por Marco Damiani, no Brasil 247
O espanto coletivo diante do crescimento nas pesquisas do candidato Augusto Cury indica que muita gente não estava levando a sério a relevância do voto do eleitor indeciso, ou indiferente à disputa até aqui, na definição da sucessão presidencial. O pulo de 2% para 11% das intenções apuradas pela pesquisa BTG/Nexus, acompanhado da perda de pontos tanto do presidente Lula como do candidato Flávio Bolsonaro, mostra que Cury está conseguindo, fora do olhar dos observadores da eleição, navegar entre os polos da esquerda e da direita para crescer e aparecer. Quanto mais afastarem para os seus respectivos cantos, mais Lula e Bolsonaro abrem espaço ao centro para Cury avançar.
O candidato do Avante também cresceu 6 pontos no levantamento Atlas/Intel, deixando para trás de uma vez só, na parte divertida desse movimento, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. O despertar da candidatura do psiquiatra e escritor de livros de auto-ajuda se deu no debate entre presidenciáveis na rede Bandeirantes, em 22 de agosto. Após o encontro, ele obteve uma alta de quase 20% em seguidores no Instagram, subindo de 8,3 milhões para 9,9 milhões.
A estrutura utilizada por Cury nas redes sociais desperta suspeitas que, até o momento, parecem não preocupar o TSE. Há rumores sobre importação de robôs (bots) de impulsionamento, contratação de influenciadores e manipulação de métricas a favor da candidatura. A contratação de perfis falsos ou o uso de redes de automação para impulsionar candidatos é vedado pela legislação eleitoral brasileira. Trata-se de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social.
No discurso, Cury vende conceitos vagos de gestão do estresse social, administração pública com empatia e busca por convergências. O suficiente para assumir o papel de candidato de centro, alheio aos radicalismos. Ele tem crescido com maior intensidade entre os jovens, eleitores com ensino superior e famílias de classe média urbana. Nesses segmentos, o apelo de uma liderança focada na “inteligência emocional” contra o desgaste dos discursos ideológicos tradicionais.
Mesmo os que reconhecem em Cury mais um embuste da direita precisam refletir sobre a importância do espaço que ele está conseguindo ocupar. Os votos alheios à polarização também devem ser disputados pelo candidato à reeleição. Para tanto, a campanha precisa ser menos petista e mais governista, isto é, mostrar muito mais as realizações do governo do que as cores e as bandeiras do partido.
Os correligionários do presidente Lula são uma base garantida de votos, mas a vitória está em conquistar aqueles que orbitam além desse círculo. Mostrar organizadamente as realizações do governo Lula será bem mais útil, do ponto de vista eleitoral, do que embrenhar-se em disputas ideológicas neste momento. O fenômeno Cury está mostrando que o eleitor de centro está carente por um discurso mais de paz do que de guerra.
* Marco Damiani é editor especial do Brasil 247 no Rio de Janeiro
Foto: Livrista