Está no Blog da Ana Flor, no g1
O relatório do Escritório de Comércio dos EUA (USTR) sugerindo tarifas gerais de 25% a produtos brasileiros [1]é mais grave que o tarifaço anunciado no ano passado [2]e deve ser alvo dos discursos eleitorais das principais campanhas à Presidência no Brasil.
Desta vez, as novas tarifas chegam com a roupagem de uma investigação, que começou em 2025, antes do estreitamento das relações entre os presidentes norte-americano, Donald Trump [3], e brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva [4] (PT).
O Brasil teve tempo de apresentar suas alegações. Os ministérios brasileiros e escritórios profissionais contratados por empresas e setores atuaram com argumentos e explicações para as autoridades americanas, que parecem não ter ouvido as explicações.
No caso do PIX — sistema de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central (BC) —, alvo da investigação, o Brasil é acusado de prática desleal.
O governo, no entanto, levou números mostrando como o mecanismo ampliou a bancarização de brasileiros e, como isso, no médio e longo prazo, são bons também para empresas de cartão de crédito de bandeiras americanas (leia mais abaixo).
Outras explicações
Dados científicos sobre a queda no desmatamento, com comprovação por satélite, também foram apresentados.
Uma reclamação antiga sobre o tempo que o Brasil leva para registrar patentes foi ainda respondida detalhadamente na réplica de empresas brasileiras, que mostrou queda nesta espera.
Já a tarifa para entrada de etanol dos EUA no Brasil, que chegou a ser citada publicamente por Trump, é um entrave de longa data que o Brasil queria discutir, mas não levou proposta concreta.
Pontos da decisão do Escritório de Comércio dos EUA dão pistas do conteúdo ideológico da decisão: a cotação das medidas judiciais contra empresas de tecnologia, e até a retirada do ar do X. Medidas tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF [5]).
Nos próximos dias, o Brasil terá pouco espaço para discutir o mérito do novo tarifaço. Exportadores poderão pedir modulação de tarifas.
Esses mesmos exportadores poderão também, em conjunto com o governo, apelar à justiça dos EUA ou mesmo ampliar sua queixa na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Podem, também, escalar o embate e aprovar medidas de reciprocidade na Câmara de Comércio Exterior (Camex).
Retrocesso na relação
Na prática, a decisão do USTR parece mostrar um retrocesso nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Desde que mergulhou nos problemas trazidos pela guerra com o Irã, Trump parece ter se desligado da América Latina e, por consequência, da sua química com Lula.
Quem toca as decisões do USTR e do Departamento de Estado é um grupo com base ideológica, basicamente os mesmos que encontraram Flávio Bolsonaro na semana passada.
Se o novo tarifaço tem a ver com relações de parte ideológica do governo Trump com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro, ainda não se sabe ao certo. É algo que vai aparecer em breve.
A medida é ruim para parte do setor produtivo brasileiro. O que já é certo é que a nova decisão invadirá os argumentos eleitorais de direita e esquerda daqui até agosto.
Transformado em discurso eleitoral, o novo tarifaço tem ainda menos chance de ser resolvido de forma rápida e com menor prejuízo à economia.
Foto reproduzida da Internet