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A pouco mais de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, o cenário eleitoral entra em sua fase mais sensível e decisiva. Em entrevista concedida no sábado (19) ao jornalista Mário Vitor Santos, no programa Forças do Brasil, transmitido pela TV 247, o sociólogo, cientista político e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, fez uma radiografia minuciosa da disputa, alertando para tentativas recorrentes de tumultuar o ambiente democrático e detalhando a mecânica silenciosa que move o eleitorado que define a eleição na última hora.
Para Coimbra, os recentes episódios de tensão institucional e as pressões direcionadas ao Supremo Tribunal Federal (STF) não constituem novidade no histórico político do país. Trata-se, segundo ele, de um padrão recorrente: “Mais uma vez vemos como é possível perturbar o ambiente de uma eleição. Não é a primeira e não será a última vez que, quando o cenário eleitoral se anuncia desfavorável para os interesses de uma parte da elite brasileira, surge algo para atrapalhar a tomada de decisão do eleitor”, pontuou o analista, classificando como sem fundamento as tentativas artificiais de contaminar a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com crises institucionais alheias.
A miragem das pesquisas e a decisão na antivéspera
Com vasta experiência em mensuração de opinião pública, Coimbra fez um alerta contundente sobre a leitura apressada das pesquisas de intenção de voto neste momento da corrida. Ele frisou que as transformações mais profundas e definitivas nas preferências do eleitorado costumam se cristalizar a escassos três ou quatro dias do pleito.
Como exemplo, o sociólogo resgatou o padrão observado em disputas anteriores, a exemplo de 2022, quando uma parcela expressiva da população postergou sua escolha para a última hora.
De acordo com Coimbra, enquanto os levantamentos estimulados — aqueles em que se apresenta uma cartela com os nomes dos concorrentes — reduzem artificialmente a dúvida, a resposta espontânea revela um contingente silencioso e decisivo: entre 25% e 40% dos eleitores brasileiros ainda não têm sua opção consolidada às vésperas da votação.
“A grande divisão do eleitorado não é entre esquerda e direita, nem entre lulistas e antilulistas. A diferença real que conta nesta reta final é entre a pessoa politizada e informada e aquele cidadão que não acompanha o dia a dia político, mas que vai comparecer às urnas e definir a eleição.”
— Marcos Coimbra
O perfil do indeciso: pragmatismo e a forma da `incubência´
Ao dissecar as características desse eleitorado que se decide tardiamente, Marcos Coimbra afastou determinismos meramente demográficos ou socioeconômicos. A diferença basilar, explicou, reside no grau de engajamento político. Trata-se de uma fatia da sociedade com baixo interesse por disputas ideológicas, pouco atenta ao noticiário partidário e imune a querelas institucionais abstratas.
É exatamente sobre esse grupo que atua o que a literatura científica internacional convencionou chamar de peso da incumbência (incumbency factor) — a vantagem inerente a quem já está no exercício do mandato.
“Estar no governo confere uma percepção de concretude e rapidez de implementação. O eleitor pragmático tende a preferir a segurança do que já está funcionando e entregando políticas públicas reais a apostar em promessas abstratas de quem está de fora”, explicou Coimbra. Segundo ele, levantamentos comparados internacionais mostram que governantes que buscam a reeleição contam historicamente com vantagens estatísticas muito superiores aos desafiantes — dinâmica que se repete de forma sólida na história republicana recente do Brasil.
O falso dogma: aprovação de governo versus intenção de voto
Durante a conversa com Mário Vitor Santos, Coimbra também tratou de desmistificar um dos dogmas mais comuns do jornalismo e da análise política tradicional: a ideia de que os índices de aprovação ou avaliação regular de uma gestão determinam, de forma direta e espelhada, o teto de votos de um governante.
O sociólogo sustentou que avaliação e voto pertencem a naturezas cognitivas distintas:
- Avaliação é um cálculo absoluto: O cidadão confronta a atuação do presidente com as expectativas prévias que alimentava a respeito dele próprio (“Lula comparado com a expectativa sobre Lula”).
- Voto é um cálculo estritamente relativo: Diante da urna eletrônica, a escolha passa a ser comparativa (“Lula comparado com a alternativa representada pelo adversário na cédula”).
Essa dissociação explica, por exemplo, como mandatos sob forte desgaste de imagem ainda conseguem alcançar votações robustas, e por que a avaliação moderada do governo não impõe um teto rígido à candidatura de Lula quando confrontada com a alternativa da extrema direita representada pelo clã Bolsonaro.
Derretimento da ‘terceira via’ e a hipótese de 1º turno
Questionado por Mário Vitor Santos sobre as chances reais de uma definição do pleito já no primeiro turno, Marcos Coimbra chamou atenção para o processo de rápida erosão das candidaturas situadas na chamada “terceira via”.
O sociólogo destacou a inexpressividade de nomes que apostavam em estruturas regionais ou vultosos tempos de propaganda no rádio e na televisão — como o governador Romeu Zema, Ronaldo Caiado ou candidaturas avulsas —, que registram traços estatísticos ou margens próximas de zero no voto espontâneo.
Com a polarização concentrada e o esvaziamento irreversível dessas alternativas intermediárias, Coimbra concluiu que a migração natural do eleitorado tardio e despolitizado em direção ao governo de plantão abre, sim, espaço concreto para que a disputa seja liquidada sem a necessidade de uma segunda etapa:
“À medida que a candidatura Lula se consolida e atrai esse contingente motivado por entregas práticas e imediatas, a chance de resolução antecipada cresce. O eleitor comum não quer inventar a roda; ele tende a apostar no que lhe parece mais seguro e tangível”, concluiu.
Em tempo: a íntegra da entrevista de Marcos Coimbra ao jornalista Mário Vitor Santos no programa Forças do Brasil está disponível no canal oficial da TV 247 no YouTube [1].
Foto reproduzida da Internet