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As investigações sobre a atuação do marqueteiro político Fernando Cerimedo, preso na Bolívia e investigado por tentativa de feminicídio contra a ex-companheira [1], revelaram uma dimensão que vai muito além das fábricas de bots e da fatídica live contra as urnas eletrônicas brasileiras na tentativa de golpe de 2022. [2]
Cerimedo integra uma rede internacional de tecnologia, comunicação política e mobilização da nova direita que tem, em um de seus principais núcleos, uma operação financiada pelo Estado de Israel.
A conexão passa pelo americano Brad Parscale, estrategista digital de Donald Trump, e chega à América Latina por meio de empresas e plataformas utilizadas por Cerimedo.
Parscale ganhou notoriedade como responsável pela estratégia digital da campanha de Trump em 2016 e comandou a campanha de reeleição do republicano em 2020 durante as primárias. Atualmente, está à frente da Clock Tower X, empresa que mantém um contrato milionário para uma operação de comunicação em favor de Israel.
Documentos registrados nos Estados Unidos mostram que o acordo chegou a US$ 46,5 milhões. A operação inclui publicidade, produção de conteúdo e estratégias digitais, mas tem um objetivo particularmente incomum: criar sites e conteúdos capazes de influenciar o enquadramento de respostas produzidas por sistemas de inteligência artificial. O contrato prevê explicitamente a criação de “sites e conteúdo” para produzir resultados de enquadramento em conversas com sistemas de inteligência artificial, focando em uma campanha de PR para alterar respostas do ChatGPT sobre o estado de Israel.
A rede criada pela Clock Tower X chegou a reunir diversos sites que aparentam ser veículos ou organizações independentes, mas são registrados como materiais distribuídos em nome do Estado de Israel.
O argentino mantém uma parceria empresarial com Parscale e passou a representar na América Latina ferramentas como Campaign Nucleus e EyesOver, associadas à infraestrutura tecnológica do americano. O próprio Cerimedo afirmou que Parscale forneceu a infraestrutura sobre a qual trabalha.
A estrutura foi utilizada em campanhas da direita latino-americana, incluindo as de Javier Milei, na Argentina, Rodrigo Paz, na Bolívia, e Nasry Asfura, em Honduras.
A relação com o Brasil vem de antes. Cerimedo afirma ter trabalhado para Jair Bolsonaro em 2018 e, em 2022, tornou-se um dos principais propagadores de alegações falsas sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas brasileiras. A operação ajudou a alimentar a mobilização bolsonarista contra o resultado das eleições. Já neste ano, Cerimedo participou de uma live ao lado de Eduardo Bolsonaro para tratar de urnas eletrônicas e fomentar as narrativas da extrema direita no Brasil.
A outra ponta da conexão aparece em 2026. Em junho, Flávio Bolsonaro participou, em Buenos Aires, de uma conferência organizada pela Israel Allies Foundation e pela American Friends of Isaac Accords, voltada ao fortalecimento das relações entre Israel e América Latina.
No evento, o senador prometeu, caso eleito presidente, transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém e aprofundar a aproximação entre os dois países.
A conferência reuniu parlamentares de 14 países e promoveu os chamados Acordos de Isaac, iniciativa de aproximação regional com Israel defendida pelo governo de Javier Milei e apoiada pelas duas organizações.
O movimento também aparece em outros governos da nova direita latino-americana. Milei, Rodrigo Paz e Nasry Asfura tiveram atuação documentada de Cerimedo em suas campanhas ou estruturas políticas. Ao mesmo tempo, os três promoveram aproximações com Israel.
Asfura, por exemplo, encontrou-se com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em janeiro e afirmou querer reconstruir a relação entre Honduras e Israel.
Israel financia uma operação internacional de comunicação comandada pela empresa de Parscale; Parscale mantém uma parceria empresarial e tecnológica com Cerimedo; Cerimedo possui uma trajetória documentada de atuação junto à família Bolsonaro e a outros governos da nova direita latino-americana; e, paralelamente, a família Bolsonaro estreita seus vínculos com organizações que promovem a aproximação política entre Israel e a direita do continente.
Não há como afirmar que os US$ 46,5 milhões pagos à operação de Parscale, sócio de Cerimedo, tenham sido repassados ao marqueteiro ou à família Bolsonaro.
Mas é possível afirmar que existe é uma rede transnacional que conecta Washington, Tel Aviv e a extrema direita latino-americana por meio de tecnologia, comunicação política, dados, campanhas eleitorais e organizações de aproximação com Israel. E Fernando Cerimedo está no olho deste furacão.