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Minuta encontrada no celular de Cid previa estado de sítio `dentro das quatro linhas´ da Constituição

Está no Blog da Andréia Sadi

A minuta para decretação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) encontrada no celular do tenente-coronel Mauro Cid [1], ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), previa estado de sítio “dentro das quatro linhas” da Constituição. O termo é o mesmo que o ex-presidente usava frequentemente em seus discursos e declarações públicas.

O conteúdo da minuta, revelada em 7 de junho [1], está em relatório divulgado pela revista “Veja” nesta quinta-feira (15). O blog também teve acesso à íntegra do relatório.

“Afinal, diante de todo o exposto e para assegurar a necessária restauração do Estado Democrático de Direito no Brasil, jogando de forma incondicional dentro das quatro linhas, com base em disposições expressas da Constituição Federal de 1988, declaro o Estado de Sítio e, como ato contínuo, decreto Operação de Garantia da Lei e da Ordem”, diz o texto achado no celular.

Conforme o relatório da Polícia Federal (PF), a declaração de estado de sítio foi encontrada em um documento não assinado que Cid fotografou e enviou como imagem para um contato salvo em sua agenda como “Major Cid – AJO Pr” em 28 de novembro de 2022. De acordo com a PF, “o envio, aparentemente, serviu como backup das imagens”.

Em outro trecho do documento encontrado no celular, são listadas, sem citar provas, situações classificadas como exemplos de “desvirtuação da ordem constitucional pelos Tribunais Superiores” e que justificariam o estado de sítio. Veja abaixo:

Uma dessas situações diz respeito ao caso das inserções em rádios [2]. Segundo o documento encontrado no celular de Cid, o Tribunal Superior Eleitoral [3] (TSE) não teria apurado uma denúncia relativa à falta de inserções.

Em 24 de outubro de 2022 [4], o então ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, Fábio Faria, afirmou que rádios deixaram de veicular ao menos 154 mil inserções da propaganda eleitoral da campanha à reeleição de Bolsonaro.

Ao receber o documento, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, deu 24 horas para a campanha apresentar “provas e/ou documentos sérios” [4]. A campanha, então, enviou ao TSE um link no qual estariam listadas as rádios e os horários das inserções.

O ministro negou o pedido afirmando que a campanha levantou suposta fraude às vésperas da eleição [5] “sem base documental crível, ausente, portanto, qualquer indício mínimo de prova”. Na mesma decisão, Moraes acionou o procurador-geral eleitoral, Augusto Aras, para apurar “possível cometimento de crime eleitoral com a finalidade de tumultuar o segundo turno do pleito” por parte da campanha de Bolsonaro.

Outra situação citada no documento encontrado no celular fala de “decisões limitando a transparência do processo eleitoral e impedindo o reconhecimento de sua legitimidade”. De acordo com o texto, uma dessas decisões teria impedido o acesso do Ministério da Defesa ao código-fonte das urnas, o que não é verdade.

O código-fonte é um conjunto de linhas de programação de um software, com as instruções para que o sistema funcione. A abertura dessas informações a especialistas permite que o sistema seja inspecionado e garantido pela sociedade civil.

O Ministério da Defesa é uma das entidades fiscalizadoras previstas nas regras internas do TSE e, por isso, já tinha direito a acessar as informações desde o dia 4 de outubro de 2021 [6]. A solicitação, no entanto, só foi feita ao tribunal faltando dois meses para o primeiro turno.

Outra situação citada no documento encontrado no celular fala da multa de R$ 22 milhões imposta ao PL — o número, como ressalta o texto, é o mesmo do partido nas urnas.

Em 23 de novembro de 2022, o TSE condenou a coligação da campanha de Bolsonaro a pagar uma multa de R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé  [7]— quando a Justiça é acionada de forma irresponsável. A multa foi imposta por Moraes após um relatório do PL pedir anulação de votos sem indicar prova de fraude.

Moraes considerou que a ação do partido não apresentava qualquer indício ou prova de fraude que justificasse a reavaliação de parte dos votos registrados pelas urnas. Em fevereiro de 2023, o PL quitou a multa [8].

Um outro exemplo citado no documento encontrado no celular de Cid fala de quando contas de bolsonaristas em redes sociais foram retiradas do ar após decisão de Moraes. O documento se refere a isso como “decisões legítimas permitindo a censura prévia (restringindo as prerrogativas profissionais da imprensa e de parlamentares)”.

Em julho de 2020, por determinação de Moraes, perfis de 16 aliados e apoiadores de Bolsonaro, investigados por suposta disseminação de fake news, foram bloqueados pelo Twitter e pelo Facebook [9]. A suspensão foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes [10], do Supremo Tribunal Federal (STF [11]).

Foto reproduzida da Internet

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