Está no Brasil 247
A reeleição histórica de Luiz Inácio Lula da Silva para o seu quarto mandato presidencial alcançou uma repercussão tectônica no tabuleiro internacional. Para o analista geopolítico e jornalista internacional Pepe Escobar, o desfecho do segundo turno brasileiro representou a superação vitoriosa do mais complexo e prolongado laboratório de desestabilização já aplicado contra um país do Sul Global.
Em entrevista concedida a Leonardo Attuch na TV 247, Escobar — que entrevistou Lula em 2018 durante os dias de cárcere em Curitiba — traçou uma linha de continuidade entre a espionagem estatal, o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff em 2016, a perseguição judicial da Operação Lava Jato e a recente tentativa de entrega do país a interesses coloniais.
“O que aconteceu no Brasil foi a vitória contra a mãe de todas as guerras híbridas. Eles tinham certeza de que o país cairia de volta no colo do império como a cereja do bolo de sua estratégia continental. A derrota no último minuto infligiu um dano psicológico e estratégico brutal às forças de coerção global”, avaliou o correspondente internacional.
A síntese dialética: massas nas ruas e ‘guerrilha Viet Cong digital’
Ao tentar explicar a audiências internacionais como o cenário eleitoral foi revertido entre o primeiro e o segundo turno, Escobar sublinhou que a vitória não se operou por meio da frieza das convenções partidárias convencionais. Tratou-se, em sua leitura, de um fenômeno duplo e espontâneo que desarmou as previsões estatísticas e os algoritmos do chamado “tecnofeudalismo”.
Para o analista, o país testemunhou uma conjunção entre dois motores revolucionários:
- A revolução na terra e nas ruas: A reação espontânea iniciada por estudantes universitários e abraçada por trabalhadores, idosos e populações ribeirinhas na Amazônia. “Não foi um jantarzinho de granfinos. A revolução é na rua, com a consciência de defender a soberania do país do chão da fábrica à beira do rio”, apontou Escobar, citando a máxima de Mao Tsé-Tung.
- A infantaria digital subterrânea: A articulação descentralizada de núcleos de comunicação e coletivos nas redes — movimento que ele qualificou como uma “guerrilha Viet Cong digital” ou “rizomática”, inspirada nos conceitos dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari —, que conseguiu hackear o ecossistema das plataformas e virar as narrativas contra os próprios controladores do aparato tecnológico.
Essa articulação coletiva permitiu abrir uma margem incontestável de quase quatro milhões de votos sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro, sobrepujando inclusive as apostas e predições de mercado de plataformas como Polymarket, cuja arquitetura de dados e inteligência apontava ampla vantagem para o extremismo conservador às vésperas da votação.
O império ferido: o alerta para os perigos do ‘Lula 4’
Apesar de celebrar a conquista popular, Pepe Escobar fez um alerta severo e contundente sobre as batalhas que se avizinham. Segundo ele, a coalizão de interesses que articulou o cerco ao Brasil — composta pelo sistema financeiro, rentistas da Faria Lima, oligarquias tradicionais, conglomerados da grande mídia corporativa e setores da inteligência norte-americana — foi derrotada nas urnas, mas mantém intacta sua capacidade de sabotagem.
“Governar o Brasil a partir de janeiro vai ser como rolar uma pedra em um Himalaia infinito. O império e suas elites compradoras não aceitam perder. A especulação sobre o câmbio, a chantagem dos juros altos e o terrorismo fiscal já começaram no dia seguinte à apuração. Não haverá descanso. A mobilização popular terá que ser permanente para defender a posse e garantir que o governo não seja engolido pela chantagem institucional.”
O analista comparou a tentativa de asfixia econômica imediata ao mesmo roteiro de guerra não convencional já aplicado na América Latina, advertindo que o presidente Lula precisará manter canais diretos com o povo para explicar cotidianamente as armadilhas montadas para paralisar o Executivo.
O Brasil, os BRICS e a geopolítica do Sul Global
No xadrez planetário, a vitória de Lula devolve ao Brasil o status de protagonista do equilíbrio multipolar em um instante de aguda crise do Ocidente. Escobar contextualizou a derrocada do projeto bolsonarista frente aos fracassos das potências ocidentais na Eurásia, ao esgotamento das guerras por procuração e ao isolamento crescente do eixo anglo-sionista no Oriente Médio.
Segundo o jornalista, a manutenção do Brasil sob liderança soberana evita que a nação atue como um “cavalo de Troia” dentro dos BRICS justamente na véspera da cúpula do bloco sob presidência da China. Ao lado de parceiros da Ásia e da África, o país volta a se posicionar como o motor diplomático indispensável para a construção de mecanismos autônomos de comércio e financiamento, desafiando a dependência histórica das reservas em dólar e a tutela imperial sobre a América Latina.
A análise completa de Pepe Escobar e todos os detalhes da geopolítica mundial debatidos com o jornalista Leonardo Attuch podem ser assistidos na íntegra no canal da TV 247: Pepe Escobar: o Brasil derrotou a mãe de todas as guerras híbridas [1].
Foto: Ricardo Stuckert