Está no Brasil 247
Os Estados Unidos [1] anunciaram nesta terça-feira (4) que revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Segundo o Departamento de Estado, a medida é uma resposta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA no Brasil.
A medida foi anunciada 10 dias após o Itamaraty negar vistos a dois diplomatas [2] do Departamento de Estado. Eles foram apontados pelo jornal The Washington Post como integrantes de uma estratégia para questionar o sistema eleitoral brasileiro, o que os EUA negam. O governo brasileiro já esperava retaliações [3].
Nesta terça-feira, o governo americano afirmou que a revogação do visto da embaixadora brasileira não significa a expulsão da diplomata. Segundo os EUA, ela poderá permanecer no país, mas sem um visto válido.
Os EUA disseram ainda que o documento poderá ser restabelecido caso o Brasil conceda o aval diplomático para a nomeação do embaixador indicado por Washington.
Ao g1, um porta-voz do Departamento de Estado esclareceu que a embaixadora não foi declarada persona non grata, mas que precisará solicitar um novo visto americano caso deixe os EUA e queira retornar ao país.
“O presidente Trump está formando uma equipe diplomática de alto nível alinhada à política ‘America First’ [EUA em primeiro lugar] em todo o governo, sujeita ao aconselhamento e à aprovação do Senado. Rejeitamos qualquer tentativa de países estrangeiros de interferir em nossos processos internos.”
Perez foi indicado ao cargo de embaixador dos EUA no Brasil em junho [4]. Há duas semanas, a indicação dele recebeu o aval de uma comissão do Senado norte-americano, mas ainda precisa ser aprovada pelo plenário da Casa.
Segundo o blog da Ana Flor, a indicação de Perez causou mal-estar [5] no governo brasileiro porque o anúncio foi feito antes de uma consulta reservada às autoridades brasileiras.
- Tradicionalmente, a nomeação de um embaixador só é anunciada após o país anfitrião sinalizar que aceita a indicação.
- No caso de Perez, o pedido de aval foi feito ao governo brasileiro mais de duas semanas após o anúncio da indicação pela Casa Branca.
O governo americano alega que as autoridades brasileiras sinalizaram que a autorização só deve ser dada após as eleições presidenciais de outubro. O Departamento de Estado disse ainda não descartar outras medidas.
“Lamentamos a situação em que nos encontramos, mas deixamos muito claro que a reciprocidade é a regra do jogo. Se outro governo não permitir que realizemos nosso trabalho da maneira adequada, responderemos com medidas recíprocas.”
Nos bastidores, diplomatas brasileiros classificaram a medida como uma “chantagem” [6].
No dia 1º de junho, a Casa Branca anunciou a indicação de Daniel Perez para o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil [4]. Perez, de 38 anos, é presidente da Câmara dos Deputados da Flórida e ainda precisa ser confirmado pelo Senado americano.
Se aprovado, ele será o primeiro embaixador dos EUA no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada por Joe Biden. O posto está vago desde janeiro de 2025, quando Trump retornou à Casa Branca.
Filho de imigrantes cubanos, Perez nasceu em Nova York e se mudou com a família para a Flórida ainda criança, em 1993. Atualmente, ele faz parte do Partido Republicano, o mesmo de Trump, e demonstra apoio às políticas do presidente.
O indicado para a Embaixada dos EUA no Brasil estava no comando da Câmara da Flórida desde 2024. No ano passado, ele chegou a ser apontado como possível candidato ao cargo de procurador-geral do estado, mas resolveu permanecer na presidência da Casa.
Escalada de tensões
As relações entre Brasil e Estados Unidos começaram a se deteriorar em julho do ano passado, quando o presidente Donald Trump anunciou tarifas sobre produtos brasileiros importados pelos norte-americanos.
Na época, Trump justificou o tarifaço pelo que chamou de “caça às bruxas” [7] contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos meses seguintes, negociações entre o governo brasileiro e a Casa Branca ajudaram a reduzir as tensões. No fim de 2025, os Estados Unidos aliviaram as tarifas e retiraram algumas sanções contra autoridades brasileiras.
Além disso, Lula e Trump se encontraram duas vezes. O presidente brasileiro visitou Washington em 7 de maio [8] para se reunir com o líder americano, que chegou a elogiar o petista após os encontros.
No entanto, a relação entre os dois países voltou a se desgastar no fim de maio, quando os Estados Unidos classificaram as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas [9].
A decisão foi anunciada dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, se reunir com Trump [10] e com o secretário de Estado, Marco Rubio [11], nos Estados Unidos.
Semanas depois, os Estados Unidos anunciaram novas tarifas contra o Brasil. Em 22 de julho, entrou em vigor uma taxa de 25% [12] como resultado de uma investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio.
A medida foi anunciada após o governo Trump concluir que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA. Entre os exemplos citados estão o sistema de pagamentos PIX [13] e a regulação de plataformas digitais.
Dois dias depois, os EUA confirmaram outra tarifa, de 12,5%, contra o Brasil e dezenas de outros países. O governo americano alegou práticas comerciais desleais pela falta de combate ao trabalho forçado [14].
Ainda no dia 24 de julho, o Itamaraty negou vistos a dois diplomatas do Departamento de Estado que viajariam ao Brasil [2]: o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson.
- Os dois foram citados em reportagem do jornal The Washington Post como responsáveis por uma estratégia para questionar a integridade e a confiabilidade [15] do sistema eleitoral brasileiro.
- Um porta-voz do Departamento de Estado negou que os funcionários pretendiam interferir nas eleições.
- Segundo os EUA, a visita tinha como objetivo discutir “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão” com autoridades brasileiras e representantes da sociedade civil.
O blog da Andreia Sadi revelou que o governo brasileiro já esperava algum tipo de retaliação após a negativa dos vistos. Fontes do Itamaraty avaliavam uma reação no campo diplomático, com novas restrições de vistos.
Foto reproduzida da Internet