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O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o Brasil enfrenta um cenário internacional marcado pelo avanço da desinformação, por ataques contra instituições democráticas e por tentativas de interferência externa. Para o chanceler, as transformações ocorridas nas redes sociais e nas relações entre os países exigem uma atuação firme do Estado brasileiro na proteção da soberania nacional.
As avaliações foram apresentadas por Vieira no artigo “Mitos e verdades da diplomacia na era da desinformação”, publicado no jornal Correio Braziliense. No texto, o ministro sustenta que a chamada era da pós-verdade permanece presente na política contemporânea e relaciona o fenômeno a recentes confrontos envolvendo governos estrangeiros e instituições brasileiras.
Segundo Vieira, a utilização em larga escala da desinformação, dos algoritmos e das redes sociais como instrumentos de radicalização política representa um problema permanente para os regimes democráticos. O ministro cita as obras Os engenheiros do caos e A hora dos predadores, de Giuliano da Empoli, como referências para compreender o ambiente político atual.
“A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente.”
Um dos pontos centrais do artigo é a reação do chanceler às declarações e medidas tomadas por autoridades estrangeiras contra o Brasil. Vieira afirma que as ofensivas não atingem apenas a Presidência da República e o Poder Executivo, mas alcançam também o Judiciário.
Para o ministro, esse comportamento representa uma ruptura com padrões tradicionais das relações diplomáticas.
“Trata-se de comportamentos grosseiros e sem precedentes de líderes estrangeiros, com ataques frontais à nossa soberania e ao nosso regime democrático, típicos da ‘Hora dos predadores’, que devem ser tratados e repelidos como tal.”
Vieira faz questão de reforçar que emprega a expressão “sem precedentes” de maneira deliberada. Na avaliação apresentada pelo chanceler, embora existam antecedentes históricos para tentativas de subordinação entre países, a forma assumida pelas atuais ofensivas exige novas maneiras de interpretar e responder aos acontecimentos.
“O mundo mudou, mudou para pior nas redes e nas relações internacionais, e, nessas horas, não se pode ser ingênuo nem agir unicamente com base em métricas e padrões do passado.”
Chanceler defende reação proporcional e firme do Brasil
Vieira também destaca a tradição diplomática brasileira e afirma que o reconhecimento conquistado pelo Itamaraty ao longo de diferentes gerações está relacionado à capacidade de interpretar corretamente as mudanças da sociedade e do cenário internacional.
Na avaliação do ministro, os sinais atuais incluem ataques que classifica como inéditos e virulentos. Ele também acusa brasileiros no exterior de estimular ações contrárias aos interesses do país.
Diante desse quadro, Vieira argumenta que o princípio da proporcionalidade, tradicionalmente empregado nas relações internacionais, não significa ausência de reação. Pelo contrário: diante da gravidade das ofensivas, seria necessário adotar respostas igualmente firmes para proteger a soberania e as instituições brasileiras.
É nesse contexto que o ministro situa a disputa em torno da desinformação. Para Vieira, parte do debate público procura transferir ao governo brasileiro a responsabilidade por medidas tomadas por autoridades estrangeiras.
“Percebo, no debate dos últimos dias, a tentativa de alguns de inverter a responsabilidade pelos atos hostis que é de única e exclusiva responsabilidade de governantes e governos estrangeiros que os praticam, e a ninguém mais.”
Vieira relaciona críticas externas a atores envolvidos na tentativa de golpe
No artigo, o chanceler associa essa tentativa de inversão de responsabilidades a setores políticos e sociais que, segundo ele, estiveram envolvidos na tentativa de ruptura institucional no Brasil.
“Estão de volta os mesmos atores políticos e sociais que fracassaram na implementação de um golpe de Estado no Brasil e voltaram a fracassar na tentativa de maquiar ou normalizar o golpe, frustrado pela pronta ação das instituições e da sociedade brasileira.”
De acordo com Vieira, esses grupos passaram a responsabilizar o próprio governo brasileiro pelas agressões externas e a questionar as respostas adotadas pelo país diante de medidas e declarações consideradas ingerências em assuntos internos.
A argumentação do chanceler busca estabelecer uma conexão entre as disputas políticas domésticas e as recentes tensões diplomáticas, especialmente quando ações de autoridades estrangeiras são estimuladas ou apoiadas por brasileiros.
“Tarifaço” e sanções de 2025 são citados pelo ministro
Entre os episódios mencionados, Vieira cita o chamado “tarifaço” e as sanções adotadas em 2025. Segundo o ministro, essas iniciativas não foram provocadas pelo Brasil e tinham como objetivo declarado exercer pressão sobre o Poder Judiciário brasileiro.
“Nosso país não provocou o chamado ‘tarifaço’ e as sanções de 2025, que tinham como declarado objetivo pressionar o Poder Judiciário brasileiro.”
O artigo também menciona declarações recentes do presidente de um país vizinho durante um evento político-partidário realizado no Brasil. Vieira utiliza o episódio como outro exemplo do que considera uma deterioração dos padrões de convivência diplomática.
Ao abordar as relações regionais, o ministro recorre a um artigo publicado pelo ex-presidente José Sarney no próprio Correio Braziliense. Vieira reproduz a avaliação de Sarney segundo a qual os recentes “despautérios” contra o Brasil estariam “fora dos limites da civilidade”.
Para o chanceler, a reflexão do ex-presidente ganha relevância por sua participação histórica no processo de aproximação entre Brasil e Argentina e na construção da integração regional durante o período democrático.
Vieira argumenta que quatro décadas de convivência democrática produziram um patrimônio diplomático compartilhado que precisa ser preservado mesmo diante das atuais divergências.
Ministro acusa grupos de tentar inverter responsabilidade por ataques
Outra crítica apresentada no artigo é direcionada aos setores que, segundo Vieira, anteriormente buscaram minimizar a tentativa de golpe de Estado e agora procuram responsabilizar o Brasil pelas ofensivas provenientes do exterior.
O ministro sustenta que a desinformação não seria suficiente para apagar princípios elementares das relações entre indivíduos e países.
“Agredir, ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja na casa, seja no país de quem acolhe a visita, ou conspirar contra a própria pátria no exterior são atitudes erradas, são condenáveis, e nada mudará essa realidade.”
Vieira resume essa posição com uma afirmação direta:
“Não se responsabiliza a vítima por uma agressão recebida. A culpa cabe sempre ao agressor.”
Itamaraty promete reagir a ingerências e desinformação
Na conclusão do artigo, o ministro das Relações Exteriores endurece o discurso contra a participação de atores brasileiros em articulações internacionais destinadas, segundo sua avaliação, a pressionar o país e suas instituições.
“Tentam bater no Brasil por meio de autoridades estrangeiras e depois esconder a mão.”
Vieira sustenta ainda que decisões sobre os rumos políticos e institucionais brasileiros devem permanecer sob controle do próprio país, rejeitando qualquer possibilidade de tutela externa.
“Não será governado por controle remoto a partir de uma capital estrangeira.”
O chanceler encerra sua análise defendendo a capacidade das instituições democráticas de proteger os interesses nacionais diante de momentos de tensão. Também sinaliza que o Ministério das Relações Exteriores continuará respondendo a ações consideradas hostis, incluindo campanhas de desinformação e ingerências externas.
“O brasileiro conta com instituições democráticas fortes para a defesa do interesse nacional em tempos de conflito, e o Itamaraty não deixará de reagir, sempre com profissionalismo, às manobras de desinformação e às grosserias de candidatos a predadores e seus apoiadores locais.”
Foto reproduzida da Internet