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PF aponta articulação direta de Ibaneis Rocha no negócio BRB-Master e propina de R$ 80 milhões, que poderia chegar a R$ 400 milhões

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Mensagens obtidas pela Polícia Federal revelam que o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), participou ativamente do processo de negociação entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, atuando em conjunto com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O material, obtido a partir de dados extraídos de dispositivos móveis no âmbito das investigações, demonstra que o emedebista acompanhou passo a passo as tratativas, que englobaram desde o aumento de capital da instituição pública e a aquisição de carteiras de crédito até a tentativa de fusão definitiva entre as duas entidades financeiras, informa Natália Portinari, do UOL [1].

Conforme a apuração policial, registros de conversas indicam que um funcionário que atuava como motorista de Vorcaro realizou entregas de encomendas em ao menos dez oportunidades a um interlocutor identificado nos registros como “Léo” ou “Dr. Léo”. A PF aponta que o destinatário seria o empresário Leonardo Valverde, apontado como homem de confiança e braço direito de Ibaneis Rocha. Os repasses ocorreram na residência do banqueiro na capital federal entre os meses de novembro de 2024 e agosto de 2025. Registros de dezembro de 2024 confirmam que o motorista comunicou a Vorcaro que o intermediário havia telefonado com o objetivo de retirar todos os pacotes pendentes.

Em sua proposta de colaboração premiada com a Justiça, Daniel Vorcaro afirmou que a solicitação de propina por parte de Ibaneis ocorreu logo após o primeiro contato formal entre ambos, realizado em setembro de 2024 na residência do ex-banqueiro. A delação detalha que o ajuste ilícito foi acertado diretamente com Valverde e previa a quantia total de R$ 400 milhões em decorrência do avanço da fusão bancária. O montante seria dividido em duas metades: R$ 200 milhões entregues em moeda corrente e R$ 200 milhões repassados por meio de um contrato simulado com um escritório de advocacia a ser designado pelo chefe do Executivo local. O acerto também reservava ao ex-governador uma participação de 5% na nova estrutura bancária através de uma firma de fachada.

Documentos da Receita Federal citados na investigação indicam que, em outubro de 2024, Valverde encaminhou a Vorcaro dados cadastrais, proposta e informações bancárias de uma sociedade empresária sob sua administração formal. Após a transmissão do arquivo contendo os dados corporativos, o interlocutor habilitou a função de apagamento automático das mensagens na plataforma de comunicação. O ex-banqueiro declarou ter adiantado cerca de R$ 80 milhões em dinheiro vivo, transportados por seu motorista e entregues a Valverde em Brasília, acrescentando que os comprovantes do envio estavam registrados em seu aparelho celular. A parcela relativa ao contrato advocatício não chegou a ser desembolsada em razão do veto definitivo emitido pelo Banco Central (BC) à operação em setembro de 2025.

A aproximação institucional entre as partes teve início em 18 de setembro de 2024 durante um almoço na casa de Vorcaro, articulado por Thiago Claudino, ex-integrante da assessoria do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). O encontro contou com a presença de Ibaneis, do seu filho Caio Rocha, do então secretário de Economia do DF, Ney Ferraz, de William Guimarães e de Leonardo Valverde. Poucos dias depois, um jantar com o mesmo grupo reuniu também Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, cuja aproximação anterior com Vorcaro fora intermediada por Antônio Rueda, presidente do União Brasil.

Após essa reaproximação, Ibaneis deu aval para que o BRB avançasse em uma ampliação de capital estipulada inicialmente em R$ 500 milhões, valor posteriormente elevado para R$ 750 milhões em outubro de 2024. Com o aporte, fundos alinhados ao Master ingressaram na estrutura do BRB, permitindo ao banco público adquirir um total de R$ 9,5 bilhões em carteiras de crédito da instituição privada até fevereiro de 2025. O movimento visava aliviar problemas de liquidez do Master, que chegou a receber proposta de compra por R$ 1 pelo BTG Pactual no fim de 2024, operação travada por resistência de instituições integrantes do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).

Diante do cenário, a estratégia foi alterada para que o BRB assumisse o controle direto do Master, movimento batizado internamente como “Projeto Vértice” em fevereiro de 2025. As tratativas envolveram reuniões presenciais, inclusive durante evento empresarial em Zurique, na Suíça, em janeiro de 2025. Apesar de hesitações temporárias causadas por alertas sobre a contrariedade do Banco Central, o BRB formalizou em 28 de março de 2025 o anúncio de aquisição de 58% do controle do Master, após sanção legislativa acompanhada de perto pelo próprio ex-governador.

Paralelamente às negociações corporativas, a Polícia Federal identificou vantagens indevidas destinadas ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que planejava assumir o comando do novo conglomerado financeiro. A investigação apurou que o Master adquiriu seis imóveis de altíssimo padrão com valor global de R$ 146,6 milhões, sendo um deles destinado à moradia do executivo do banco público.

O negócio começou a colapsar em abril de 2025, quando auditores do BRB detectaram irregularidades nas carteiras de crédito consignado originadas pela empresa Tirreno e comercializadas pelo Master. A recusa do Master em fornecer dados sob a alegação de normas da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) levou à constatação de que parte dos empréstimos simplesmente não existia no cadastro de clientes. O BRB tentou substituir os ativos sem lastro, mas a crise se aprofundou até a negativa formal da operação pelo Banco Central em setembro de 2025. Em novembro do mesmo ano, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, culminando na prisão de Daniel Vorcaro.

Procurada para comentar o teor das investigações e da proposta de delação, a defesa de Ibaneis Rocha, representada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), informou que não se manifestará sobre declarações sem respaldo probatório. A defesa sustentou que os fatos reafirmam a posição do ex-governador de conceder autonomia de gestão à presidência do BRB, assegurando que ele não interferia nas decisões operacionais e administrativas do banco estatal. O empresário Leonardo Valverde não respondeu aos contatos da reportagem.

Foto: Agência Brasil

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