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O hacker Walter Delgatti Neto disse em depoimento à CPI dos Atos Golpistas que, em uma reunião com o então presidente Jair Bolsonaro [1], em 2022, ouviu que o governo já tinha conseguido grampear o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
E que Bolsonaro teria, nesse encontro, sugerido que Delgatti Neto “assumisse a autoria” do grampo.
A conversa, ainda de acordo com o hacker, foi intermediada pela deputada federal Carla Zambelli [2] (PL-SP). “Ela pegou um celular que estava com ela, enviou mensagem a alguém e o presidente da República entrou em contato comigo”, disse Delgatti.
“E segundo ele [Bolsonaro], eles haviam conseguido um grampo, que era tão esperado à época, do ministro Alexandre de Moraes. Que teria conversas comprometedoras do ministro, e ele precisava que eu assumisse a autoria desse grampo”, diz o hacker.
Ainda segundo Delgatti, a ideia por trás dessa estratégia era evitar questionamentos “da esquerda” – já que, por ter hackeado autoridades ligadas à operação Lava Jato, em anos anteriores, ele gozaria de certo prestígio entre os opositores de Bolsonaro.
“Lembrando que, à época, eu era o hacker da Lava Jato, né. Então, seria difícil a esquerda questionar essa autoria, porque lá atrás eu teria assumido a ‘Vaza-Jato’, que eu fui, e eles apoiaram. Então, a ideia seria um garoto da esquerda assumir esse grampo”, relatou.
Delgatti disse ainda:
- que o grampo, segundo ouviu de Bolsonaro, teria sido feito por estrangeiros;
- que não chegou a acessar as conversas supostamente grampeadas, e não sabe se elas existem;
- e que, em troca de assumir a autoria do grampo, receberia um indulto presidencial [3].
Delgatti ficou conhecido por ter vazado, em 2019, mensagens atribuídas ao então ministro da Justiça e ex-juiz Sergio Moro, a integrantes da força-tarefa da Lava Jato e outras autoridades [4]. Ele chegou ao Senado pouco antes das 9h.
Recentemente, o “hacker de Araraquara” voltou à mira da Polícia Federal pela invasão de sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) [5] para a inclusão de um falso mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
No ofício, havia inclusive a frase “faz o L” — um dos slogans da campanha eleitoral mais recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
À época, Walter Delgatti Neto disse que o falso documento foi redigido pela deputada Carla Zambelli (PL-SP).
No total, foram aprovados 6 requerimentos para convocação do hacker [6] — todos de autoria parlamentares da base de apoio do governo, entre eles a senadora Eliziane Gama (PSD-MA).
Na noite de quarta (16), o ministro Edson Fachin [7], do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou que o hacker recorra ao silêncio durante o depoimento [8]. A decisão atendeu a um pedido da defesa de Delgatti [9].
Segundo Fachin, ele também:
- poderá contar com a assistência de um advogado
- e não deverá “sofrer constrangimentos físicos ou morais decorrentes do exercício dos direitos anteriores”
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados