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Pagamentos de Vorcaro a empresa ligada a filho de Nunes Marques coincidem com votos do ministro favoráveis ao Master

Está na Revista Fórum

ovas mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro [1], ex-controlador do Banco Master [2], associam transferências feitas pela instituição à Consult Inteligência Tributária, empresa que repassou R$ 282 mil ao advogado Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques [3], do Supremo Tribunal Federal (STF) [4]. As conversas foram reveladas pela revista Piauí, que teve acesso ao conteúdo apreendido pela Polícia Federal [5].

Os diálogos indicam que Luiz Rennó, advogado de confiança de Vorcaro e assessor jurídico do Master, relacionava diretamente os pagamentos à Consult ao filho do ministro.

Em 8 de agosto de 2025, Rennó enviou a Vorcaro uma mensagem sobre pagamentos que considerava essenciais. “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”, escreveu, referindo-se à Consult. Em seguida, encaminhou o cartão de contato de Kevin Marques e acrescentou: “Aqui.”

Vorcaro respondeu apenas “Oi”. Rennó então reforçou: “Esse aí.” E completou: “Único ‘meu’ que faltou.” Cerca de meia hora depois, o advogado avisou: “Foi pago.”

A conversa ocorreu no período em que a Consult recebia milhões de reais do Banco Master. Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), entre agosto de 2024 e julho de 2025 foram identificadas 14 transferências do Master para a empresa, totalizando R$ 6,632 milhões.

No sentido inverso, a Consult realizou 11 transferências para Kevin Marques, que somaram R$ 282 mil.

Menção a R$ 500 mil por mês

Outro diálogo, de 4 de julho de 2025, também relaciona Kevin aos pagamentos. Rennó enviou a Vorcaro o cartão de contato do advogado e perguntou: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”. Em seguida, escreveu: “Então esse aqui já era né”, acompanhado de risadas. Vorcaro respondeu: “Kkkk”.

As 14 transferências do Master para a Consult identificadas pelo Coaf totalizam R$ 6,6 milhões. Dividido pelo número de operações, o valor médio é de aproximadamente R$ 474 mil por transferência, próximo dos R$ 500 mil mencionados na conversa. A reportagem da piauí, contudo, ressalta que não há elementos para afirmar que os valores estejam necessariamente relacionados ou que os pagamentos tenham seguido esse padrão mensal.

As mensagens foram compartilhadas com gabinetes de ministros do STF depois de o conteúdo do celular de Vorcaro ser analisado pela Polícia Federal.

A piauí já havia publicado reportagens, em março e abril, sobre a relação financeira entre Kevin Marques e a Consult.

Pagamentos coincidiram com processo de interesse do Master

As novas mensagens também lançam luz sobre o período em que ocorreram os repasses. As transferências do Banco Master para a Consult coincidiram com a tramitação, no STF, de um processo de interesse do setor sucroalcooleiro e que poderia afetar a carteira de precatórios do banco.

O caso envolvia a Destilaria Alcídia, que buscava indenização da União por prejuízos atribuídos a políticas de controle de preços adotadas na década de 1980. Segundo reportagem anterior da piauí, a decisão poderia produzir efeitos sobre uma carteira de precatórios do setor que, conforme estimativas da PF, superava R$ 10 bilhões no balanço do Master.

Nunes Marques acabou tendo papel decisivo no julgamento.

Inicialmente, o ministro havia sido considerado impedido de participar da análise. Na sessão virtual realizada entre 9 e 20 de fevereiro de 2024, ele não votou. A justificativa era que, quando ainda era desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), havia participado de julgamento relacionado ao processo.

Em março daquele ano, porém, Nunes Marques reviu a posição e afirmou que o impedimento havia sido registrado “por equívoco da assessoria do gabinete”. Para o ministro, o julgamento realizado no TRF-1 não o impedia de atuar no STF. “Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar”, escreveu.

O processo estava empatado em dois votos a dois. De um lado, Dias Toffoli e Edson Fachin haviam votado favoravelmente à Destilaria Alcídia. Do outro, Gilmar Mendes e André Mendonça haviam se manifestado contra.

Após pedir vista, Nunes Marques apresentou seu voto e acompanhou o relator. O placar terminou em 3 a 2 a favor da Alcídia.

As mensagens de Vorcaro mostram que o resultado foi comemorado dentro do círculo do banqueiro. Luiz Rennó escreveu: “Ganhamos alcidia”. Em seguida, enviou o placar: “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André)”. Vorcaro respondeu com um sinal de positivo.

Poucos minutos depois, Rennó voltou a encaminhar o contato de Kevin Marques e escreveu: “Dominado aqui.”

Questionada pela piauí, a assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro considerou não estar impedido porque se tratava de uma tese ampla e que ele já havia votado no mesmo sentido quando atuava no TRF-1.

Sobre as mensagens, a assessoria afirmou: “Embora na mensagem eles estivessem comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master, era uma tese que se aplicaria a diversas empresas. O ministro nunca votou a favor do Banco Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.”

Consult recebeu milhões de Master e JBS

A Consult Inteligência Tributária foi criada em 2022 pelo contador Francisco Craveiro, amigo de longa data de Nunes Marques. Kevin Marques não aparece formalmente como sócio da empresa, mas recebeu os R$ 282 mil identificados pelo Coaf.

A empresa também recebeu valores expressivos de outras companhias. Ao longo de um ano, foram cerca de R$ 11,38 milhões provenientes da JBS e R$ 6,62 milhões do Banco Master.

Os valores chamaram atenção porque contrastavam com o faturamento mensal declarado pela Consult, de aproximadamente R$ 25,5 mil.

Antes do período em que começaram as grandes transferências, a empresa passou por mudanças societárias. Em maio de 2024, seu capital social aumentou de R$ 10 mil para R$ 500 mil. Na mesma ocasião, Francisco Craveiro ampliou sua participação de 5% para 95% das cotas. Em julho, Gabriel Campelo deixou formalmente a empresa, e Craveiro tornou-se seu único proprietário.

Kevin afirma que os R$ 282 mil recebidos foram pagamentos por “serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa”. Em nota à piauí, disse que “não prestou serviço ao banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro” e que sua atuação junto à Consult “não tem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal”.

Outros contatos envolvendo o ministro

As mensagens analisadas pela PF também identificaram outros episódios envolvendo Nunes Marques e pessoas próximas a Vorcaro.

Em dezembro de 2024, o empresário e agente de viagens Leo Serrano Giunchetti enviou ao banqueiro um pedido relacionado a uma viagem atribuída ao ministro. A mensagem encaminhada trazia um pedido de cotação para uma viagem de cerca de dez dias, para cinco pessoas, com possibilidade de roteiro por Viena ou Peru.

Giunchetti perguntou a Vorcaro se deveria tratar a solicitação como algo a ser atendido por ele ou diretamente pelo ministro. O banqueiro não respondeu nos trechos divulgados.

Nunes Marques afirmou que apenas cotou preços e nunca utilizou os serviços da agência. Giunchetti, por meio de seu advogado, também disse à piauí que a viagem não ocorreu.

Outro diálogo, de março de 2025, mostra uma mulher identificada como Rayanna cobrando Vorcaro em nome de uma amiga. “Ela disse que ficou com o Kassio. Ela tá me cobrando aqui”, escreveu. O banqueiro pediu os dados e o valor. Ela respondeu: “10 né!”.

As mensagens, porém, não esclarecem quem seria o “Kassio” citado nem se houve pagamento. A assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro não conhece o contexto da conversa.

Jatinho e festa em Maceió

Outro episódio envolve uma viagem realizada em novembro de 2025, poucos dias antes da prisão de Vorcaro.

Em uma conversa com uma advogada que trabalhava para o Master, o banqueiro encaminhou o contato de uma profissional de aviação executiva. Naquela noite, ela informou a Vorcaro que uma viagem em um jato Legacy havia sido confirmada para a advogada e perguntou sobre detalhes do serviço de bordo.

Vorcaro respondeu indicando que fossem disponibilizados champanhe Dom Pérignon, uísque Macallan e uma bebida japonesa.

Dois dias depois, Nunes Marques e sua mulher embarcaram em um Legacy 650 de Brasília para Maceió, onde participaram da festa de aniversário da advogada. O avião era operado pela Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro foi sócio até setembro de 2025.

O gabinete do ministro afirmou que a advogada foi responsável pela contratação da aeronave e pelos detalhes da viagem. Ela também declarou ter contratado o jato pessoalmente.

Processo sobre CPI do Banco Master

Além das relações reveladas pelas mensagens, Nunes Marques é relator, desde março, de um mandado de segurança que pede ao STF que determine ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master.

O requerimento recebeu 53 assinaturas, número superior às 27 necessárias para a criação da comissão. Até o momento, o ministro não havia proferido despacho no processo.

Nunes Marques, porém, votou pela manutenção da prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados no caso Master.

Em 15 de setembro, durante uma sessão extraordinária do STF, o ministro se pronunciou sobre as mensagens que haviam vindo a público. Disse que nunca havia utilizado a tribuna da Corte para prestar esclarecimentos, mas considerou que “a gravidade das circunstâncias merece”.

“Eu nunca julguei nenhum processo relacionado ao Master”, afirmou.

Nunes Marques também negou ter recebido qualquer benefício do banqueiro e defendeu a atuação de seu filho. Segundo o ministro, Kevin nunca prestou serviços nem recebeu remuneração do Banco Master. Ele afirmou ainda ter “absoluta isenção” nos processos que julgou.

Ao final, declarou-se impedido de participar daquele julgamento por entender que sua condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia gerar conflito com sua atuação nas eleições. Na manifestação, não relacionou o impedimento às conexões reveladas entre sua família e pessoas ligadas ao Banco Master.

Foto reproduzida da Internet

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