Quando começou a pensar no seu retorno a Natal, de onde tinha partido vinte anos antes, a primeira providência da jornalista Stella Galvão foi abrir um espaço em um jornal local para publicar semanalmente suas crônicas. Assim foi tecendo a teia deste volume que agora é impresso, um ano depois de ter lançado âncora em solo potiguar. Stella abraçou o gênero ‘crônica’ por força de uma encomenda. A revista feminina na qual trabalhava inaugurou uma nova coluna, ‘Bom humor é tudo’, e ela foi convocada para a empreitada mensal.
Daí para a produção semanal foi um salto, não totalmente no escuro porque crônica se alimenta do cotidiano e sua matéria-prima é a vida tal como se apresenta, dia após dia, ou seu reverso, as faces outras da moeda que nem sempre estão à vista. Como escreveu Machado de Assis, um dos mais notáveis cronistas brasileiros: “Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor!” As crônicas surgiram, assim, no meio do caminho entre o desejo de retratar o real e de fazê-lo de forma inusitada, divertida, subjetiva, bizarra etc. Como na receita machadiana: “Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, está começada a crônica (…).”
Esta reunião de quarenta crônicas aconteceu por incentivo de alguns leitores, presos eles próprios da ligeireza e da graça desse formato que se não chega a ser considerado do primeiro time literário, é certamente um dos mais lidos. Para o projeto deste livro, batizado de “Calos e Afetos”, Stella contou ainda com a colaboração inestimável dos seus pupilos do curso de Design Gráfico da UnP, onde dá aulas de Estética na área da Comunicação. Eles ilustram o livro preservando o estilo autoral e revelando talentos que já flertam com o mercado.
O espírito da coisa toda foi capturado pelo designer gráfico e publicitário Caio Vitoriano, que concebeu uma capa vibrante e sedutora, com cores fortes e registros das calosidades emocionais humanas. Assim também descreveu o jornalista Adriano de Sousa no prefácio deste volume de 160 páginas: “O trânsito formal da autora é facilitado pela fatura híbrida dos textos. O registro das situações é episódico, mundano, sem flertes com o poético ou o onírico usados como pontos de fuga pelos que reduzem a crônica a artefato lírico, a poema em prosa (…). Quase não há ternura, bondade ou compaixão nas criaturas escritas por Stella Galvão. Há a compreensão fria, distanciada, mas sem atenuar idiossincrasias cultivadas como flores de estufa.”
Calos e Afetos
Lançamento: 18 de dezembro, sexta-feira, a partir das 19h
Local: Antigo Liceu e TV Universitária, av. Rio Branco, 743, Cidade Alta.