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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva [1] (PT) afirmou que a ação dos Estados Unidos na Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro [2], representam “mais um capítulo lamentável na erosão contínua do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”.
Em artigo publicado neste domingo (18) pelo jornal americano “The New York Times”, Lula alertou que o uso recorrente da força por grandes potências enfraquece a autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) e de seu Conselho de Segurança.
Na opinião do presidente, “quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser exceção e passa a ser regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”.
Lula já havia criticado a ação americana no dia 3, horas após a captura de Maduro. Naquela ocasião, falou em “afronta gravíssima à soberania da Venezuela”. Pesquisa Quaest divulgada na última quinta-feira (15) revelou que 51% dos brasileiros acham que o presidente errou [3] em seu posicionamento.
No artigo publicado pelo The New York Times, Lula argumentou que o respeito seletivo às normas internacionais leva à desordem e fragiliza os Estados individualmente e o sistema internacional como um todo.
“Sem regras acordadas coletivamente, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas”, escreveu.
Para ele, ações unilaterais “ameaçam a estabilidade ao redor do mundo, interrompem o comércio e os investimentos, aumentam o fluxo de refugiados e enfraquecem ainda mais a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais”.
O presidente disse ser “particularmente preocupante” que esse tipo de prática esteja sendo aplicado à América Latina e ao Caribe, regiões que, segundo ele, buscam a paz por meio da igualdade soberana entre as nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos.
Lula ressaltou que esta é a primeira vez, em mais de 200 anos de história independente, que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos.
“A América Latina e o Caribe abrigam mais de 660 milhões de pessoas. Temos nossos próprios interesses e sonhos a defender”, afirmou. Em um mundo multipolar, segundo Lula, nenhum país deveria ter suas relações exteriores questionadas por buscar universalidade. “Não seremos submissos a projetos hegemônicos.”
No artigo, o presidente também defendeu uma agenda regional positiva, capaz de superar diferenças ideológicas em favor de resultados pragmáticos, com foco em investimentos em infraestrutura física e digital, geração de empregos, aumento da renda e ampliação do comércio.
Ele também destacou a importância da cooperação no combate à fome, à pobreza, ao tráfico de drogas e às mudanças climáticas.
Lula afirmou que “a história mostrou que o uso da força nunca nos aproximará desses objetivos” e classificou como ultrapassadas e prejudiciais a divisão do mundo em zonas de influência e as incursões neocoloniais em busca de recursos estratégicos.
O presidente brasileiro declarou ainda que o futuro da Venezuela “deve permanecer nas mãos de seu povo” e que apenas um processo político inclusivo, liderado por venezuelanos, pode levar a um futuro democrático e sustentável.
Segundo ele, essa é uma condição essencial para que milhões de venezuelanos — muitos deles atualmente acolhidos no Brasil — possam retornar com segurança ao país.
Ao final do artigo, Lula disse que o governo brasileiro mantém diálogo construtivo com os Estados Unidos e destacou que Brasil e EUA são as duas democracias mais populosas do continente americano.
“Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”, disse.
Lula discutiu sobre EUA e Venezuela com líderes
Após a operação contra Maduro, Lula manteve conversas telefônicas com os presidentes [4] da Colômbia, Gustavo Petro, do México, Claudia Sheinbaum, e com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.
Nas conversas, os líderes disseram que a situação da Venezuela deve ser resolvida sem violência, por meio de diálogo e negociação, e com decisões tomadas pelos próprios venezuelanos.
Em conversa com Petro, Lula rejeitou a legitimidade da ação do governo Donald Trump [5] e manifestou preocupação com o uso da força contra um país sul-americano.
Com Canadá e México, Lula reforçou a defesa de um processo de transição pacífico e liderado pelos próprios venezuelanos, além da rejeição à lógica de “zonas de influência” na região. Os líderes também reafirmaram apoio ao multilateralismo, ao direito internacional e à soberania dos Estados.
O governo brasileiro também adotou medidas práticas diante da crise, como o reforço da fiscalização militar na fronteira com a Venezuela [6] e o envio de ajuda humanitária, incluindo medicamentos e insumos médicos [7].
O Brasil defende que o caso seja discutido em fóruns multilaterais, como a ONU e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), bloco político que reúne os 33 países da América Latina e Caribe, exceto EUA e Canadá.
Quaest: maioria critica reação de Lula
Cenário interno, a postura do presidente gerou reação dividida. A pesquisa Quaest divulgada na última quinta-feira (15) mostrou que 51% dos brasileiros consideram errada a condenação de Lula à ação dos EUA [3].
O levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 8 e 11 de janeiro. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.