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“Lula vai vencer e tem grandes chances de ser no primeiro turno”, afirmou o jornalista e biógrafo Fernando Morais em uma entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247. Celebrando exatamente seus 80 anos de idade, um dos maiores nomes do jornalismo literário e da historiografia brasileira revisitou episódios marcantes de sua trajetória, revelou bastidores inéditos de suas grandes obras e ofereceu uma leitura contundente sobre o momento político do país e o cenário geopolítico global.
Com o bom humor refinado que marca sua trajetória, Fernando Morais abriu a conversa brincando sobre o segredo de sua longevidade. Sem beber e sem fumar seus antigos charutos, o jornalista revelou qual é seu único hábito incorrigível ao atingir oito décadas de vida: pilotar sua moto Harley-Davidson. “Não bebo mais, não fumo meus charutos, mas o meu único pecado aos 80 anos é continuar andando de moto”, contou, destacando que pilota sempre com o máximo de proteção, incluindo jaqueta com airbag.
Na infância e na juventude, entretanto, outro esporte famoso ficou totalmente de fora de sua vida. Morais confessou ser um dos raros brasileiros que nunca chutou uma bola de futebol na vida e que não sabe a sensação de marcar um gol. Sua única experiência nos gramados foi absolutamente inusitada: arbitrou uma partida amistosa entre o time do compositor Chico Buarque e os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), liderados por João Pedro Stedile.
Os bastidores de “A Ilha” e a operação secreta de Geisel
Ao relembrar a publicação de A Ilha (1976), obra seminal que vendeu mais de 1 milhão de exemplares e que completa 50 anos com uma nova edição especial em capa dura pela Companhia das Letras, Morais revelou uma história de bastidor mantida em segredo por décadas.
Após passar três meses em Cuba cobrindo o regime socialista em pleno auge da ditadura militar brasileira, o jornalista precisou passar pelo México e pela Argentina antes de retornar. Em Buenos Aires, por orientação da direção de redação, picou seu passaporte, cortou a barba e tirou fotos de rosto limpo para pedir um novo documento no consulado brasileiro sob a alegação de perda.
Apenas anos mais tarde Fernando descobriu quem havia articulado toda aquela complexa rota de fuga e disfarce: o próprio presidente da República, general Ernesto Geisel. O grupo de Geisel e Golbery temia que a ala mais dura e extremista do Exército usasse a viagem do repórter a Havana como pretexto para uma provocação e um eventual golpe interno. “Eu estava sendo protegido pelo presidente da República no auge da ditadura militar sem saber”, rememorou.
O encontro com o assassino de Trotsky e a profecia de Fidel
O autor resgatou também passagens históricas ocorridas em solo cubano. Em 1977, quando aguardou durante 74 dias em um quarto de hotel por uma entrevista exclusiva com Fidel Castro para a revista Veja, Morais viveu momentos memoráveis. Um deles foi o jantar em que tomou rum e fumou charuto sem saber ao lado de Ramón Mercader, o agente soviético que assassinou Leon Trotsky no México.
Quando a entrevista com Fidel finalmente aconteceu — estendendo-se de meia-noite às oito da manhã —, o líder cubano fez uma previsão precisa sobre as transformações tecnológicas. Apontando para o fuzil AK-47 encostado ao sofá e em seguida para o incipiente computador portátil de Fernando, Fidel disparou: “No futuro, a arma mais importante vai ser o seu computador, mais importante do que o meu fuzil”. Para o escritor, a fala antecipou a centralidade das batalhas ideológicas e da guerra de desinformação no mundo contemporâneo.
“No futuro, a arma mais importante vai ser o seu computador, mais importante do que o meu fuzil AK-47.”
— Fidel Castro, em entrevista a Fernando Morais em 1977.
Do MDB à biografia de Lula: a construção do Brasil recente
Sobre a política nacional, o escritor analisou a figura de Getúlio Vargas, os excessos e genialidades de Assis Chateaubriand (Chatô) e o fenômeno Luiz Inácio Lula da Silva. Morais recordou a conversa em que Fidel Castro foi decisivo para impedir que Lula abandonasse a carreira política após ser derrotado na eleição para o governo de São Paulo em 1982. “Fidel disse a ele: ‘Nenhum operário teve 1,2 milhão de votos em lugar nenhum do planeta. Você não tem o direito de fazer isso com os trabalhadores’”, lembrou.
O biógrafo adiantou detalhes sobre o aguardado volume 3 da biografia de Lula. A obra abrangerá os dois primeiros mandatos presidenciais, os reveses políticos do chamado “mensalão”, a criação do Bolsa Família, o governo Dilma Rousseff, o golpe de 2016, a prisão em Curitiba e a vitória eleitoral de 2022. O desfecho do livro, revelou, será a célebre cena em que o apresentador William Bonner anuncia no Jornal Nacional a vitória do petista sobre Jair Bolsonaro.
Protagonismo no Sul Global e os próximos passos
Aos 80 anos e esbanjando lucidez, Fernando Morais destacou que a política externa promovida pelo Brasil no Sul Global e nos BRICS coloca o país na vanguarda da transformação diplomática mundial.
O autor adiantou ainda que não pretende parar: tem na fila de projetos livros sobre Antônio Carlos Magalhães, a história da “República de Princesa” na Paraíba e um volume de memórias nos moldes do clássico Navegação de Cabotagem, reunindo as histórias inusitadas de quem testemunhou a história de perto.
Foto: Ricardo Stuckert