por Jorge Folena, no Brasil 247
Na coluna do sábado passado (13/06/2026), aqui no Brasil 247, sob o título “Veja e Vorcaro não têm credibilidade”, manifestei, como hipótese, que estava sendo construída pela classe dominante uma operação política para resgatar a candidatura de Flávio Bolsonaro, sob a falsa premissa de que todos na política brasileira estariam envolvidos com o Banco Master e teriam recebidos seus favores para benefícios pessoais ou de familiares.
Até aqui, apenas Ciro Nogueira, Cláudio Castro e Jaques Wagner estão envolvidos formalmente em investigações da Polícia Federal. Outros nomes são comentados, como os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, que na semana anterior teve seu nome vinculado a pedido de empréstimo no valor de 22 milhões de reais junto ao Banco Master, em favor de sua cunhada, e ao pagamento de diárias de hotel de luxo e jantares em restaurantes caros no exterior.
Alguns têm recebido proteção especial, como o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha e o senador Flávio Bolsonaro, contra os quais não há investigação formalizada.
O que se apurou contra Flávio foi realizado pelo jornalismo investigativo do The Intercept Brasil, que tornou público o áudio de conversa entre o ex-CEO do Banco Master e o candidato à presidência pela família Bolsonaro, com seu pedido de mais de 60 milhões de reais, que foram enviados para o exterior, conforme revelado pelo mesmo veículo.
Não se sabe até o momento se a Polícia Federal fez ou fará qualquer investigação ou se irá requerer medidas cautelares contra o senador Bolsonaro; nem se a Receita Federal do Brasil tomou alguma providência fiscalizatória para apurar se houve o recolhimento ou não de tributos sobre a milionária movimentação financeira, com remessa de divisas ao exterior.
Na mesma semana em que a primeira turma do STF condenou Eduardo Bolsonaro a mais de quatro anos, por ameaça aos juízes do Tribunal, e que a segunda turma manteve a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e seus familiares, o ministro André Mendonça afirmou que o caso do Banco Master, em razão dos métodos empregados, de extrema violência, se comparava a uma organização criminosa mafiosa.
Nessa ocasião (16/06/2026), o ministro provavelmente já tinha sobre sua mesa, para análise, o pedido de medidas cautelares formulado pela Polícia Federal contra o senador Jaques Wagner, deferido no dia 17/06/2026.
Ocorre que, no julgamento realizado na segunda turma (16/06), o ministro Gilmar Mendes queria colocar Vorcaro e familiares em prisão domiciliar, para impedir o emprego dos métodos da operação lava jato, para conseguir delações premiadas de interesse político do juiz, por exemplo, contra integrantes do governo Lula (é só lembrarmos da delação de Palocci, divulgada nas vésperas da eleição de 2018).
Como resposta a Gilmar Mendes e para justificar a manutenção das prisões preventivas deferidas por ele, Kássio e Fux, o ministro Mendonça disse que o caso Master indicava a existência de uma “máfia perigosa”.
André Mendonça parece controlar a investigação do caso Banco Master conforme interesses próprios e do seu grupo político, opondo-se à maioria dos seus colegas de tribunal. Ao assumir o caso, sucedendo o ministro Dias Toffoli (que, depois de muito desgaste pessoal desnecessário, se deu por impedido), determinou que a investigação ficaria limitada a um grupo específico de policiais e vedou a passagem de informações à direção da Polícia Federal, em total invasão na esfera de atuação do órgão. Assim, não é nenhuma surpresa a informação de que o diretor da Polícia Federal não sabia do pedido de medidas cautelares contra o senador Jaques Wagner.
O tratamento dado pela Polícia Federal e pelo ministro André Mendonça ao senador Ciro Nogueira não foi o mesmo dado ao senador Jaques Wagner. O primeiro foi tratado com muitos dedos e cuidados, com a utilização dos termos “supostas” e “em tese”, em referência às práticas criminosas em apuração. O outro foi tratado sob a acusação de “corrupção”, com fotografias das notas de dólares e euros, lembrando as técnicas de linchamento moral empregadas nos tempos sombrios da operação lava jato.
É importante lembrar que, em 2020, durante o governo Bolsonaro e na gestão de André Mendonça, o ministério da justiça e segurança pública foi acusado de produzir dossiê com informações e monitoramento de servidores públicos antifascistas, o que levou o STF a declarar inconstitucional, no julgamento da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental 722, em 2022, a produção e o compartilhamento dos dossiês, sob o argumento de desvio de finalidade das atividades de inteligência.
Como lembrou o ministro Roberto Barroso, no julgamento acima mencionado, “no passado recente do país, foram registrados diversos episódios da utilização indevida de órgãos de inteligência para encobrir crimes cometidos no âmbito do governo”, acrescentando que “a simples possibilidade da volta dessa prática no estado democrático brasileiro é preocupante”.
Quando ministro da justiça de Bolsonaro, André Mendonça possibilitou o uso de técnicas do regime ditatorial de 1964/1985, para perseguir servidores públicos que discordavam da visão do governo ao qual ele servia.
Desde dezembro de 2025, a cada passo do desenrolar das fraudes do Banco Master, fica demonstrado que, nas eleições de 2026, a classe dominante (interna e externa) trabalha para impedir a qualquer custo a reeleição do presidente Lula, mesmo que tenha que empregar os meios mais baixos e violentos possíveis, como o lawfare, usado pela lava jato. André Mendonça pode ser o Joaquim Barbosa e o Sérgio Moro da vez.
Assim, diante da comprovação do vínculo entre o dirigente do Master e o governo de Bolsonaro, eles lançam mão da tese da contaminação do meio político, a fim de passar a ideia de que todos, sem exceção, estão envolvidos nas falcatruas de Vorcaro, inclusive o governo Lula, o que não procede, como demonstrado até aqui.
O objetivo da classe dominante é resgatar a candidatura de Flávio Bolsonaro, que, pelo visto, conta com a proteção de André Mendonça e da ala da Polícia Federal que atua na investigação do caso do Banco Master.
Diante disso, considero pertinente a preocupação manifestada pelo ministro Gilmar Mendes, sobre o uso das técnicas da operação lava jato, para direcionar a investigação contra um determinado grupo político e obter colaborações premiadas sensacionalistas para influenciar as eleições deste ano.
Os fatos demonstram que tudo é possível e que algumas pessoas que atuam na condução do caso são capazes de agir contra o que estabelece a Constituição; e já o fizeram no passado recente, ao se colocarem a serviço do fascismo, atuando com desvio de finalidade, entre outras práticas deletérias. Pois, para atingir os objetivos políticos dos grupos cujos interesses representam, mandam às favas quaisquer escrúpulos.
*Jorge Folena é advogado, jurista e doutor em ciência política
Foto reproduzida da Internet