Está na Revista Fórum
lançamento da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro [1] (PL), realizado em 16 de agosto, na praia de Copacabana [2], ganhou um personagem que parecia ter ficado guardado no arquivo das velhas dores de cabeça da família: Fabrício Queiroz [3]. Ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Queiroz apareceu abraçado ao senador durante o ato e fez questão de registrar o reencontro nas redes sociais.
A legenda escolhida para a foto foi curta e enigmática apenas para quem não acompanhou a política brasileira nos últimos anos: “22 BR”. Para os demais, a imagem dispensava maiores apresentações. Era o retorno triunfal de um dos nomes mais associados ao antigo escândalo das chamadas “rachadinhas [4]” no gabinete de Flávio.
Queiroz, que atualmente ocupa o cargo de subsecretário de Segurança e Ordem Pública de Saquarema [5] (RJ), vinha sinalizando que pretendia participar da campanha do ex-chefe. Em Copacabana, resolveu não apenas participar, mas também posar para a fotografia. Afinal, se existe uma maneira de começar uma campanha presidencial falando em “mudança”, aparentemente também existe a possibilidade de começar reencontrando velhos conhecidos.
Abraço novo problema antigo
A fotografia rapidamente recolocou Queiroz no centro da discussão política. O ex-assessor foi apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como peça central do esquema investigado no antigo gabinete de Flávio na Alerj.
Em 2020, o MP-RJ denunciou Flávio e Queiroz por crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo a acusação, Queiroz seria responsável por recolher parte dos salários de servidores do gabinete.
O caso, entretanto, não chegou a uma análise definitiva do mérito das acusações. Decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) invalidaram provas consideradas fundamentais para a investigação, e o processo acabou arquivado. Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz sempre negaram irregularidades.
Assim, anos depois, bastou um abraço em Copacabana para que a história voltasse ao noticiário — sem necessidade de operação policial, coletiva de imprensa ou investigação nova. Uma fotografia resolveu o serviço.
Clima de déjà vu
O ato que marcou o início da campanha de Flávio também ficou longe de reproduzir a grandiosidade das manifestações protagonizadas anteriormente por Jair Bolsonaro na orla de Copacabana. A mobilização foi descrita por veículos de imprensa e adversários como flopada ou abaixo das expectativas.
Flávio discursou contra a política de segurança pública do governo federal, defendeu o pai, que cumpre prisão domiciliar, e prometeu cortar gastos públicos.
Mas, enquanto o candidato falava sobre o futuro do país, a fotografia ao lado de Queiroz tratava de outro assunto: o passado.
É como se a campanha tivesse decidido apresentar, logo na estreia, um pacote completo de nostalgia política. Bandeiras, discursos, defesa de Jair Bolsonaro e, para completar o cenário, uma figura conhecida justamente por um dos episódios mais incômodos da trajetória política de Flávio.
Personagem inconveniente
Queiroz tornou-se nacionalmente conhecido após a revelação de movimentações financeiras consideradas atípicas em sua conta pelo então Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O caso evoluiu para a investigação sobre a existência de um esquema de desvio de salários de funcionários do gabinete de Flávio na Alerj.
Desde então, seu nome passou a ser uma espécie de palavra-chave involuntária quando o assunto é o passado político do senador.
Agora, ao reaparecer abraçado ao antigo chefe justamente no lançamento da candidatura presidencial, Queiroz ajudou a produzir uma cena difícil de ignorar.
Em vez de tentar deixar o passado distante, a campanha começou trazendo-o para a areia de Copacabana — literalmente ao lado do candidato.
O abraço, pelo menos, deixou uma certeza: para quem esperava uma campanha inteiramente dedicada ao futuro, o primeiro ato veio com uma boa dose de lembranças.
Foto reproduzida da Internet