Está no Blog da Andréia Sadi
O Centrão tem feito, apesar de tardiamente, acenos públicos de apoio ao sistema eleitoral nos últimos dias. Na prática, o movimento faz parte de um jogo duplo, uma estratégia típica do bloco quando não tem certeza absoluta se apostou no “cavalo certo”: apoia Jair Bolsonaro [1] mas, como existe o day after – e eles não sabem se será Lula [2] ou Bolsonaro –, melhor fazer movimentos que indiquem que a interlocução com o “outro lado” não estará interditada em caso de derrota do presidente.
Um desses movimentos aconteceu quando o presidente do PL [3], Valdemar da Costa Neto, foi ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral [4] (TSE), Edson Fachin [5], em uma reunião na mesma quarta (27).
Dono do partido pelo qual Bolsonaro vai concorrer à reeleição, Valdemar disse a Fachin – alvo de reiterados ataques do presidente – que confia na Justiça Eleitoral. E mais: que é totalmente contra o voto impresso, uma das bandeiras do presidente.
O objetivo do PL, repete Valdemar a integrantes do Judiciário, é fazer bancada no Congresso. Traduzindo: a prioridade do Centrão é ter poder, como sempre, no Congresso Nacional.
Na quarta, Lula mudou o tom e, pela primeira vez, também acenou a Arthur Lira [6]. Em entrevista ao UOL, disse que quem precisa do presidente da Câmara é o presidente da República – e que o presidente da República não deve interferir na escolha pelo comando da Mesa Diretora.
Lira, nos bastidores, não acredita nessa fala de Lula. Mas, por uma coincidência, também na quarta – após nove dias em silêncio – disse que confia no sistema eletrônico [7]. Lira fez o discurso ao lado de Bolsonaro e dias depois de participar da convenção que oficializou Bolsonaro candidato [8]. No evento do domingo, Lira vestiu a camisa de Bolsonaro. Na quarta, assoprou: fez o discurso de defesa das urnas ao lado de Bolsonaro, que permaneceu olhando para a mesa.
Mas por que esses movimentos acontecem agora?
É consenso na campanha de Bolsonaro que o presidente é o responsável pela “onda errada” que domina o noticiário há semanas: a reunião com embaixadores [9]. A partir dali, as reações de diferentes autoridades, incluindo base do presidente, como militar, Abin, PF – reagiram com contundência aos ataques do presidente.
Mais recentemente, aumentou a pressão sobre os que ainda não haviam se posicionado – pois uma articulação por parte de empresários, juristas, artistas e outras personalidades públicas, em torno de cartas de apoio à democracia [10], conseguiu a adesão de 230 mil assinaturas e conta com nomes de peso do mercado como Walter Schalka, Roberto Setúbal, Pérsio Árida, entre outros.
Uma segunda é pilotada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) [11] – que, na gestão Paulo Skaf, apoiou o impeachment de Dilma Rousseff (PT) – e que conta com o apoio da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). O comitê de campanha de Bolsonaro sentiu tanto o manifesto que prepara, como resposta, outros documentos de apoio ao combate a corrupção e contra a inflação.
O Centrão, como gosta de lembrar um de seus principais caciques, apoia o mandatário – mas desde que haja reciprocidade. Na política, isso significa conseguir acesso ao poder ilimitado por meio de verbas, cargos, espaços e pautas.
“Se o presidente da República adotar um voo solo, numa agenda que coloque em risco o projeto de poder conjunto com Centrão, o Centrão pode até ver o barco afundar, mas ele sabe nadar”, ironiza esse líder do bloco. Ou seja, o Centrão pode não desembarcar do apoio antes – mas, durante o processo eleitoral, pode construir pontes e amarrar acessos para pular do barco no dia seguinte do pleito.
Militares
Há, ainda, o impacto negativo do evento promovido por Bolsonaro para atacar o sistema eleitoral brasileiro diante de uma plateia de embaixadores estrangeiros, realizado apesar da orientação em contrário do Centrão.
Também na quarta, o presidente do Superior Tribunal Militar (STM), que estava no encontro – para o qual os comandantes das Forças Armadas recusaram os convites do Planalto –, declarou na quarta-feira que os militares não têm que se envolver nas eleições [12].
Nos bastidores, integrantes da cúpula do Exército reafirmam que não há endosso nem apoio a qualquer aventura de Bolsonaro – mas sabem que o presidente continuará a tentar arrastá-los para o tumulto.
Por isso, nas análises de praxe feitas por esses militares sobre as eleições, eles consideram todos os cenários, desde tranquilidade até falência dos sistemas de segurança pública estaduais – o que bolsonaristas gostariam que acontecesse.
Em tom de brincadeira, esses militares dizem que nunca torceram tanto para chegar o Halloween, em referência ao dia 31 de outubro, o primeiro pós eleição – o 2º turno, caso necessário, ocorre um dia antes.
Imagem reproduzida da IstoÉ Independente