por Ricardo Lagreca
Originado da escola de um grande mestre, Joaquim Cavalcanti, desenvolveu com ele seus primeiros passos de um cirurgião que tempos mais tarde iria ocupar um lugar dentre os imortais.
O novo mundo da cirurgia cardíaca que ele viu nascer o deslumbrou e sua habilidade com as mãos passaria a ser um fator preponderante em diminuir as subjetividades e as dificuldades naturais de um tempo que se ainda iniciava como uma verdadeira revolução tecnológica. Esta foi uma característica, talvez uma das maiores, dentre outras, de Mauro Arruda. Transformava o que parecia ser quase impossível, “trabalhosas” como ele mesmo dizia, em situações resolvidas. Uma qualidade que o fez absorver com facilidade, as novas práticas de cirurgiões notáveis que despontavam no mundo afora.
Charles Dubost no hospital Broussais em Paris, Euryclides de Jesus Zerbini no hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, serviços onde desenvolveu suas residências médicas e pôde colaborar com seus crescimentos. Aprendeu com cada um deles como salvar crianças que nasciam com defeitos congênitos dos corações e só com cirurgiões como ele poderiam corrigir o que a natureza não havia feito. Mais tarde faria com a mesma perfeição as correções das doenças adquiridas.
Não foi difícil para todos saberem logo da sua existência, das suas qualidades, da sua postura como um líder nato na utilização das mãos e o integrar por completo no que viria a ser o grande esteio para o desenvolvimento da cirurgia cardíaca da nossa região nordestina e porque não dizer do Brasil.
Atraiu de todos os recantos pessoas que viam nele a esperança da cura das suas doenças. Seu nome era pronunciado com o orgulho por seus discípulos, que o tinham como um grande mestre e um sonho para todos que imaginavam tornar-se um deles.
Não bastando partiu para outras criações. Idealizou técnicas de reconstituições morfológicas de partes do coração. Criou modelos anatômicos de substituições e de estruturas irrecuperáveis de corações.
Não podia jamais deixar de acompanhar tudo que a evolução dos tempos mostrava como caminhos inovadores. O coração que outrora parecia ser um órgão intocável, sagrado, passava a ser a fonte dos trabalhos inesgotáveis de muitos cirurgiões. Mauro Arruda, que acompanhou desde a cirurgia pulmonar, do início da cirurgia cardíaca clássica até a primeira abordagem do coração com circulação extracorpórea, parecia quando realizava as novas técnicas, como se tudo fosse uma sequência da sua própria vida. Uma suíte das cirurgias. Nada era diferente. Realizava tudo com a mesma perfeição.
Assim conseguiu ser o grande pioneiro em muito das técnicas que até hoje seus discípulos praticam de volta para suas casas.
Este foi o dileto Mauro Arruda que conheci e que tive a honra e a felicidade de tê-lo como mestre.
Será sempre lembrado como um gênio de uma habilidade das mãos como de outros gênios de outras artes.
*Ricardo Lagreca é médico cardiologista, professor do Curso de Medicina da UFRN, ex-diretor do Hospital Universitário Onofre Lopes e ex-secretário estadual de Saúde do Rio Grande do Norte