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Não é exagero pensar em vitória de Lula no primeiro turno

por Oliveiros Marques, no Brasil 247

A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (15) trouxe um conjunto de números que merece ser lido além da manchete óbvia – “Lula lidera todos os cenários”. Tomados em conjunto, esses dados sugerem algo mais ousado: a possibilidade real de que a eleição de 2026 seja decidida já no primeiro turno, e que os estrategistas da campanha do presidente Lula já estejam desenhando essa rota como plano principal, não como cenário secundário.

No segundo turno simulado, a diferença também cresceu: de 44% a 38% em junho para 45% a 37% agora, ampliando o intervalo de 6 para 8 pontos. O movimento é duplo e coerente: Lula cresce, e o principal rival perde fôlego até dentro do seu próprio campo – a intenção de voto em Flávio entre a direita não bolsonarista recuou de 82% para 74%.

É esse tipo de trajetória, e não um salto isolado, que costuma abrir espaço para se cogitar a hipótese de resolver tudo em 4 de outubro. Vencer no primeiro turno evitaria um mês a mais de campanha, reduzindo custos, e sobretudo, tiraria da oposição o tempo que ela mais precisa: o de consolidar um nome único contra Lula. Não é implausível que os estrategistas do PT estejam, neste momento, calculando o quanto ainda falta para conquistar uma maioria  – e organizando as alianças e a comunicação de Lula para acelerar esse caminho, em vez de administrar com cautela uma disputa de segundo turno já favorável.

Há, porém, um dado que passou quase despercebido e que é decisivo para entender por que esse cenário pode ser construído: uma fatia relevante do eleitorado – próxima da metade – não tomou conhecimento do vídeo em que Michelle Bolsonaro acusa Flávio de tê-la desrespeitado. Ou seja, o desgaste político do episódio ainda está em curso, não esgotado. Entre os que já formaram opinião, o resultado é extremamente desfavorável a Flávio: 42% concordam mais com Michelle, contra 18% que ficam do lado do senador. Se a repercussão continuar se espalhando nas próximas semanas – e crises familiares tendem a ganhar tração lenta, não instantânea -, a rejeição a Flávio tem mais chão para crescer do que para recuar.

O outro dado que sustenta a tese é a aprovação do governo: pela primeira vez desde dezembro de 2024, os que aprovam (48%) superam os que desaprovam (47%), invertendo o quadro dos meses anteriores. Na avaliação do trabalho de Lula, positiva e negativa empataram tecnicamente em 36%, quando antes a negativa vinha na frente com folga. Não é uma virada arrasadora, mas é o tipo de inflexão que, somada à ampliação da vantagem eleitoral, indica que o governo recuperou a iniciativa numa hora estratégica do calendário.

E há um fator que ainda não apareceu pesado nesta rodada, mas deve aparecer na próxima: o tarifaço de Trump entrando plenamente em vigor. A pesquisa mostra que o núcleo bolsonarista segue sendo associado à origem da crise tarifária. Se essa percepção se aprofundar à medida que os efeitos econômicos concretos da tarifa chegarem ao consumidor e ao exportador, é razoável esperar mais desgaste para Flávio, justamente o nome que a família e os aliados de Washington ajudaram a blindar.

Nenhum desses fatores garante, isoladamente, uma vitória no primeiro turno – Lula ainda está a 10 pontos de uma maioria absoluta e o campo de centro-direita e direita segue fragmentado, mas não anulado. Mas a combinação de crescimento eleitoral, recuperação de aprovação, crise na família Bolsonaro ainda não plenamente digerida pelo eleitorado e um cenário externo que tende a piorar para o adversário é exatamente o tipo de janela que campanhas competentes tendem a aproveitar. Não seria surpresa se, no próximo período, o discurso do Planalto passasse a soar cada vez mais ambicioso – e cada vez menos disposto a esperar pelo final de outubro.

*Oliveira Marques é sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

Foto: Ricardo Stuckert

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