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Parabéns, Lula, por não perder tempo com debates desnecessários no primeiro turno

por Leonaqrdo Attuch, no Brasil 247

Nem os caciques do PL questionaram a veracidade da foto da dupla, tirada em um momento de descontração que mais parecia um churrasco à beira da piscina,

“Eu, como presidente da República, não vou para debate para ouvir bobagem. Não vou. (…) Fazer debate com cara que não tem compromisso com ninguém?”, afirmou.

Lula está certo.

Sua declaração confirma a análise que publiquei no Brasil 247 em 21 de julho [1]. Para um presidente que faz um bom governo, lidera as pesquisas e tem chances reais de vencer ainda no primeiro turno, comparecer a esses encontros seria um erro estratégico.

Lula não tem nada a ganhar. Tem apenas a perder.

Os debates de primeiro turno deixaram há muito tempo de ser espaços para a apresentação séria de propostas. Transformaram-se em arenas de provocação, lacração, produção de cortes para as redes sociais e ataques coordenados contra quem ocupa a liderança.

Como presidente e candidato à reeleição, Lula seria a vidraça de todos. Seus adversários não estariam interessados em discutir o futuro do Brasil, mas em arrancar alguns segundos de confronto com ele para tentar ganhar visibilidade.

Não há razão alguma para oferecer a eles esse prêmio.

Um palco para agressões

O primeiro problema é evidente. Em um debate com muitos candidatos, todos se voltariam contra Lula.

Pouco importaria a consistência das propostas, a realidade do País ou os resultados do governo – que ontem alcançou o menor desemprego da série histórica. O objetivo dos adversários seria provocar o presidente, tentar tirá-lo do sério e produzir alguma cena que pudesse ser explorada eleitoralmente.

Lula não precisa se submeter a esse espetáculo.

Um presidente da República não pode ser tratado como escada para candidatos sem densidade política, eleitoral ou programática.

Uma oposição sem projeto nacional

Os principais nomes da direita e da extrema-direita apresentam pouca ou nenhuma contribuição relevante para o desenvolvimento do Brasil.

Faltam projetos consistentes para a economia, a saúde, a educação, a soberania nacional e a redução das desigualdades. Como não têm muito a oferecer, apostam no confronto, no insulto e no espetáculo.

Debater o futuro do Brasil exige grandeza.

Lula não deve aceitar o rebaixamento da política ao nível da baixaria e da provocação permanente.

Os franco-atiradores do primeiro turno

Candidatos como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos têm tudo a ganhar em um confronto direto com Lula.

Para eles, um único minuto de embate com o presidente já seria uma vitória. Poderiam recortar a cena, espalhá-la pelas redes e fingir uma relevância que hoje não possuem.

Para Lula, a conta é inversa.

O presidente nada ganha ao oferecer palco e palanque a candidatos que entram na disputa como franco-atiradores, dispostos a provocar sem assumir qualquer responsabilidade pelas consequências.

A direita obrigada a enfrentar a própria direita

A ausência de Lula também produz um efeito político importante.

Sem o presidente no estúdio, os candidatos da direita serão obrigados a confrontar uns aos outros. O centro do debate se deslocará para a disputa interna do campo da extrema-direita.

Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e outros nomes terão de disputar votos diretamente com Flávio Bolsonaro – que, provavelmente, também desistiria de participar.

Em vez de se unirem contra Lula, terão de expor suas divergências, fragilidades e contradições.

É exatamente o que deve acontecer.

A sinuca de bico de Flávio Bolsonaro

A ausência de Lula também cria um problema para Flávio Bolsonaro.

Sem o presidente no debate, o senador poderá se transformar no principal alvo dos demais candidatos conservadores. Terá de responder sobre suas alianças, seus interesses e os episódios nebulosos que rondam sua trajetória política.

Entre eles, o caso Banco Master e sua relação com Daniel Vorcaro.

Por isso, é possível que Flávio também prefira não comparecer.

Estaria, então, montada a sinuca de bico: sem Lula, Flávio perde seu principal adversário e passa a ser atacado pelos concorrentes da própria direita.

Uma estratégia respaldada pela história

Não há qualquer desrespeito à democracia na decisão de não participar dos debates de primeiro turno.

Trata-se de uma escolha política legítima e já adotada em eleições anteriores.

Em 1998, Fernando Henrique Cardoso não participou dos debates do primeiro turno quando disputava a reeleição. Venceu a eleição em primeiro turno sem que isso fosse tratado como ameaça ao processo democrático.

Debates são instrumentos de campanha, não obrigações constitucionais.

Cada candidato deve avaliar se sua participação contribui ou não para esclarecer o eleitorado.

No caso de Lula, não contribui e ele pode seguir apostando em entrevistas relevantes, como a de ontem ao podcast do apresentador Rogério Vilela.

Um voto já consolidado

Lula possui uma base social e eleitoral sólida.

Seu eleitorado conhece sua história, seus governos, suas realizações e seu compromisso com a democracia. Também conhece o que estava em jogo em 2022 e o processo de reconstrução nacional iniciado desde então.

Quem vota em Lula não precisa vê-lo sendo insultado por candidatos em busca de alguns segundos de fama.

O voto de Lula está ancorado em sua trajetória, nos resultados extraordinários de seu governo e na memória concreta de milhões de brasileiros que melhoraram de vida durante suas administrações.

A estatura de um estadista

Lula não é apenas mais um candidato.

É o presidente da República, uma das principais lideranças políticas do mundo e o governante que recolocou o Brasil no centro das grandes discussões internacionais.

Colocá-lo em uma arena de agressões, em igualdade de condições com personagens sem expressão ou candidatos especializados em produzir tumulto nas redes sociais, não engrandece a democracia.

Ao contrário: apequena o debate presidencial.

Preservar a autoridade do cargo não é arrogância. É responsabilidade institucional.

O debate necessário será no segundo turno

Caso a eleição seja decidida em segundo turno, a situação será outra.

Nesse momento, o confronto direto entre os dois projetos finalistas será necessário. Haverá igualdade de tempo, regras mais claras e condições reais para comparar programas, legados e visões de País.

Lula poderá, então, apresentar os resultados de seu governo, defender seu projeto e confrontar diretamente o candidato da extrema-direita, que, ao que tudo indica, será Flávio Bolsonaro.

No primeiro turno, porém, sua presença seria apenas uma concessão a quem precisa atacá-lo para existir politicamente.

Lula acertou ao dar o recado.

Seu lugar, durante o primeiro turno, é governando o Brasil, entregando resultados e conversando diretamente com o povo.

Os debates podem esperar o segundo turno — se houver.

*Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”

Foto: Ricardo Stuckert

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