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Política migratória dos EUA cria impasse para atletas, árbitros e delegações na Copa do Mundo de 2026

Está no Brasil 247

A política migratória dos Estados Unidos tem se transformado em um dos principais desafios para a realização da Copa do Mundo de 2026, criando obstáculos inéditos para jogadores, árbitros, membros de comissões técnicas, jornalistas e torcedores.

As informações foram publicadas originalmente pelo jornal O Globo, que reuniu relatos de delegações afetadas por restrições de entrada e problemas na emissão de vistos para o torneio organizado conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá.

À medida que o Mundial se aproxima, casos de retenções em aeroportos, negativas de entrada e longos processos de análise migratória levantam dúvidas sobre a acessibilidade do evento e o impacto das tensões diplomáticas na maior competição de futebol do planeta.

Árbitro somaliano é barrado mesmo com visto válido

Um dos episódios mais emblemáticos envolve o árbitro somaliano Omar Artan. Celebrado por ser o primeiro representante da Somália escalado para atuar em uma Copa do Mundo, ele acabou impedido de entrar nos Estados Unidos apesar de possuir visto válido.

O caso foi confirmado pelo Ministério dos Esportes da Somália. Segundo as autoridades locais, Artan foi barrado na imigração americana e precisou retornar a Istambul, cidade onde havia obtido o visto.

A Fifa afirmou que não interfere nos processos migratórios dos países-sede e informou ter sido comunicada pelas autoridades americanas de que a situação do árbitro não seria alterada.

O conselheiro do Ministério dos Esportes da Somália, Clise Aden Abshir, criticou a decisão em declaração à AFP:

“Negar-lhe a entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de arbitrar partidas agendadas prejudica não apenas a sua pessoa, mas também mina o compromisso do futebol com a justiça, o mérito e o espírito do jogo limpo.”

Artan integra o quadro internacional da Fifa desde 2018 e foi reconhecido em 2025 como o melhor árbitro do continente africano.

Delegação do Iraque enfrenta retenções na fronteira

A seleção do Iraque também enfrentou dificuldades para ingressar no país. Um fotógrafo que acompanhava a delegação teve sua entrada negada em Chicago.

Segundo a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP), Talal Saleh foi considerado inadmissível com base em informações confidenciais previstas na legislação americana.

No mesmo voo, o atacante Aymen Hussein, principal nome do setor ofensivo iraquiano, permaneceu retido por aproximadamente sete horas antes de receber autorização para entrar no território americano.

Os episódios aumentaram a preocupação entre federações nacionais e dirigentes esportivos sobre a previsibilidade dos procedimentos migratórios durante a competição.

Haiti enfrenta dificuldades para obter vistos

A situação também afeta a seleção do Haiti. O meia Woodensky Pierre conseguiu desembarcar nos Estados Unidos após um longo processo para obtenção do visto, sendo recebido por companheiros e torcedores no Aeroporto Internacional de Miami.

De acordo com a federação haitiana, outros integrantes da delegação ainda aguardam definição sobre a emissão de seus documentos de entrada.

O Haiti está entre os países mais impactados pelas restrições migratórias impostas pelo governo americano, situação que gera incertezas para atletas, dirigentes e profissionais envolvidos com a participação da seleção no torneio.

Donald Trump associa Copa do Mundo às comemorações dos 250 anos dos EUA

O atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem apresentado a Copa do Mundo de 2026 como uma das principais vitrines internacionais das celebrações pelos 250 anos da independência americana.

Ao mesmo tempo, especialistas observam que as políticas migratórias adotadas pelo governo acabam se cruzando com o discurso de integração e universalidade tradicionalmente associado ao futebol.

A ex-chefe de diplomacia esportiva do Departamento de Estado, Ashleigh Huffman, destacou essa dualidade em entrevista à Associated Press:

“Vejo a Copa do Mundo de 2026 na interseção de duas realidades muito marcantes.”

Ela acrescentou:

“Tudo o que está acontecendo tem o poder de nos unir, mas também está forçando conversas sobre acessibilidade, direitos humanos, imigração e quem será incluído nesta celebração.”

Presença da polícia migratória gera preocupação

Outro fator que tem despertado debates é a participação de agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) no esquema de segurança da competição.

Organizações ligadas aos direitos dos imigrantes e grupos da sociedade civil demonstram preocupação com a possibilidade de abordagens migratórias em áreas relacionadas ao evento.

Até o momento, o Departamento de Segurança Interna não descartou totalmente essa possibilidade, alimentando receios entre torcedores estrangeiros.

Irã vive situação mais delicada

Entre todos os países classificados para a Copa do Mundo, o Irã enfrenta o cenário mais complexo.

As tensões entre Washington e Teerã se intensificaram após o conflito militar envolvendo os Estados Unidos, Israel e o governo iraniano. Em meio ao agravamento da crise, surgiram dúvidas sobre a participação da seleção iraniana no torneio.

Embora o Departamento de Estado tenha informado que os vistos dos jogadores já foram emitidos, a delegação estará sujeita a regras especiais de deslocamento.

O plano prevê que a equipe permaneça baseada em Tijuana, no México, viajando aos Estados Unidos apenas nos dias imediatamente anteriores às partidas e retornando logo após os jogos.

A Embaixada do Irã em Ancara criticou duramente as condições impostas:

“Os EUA estão privando a seleção nacional do Irã do seu direito de participar da Copa do Mundo em condições normais e sem pressão e estresse desnecessários.”

A representação diplomática acrescentou:

“Esta é a pior forma possível de interferência política no esporte.”

Jornalistas e torcedores também relatam dificuldades

As barreiras migratórias não atingem apenas atletas e dirigentes. A Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) enviou uma carta à Fifa relatando problemas na concessão de vistos para jornalistas do Irã e de diversos países africanos.

Em resposta, a entidade máxima do futebol afirmou que questões de entrada nos países-sede permanecem sob responsabilidade exclusiva das autoridades consulares e migratórias.

A advogada especializada em imigração Celine Atallah resumiu o desafio em entrevista à BBC:

“O sistema de vistos é o guardião invisível da Copa do Mundo.”

Ela completou:

“A Fifa pode vender um ingresso, mas o governo dos EUA decide quem recebe o visto, e a CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras) decide quem de fato entra.”

Copa do Mundo enfrenta desafio além do futebol

A Copa do Mundo de 2026 promete ser a maior da história, com número recorde de seleções participantes e partidas distribuídas por três países. No entanto, as restrições migratórias dos Estados Unidos vêm adicionando um componente político e diplomático sem precedentes à preparação do evento.

Enquanto autoridades americanas defendem a necessidade de manter elevados padrões de segurança nacional, críticos argumentam que as medidas podem comprometer o princípio de universalidade que historicamente acompanha o futebol internacional.

O resultado é um cenário de incerteza para atletas, árbitros, jornalistas e torcedores, que agora precisam superar não apenas os desafios esportivos, mas também os obstáculos impostos pelas regras migratórias para participar do maior espetáculo do futebol mundial.

Foto: Agência Brasil




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