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O craque Lula entrou em campo e mudou o jogo no Congresso, diz editorial do Brasil 247

Aos 80 anos, depois de décadas de vida pública e de uma trajetória que o colocou diante dos mais diferentes adversários, o presidente demonstrou mais uma vez que sabe evoluir em pequenos espaços quando a partida parece travada.

Nas últimas semanas, o governo conseguiu mudar a atitude de lideranças do Congresso que vinham funcionando como obstáculos à tramitação de matérias importantes. Hugo Motta, presidente da Câmara, e, principalmente, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, passaram a admitir o avanço de pautas que, até pouco tempo atrás, encontravam resistência, demora ou simplesmente permaneciam fora das prioridades das duas Casas.

Entre elas está a discussão sobre o fim da jornada de trabalho 6×1, uma reivindicação de grande alcance popular, e a PEC da Segurança Pública, iniciativa estratégica para enfrentar um dos temas que mais preocupam a população brasileira. Outras matérias de interesse do governo e da sociedade também começam a encontrar um ambiente político mais favorável.

Nada disso aconteceu por acaso.

Lula percebeu que não bastava assistir ao Congresso definir sozinho o ritmo da agenda nacional. Era preciso entrar no jogo, conversar, negociar, pressionar politicamente e, sobretudo, demonstrar que determinadas pautas possuem apoio social e podem se transformar em ativos eleitorais para quem as defende — ou em passivos para quem tenta bloqueá-las.

Foi assim que o presidente dobrou os adversários. Não pela imposição, pois Lula sabe que o presidencialismo brasileiro exige composição. Nem pela capitulação diante do Congresso. Fez o que sempre soube fazer: leu a correlação de forças, identificou os interesses de cada jogador e encontrou o ponto em que a resistência deixava de ser politicamente vantajosa. E partiu para o corpo a corpo e o diálogo.

Nesse cenário está também uma disputa de fundo que não pode ser ignorada: o questionamento de Lula e a resistência do STF à invasão, pelo Legislativo, de atribuições próprias do Executivo, expressa no gigantismo e no caráter impositivo que as emendas parlamentares assumiram sobre o Orçamento. A controvérsia envolve mecanismos que, em diferentes momentos, recorreram a expedientes de legalidade mais do que duvidosa e até escandalosamente ilegais. A reação do governo e do Supremo à transformação de parcelas crescentes do Orçamento em instrumentos de poder autônomo do Parlamento ajuda a explicar a tensão que marcou a relação entre os Poderes — e também o peso político da tentativa atual de encontrar novos pontos de acomodação.

Hugo Motta e Davi Alcolumbre não se tornaram subitamente aliados ideológicos do governo. Mas a aproximação em torno de uma agenda importante revela uma mudança no ambiente político, que precisa ser compreendida dentro da lógica do calendário eleitoral e também dos projetos de poder existentes no próprio Parlamento.

A eleição de outubro está no horizonte. Deputados e senadores sabem que terão de prestar contas aos eleitores. E poucas coisas são mais difíceis de explicar numa campanha eleitoral do que ter trabalhado para impedir medidas populares, especialmente aquelas relacionadas às condições de trabalho e à segurança pública.

Mas há um segundo fator, talvez ainda mais importante para compreender a movimentação de Motta e Alcolumbre. Ambos têm interesse direto na composição do cenário político que emergirá das urnas e na busca de apoio para seus projetos de permanecer, ou retornar, ao comando de suas respectivas Casas na nova legislatura.

As presidências da Câmara e do Senado não se decidem no vazio. Elas dependem da formação das bancadas, da correlação de forças depois das eleições e, naturalmente, das alianças que começam a ser construídas muito antes da votação que escolherá os futuros presidentes do Congresso. Nesse cálculo, a relação com o Planalto tem peso.

É difícil imaginar que Hugo Motta e, principalmente, Davi Alcolumbre possam construir projetos de comando parlamentar ignorando completamente o peso de Lula, especialmente se reeleito, e das forças políticas que apoiam seu governo. Se ambos pretendem preservar ou ampliar sua influência nas presidências das Casas, terão de levar em conta uma realidade elementar: um presidente da República reeleito e forte, com base política expressiva e capacidade de influência sobre a futura composição do Congresso, é um ator decisivo nessa disputa.

A disposição para destravar pautas importantes, portanto, pode ser também um sinal de que está em formação um ambiente parlamentar mais favorável ao presidente Lula.

Não se trata de afirmar que Câmara e Senado se converterão numa extensão do governo. A política brasileira não funciona assim, e nem Lula teria interesse num Congresso sem autonomia. Mas pode estar se desenhando uma convergência de interesses capaz de produzir uma relação mais cooperativa entre o Planalto e os futuros comandos do Legislativo.

O contexto eleitoral ajuda a explicar essa convergência.

O fim da escala 6×1, por exemplo, toca diretamente a vida de milhões de trabalhadores. A discussão sobre mais tempo para viver, conviver e descansar tem enorme capacidade de mobilização. Para parlamentares que buscarão votos em outubro, simplesmente bloquear ou ignorar indefinidamente esse debate pode cobrar um preço político.

O mesmo vale para a PEC da Segurança Pública. Segurança é uma preocupação cotidiana dos brasileiros, e a sociedade quer soluções. Diante de uma proposta concreta e de um tema que ocupa lugar central no debate nacional, a decisão de manter a matéria parada também produz consequências políticas.

É nesse terreno que Lula mostrou mais uma vez sua superioridade como articulador.

Enquanto muitos enxergam a relação entre Executivo e Congresso apenas como uma disputa de cargos, emendas e votações, o presidente voltou a usar uma de suas principais armas: a capacidade de transformar a política institucional em debate público. Quando uma pauta sai dos gabinetes e ganha a sociedade, muda a relação de forças em Brasília.

Lula sabe disso melhor do que quase todos os políticos brasileiros. Sua história foi construída exatamente nessa fronteira entre a negociação institucional e a pressão social. Primeiro, como líder sindical; depois, como fundador de um grande partido; em seguida, como presidente; e, agora, novamente, como o principal articulador de um projeto político que chega ao período eleitoral com força suficiente para influenciar o comportamento de todo o sistema político.

O bolsonarismo, por sua vez, parece ter escolhido outro caminho. Em vez de participar dessa disputa em torno de uma agenda capaz de dialogar com as grandes preocupações da população, decidiu concorrer em faixa própria, cada vez mais isolado em suas bandeiras e em sua estratégia de confronto.

Essa escolha pode aprofundar o isolamento político da extrema direita. Enquanto Lula busca ampliar pontes e construir maiorias em torno de temas concretos, o bolsonarismo prefere preservar seu campo próprio, mesmo quando isso significa abrir mão da possibilidade de participar da construção de consensos mais amplos.

Motta e Alcolumbre continuam tendo seus próprios interesses, bases e projetos. Mas Lula conseguiu alterar o cálculo político dos dois. Em vez de simplesmente enfrentá-los numa guerra aberta, driblou-os. Em vez de aceitar a paralisia, elevou o custo dela. Em vez de esperar que o Congresso concedesse espaço ao governo, ajudou a criar as condições para que avançar determinadas pautas se tornasse politicamente conveniente para os presidentes das Casas.

E há um componente adicional: o futuro das próprias presidências da Câmara e do Senado. A nova legislatura será formada depois da eleição de outubro, e os movimentos de hoje ajudam a definir as alianças de amanhã. Nesse jogo, Lula voltou a demonstrar que enxerga o campo inteiro.

É o tipo de jogada que separa o político comum do jogador experiente.

No futebol, o craque nem sempre vence pela velocidade. Muitas vezes, ganha porque vê antes dos outros onde a bola vai chegar. Na política, Lula continua fazendo isso. Antecipou que o calendário eleitoral mudaria os incentivos, percebeu que pautas populares poderiam deslocar a pressão sobre o Congresso, entendeu que Motta e Alcolumbre também jogam pensando na próxima legislatura e aproveitou o momento para destravar uma agenda que parecia bloqueada.

Ainda haverá obstáculos. Nenhuma dessas matérias está automaticamente aprovada, e o Congresso continuará sendo um terreno de disputas, interesses e negociações. Mas o movimento recente é significativo.

Quem apostava numa paralisia prolongada talvez esteja diante de um novo cenário. A possibilidade de avanço de pautas como o fim da jornada 6×1 e a PEC da Segurança Pública, somada aos interesses eleitorais e à disputa pelo comando futuro das Casas, pode indicar o surgimento de um ambiente mais favorável ao presidente Lula no Parlamento.

Lula entrou em campo.

E, mais uma vez, mostrou que, quando o jogo político exige experiência, leitura de cenário, capacidade de negociação e um bom drible, ainda há poucos jogadores no Brasil capazes de acompanhá-lo.

Foto: Ricardo Stuckert

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