal parceiro comercial global do Brasil, impulsionada pela compra de commodities (soja e minério de ferro). No entanto, no estoque de capital produtivo instalado, os EUA continuam na frente; ou seja, não interessa ao Brasil conflito com nenhum dos dois países.
Tensões comerciais internacionais e barreiras tarifárias têm acelerado a busca de espaço por parte de indústrias chinesas no Brasil, preenchendo vazios em licitações de infraestrutura e diversificando a disputa de influência econômica com Washington.
Ou seja, o Brasil é um país soberano que não deve buscar alinhamento a qualquer país, nem submeter seus interesses a “A” ou “B”. Por essas e outras devemos votar em Lula e nos senadores, deputados federais, estaduais e governadores que apoiem o presidente Lula, pois ele saberá conduzir com altivez o país.
E, no processo eleitoral, temos que MILITAR de verdade.
Essas são as reflexões.
* Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007
Foto: Reprodução/Instagram/@FlavioBolsonaro via BBC