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Leitores inflados

por Stella Galvão

Numa cidade de porte médio, onde alguns se conhecem pelo sobrenome – ou por algum público escândalo mais ruidoso –, os blogs de notícia floresceram como plantas em terreno fértil. Alguns permaneceram, outros pereceram. Coisas da vida digital.

Uns cresceram com adubo informativo, outros com boato. Um deles explodiu com a força de um disse-me, disse-me. Um tipo de endereço online que se gaba, com a mesma naturalidade de quem comenta o clima, de reunir milhares, talvez centenas de milhões de leitores. Uma multidão invisível que parece surgir toda vez que uma manchete grita mais alto que qualquer aspiração à ideia de verdade.

Como aquelas chamadas sensacionalistas dos velhos jornalões e hoje dos programas policiais televisivos. “Urgente”, “Exclusivo”, “Inacreditável”. De fato, muitas vezes não dá pra acreditar mesmo – não porque seja impressionante, mas porque ninguém parou pra conferir. O relato chega cheio de espalhafato, e é publicado com a pressa de quem teme que a realidade estrague a narrativa.

Do outro lado da rua digital, existem os blogs que se pretendem sérios. Menos coloridos, menos exclamativos, mais… silenciosos. São feitos por jornalistas que ainda acreditam em fonte, checagem, ouvir o outro lado – palavreado que rende menos cliques. Publicam menos, refletem mais, talvez. E, por isso mesmo, são lidos como quem consulta um relógio antigo: com atenção, sem pressa. Mesmo porque por vezes há textão.

O problema é que respeito não paga anúncio.

E anúncio, como se sabe, prefere multidão.

Voltemos então aos blogs milionários e sua aritmética peculiar. São milhões de leitores, dizem. Alguns falam em dezenas de milhões, acumulados ao longo de uma década, pouco mais. Um feito impressionante, tanto quanto o fato de a cidade que os abriga somar ao redor de 800 mil almas, numa zona estadual que mal ultrapassa 3,5 milhões de viventes.

A conta não fecha, mas a fama fecha contratos.

Alguns céticos se perguntam onde vivem esses leitores. Se estão espalhados pelo mundo, sedentos por notícias oriundas de uma cidade onde o ar é fortemente respirável, ou se são como certas promessas de campanha: existem mais no discurso do que na realidade. Talvez tenham se multiplicado em silêncio, como números em planilhas generosas. Ou talvez tenham desaparecido com a mesma facilidade com que surgiram, dissolvidos no esquecimento de cliques antigos.

No fim das contas, pouco importa. Na economia da atenção, o que vale não é exatamente quem lê — mas quem parece ler. E, nessa cidade, aparência sempre foi um dado difícil de contestar.

*Stella Galvão é jornalista, cronista e colaboradora do blogdobarbosa

Ilustração de George Grosz, um dos grandes do Expressionismo alemão

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