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Quem está por trás da fuga de Flávio Bolsonaro? Ação na Polícia Federal mira rede internacional de apoio

Está na Revista Fórum

A fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) [1] para os Estados Unidos pode ter contado com uma rede internacional de apoio político, financeiro e logístico, com possível participação de agentes ligados aos governos de Donald Trump e Javier Milei. É o que querem esclarecer o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), e o deputado Rogério Correia (MG), que acionaram a Polícia Federal (PF) para investigar quem organizou, financiou e facilitou a saída do senador do Brasil, mesmo diante de uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibia de deixar o país.

A notícia de fato, apresentada na quarta-feira (28), pede uma investigação sobre a estrutura que permitiu a fuga do candidato derrotado por Lula (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. Os parlamentares também querem identificar uma possível rede de desinformação articulada por aliados bolsonaristas para despistar as autoridades brasileiras e dificultar a localização do senador.

O pedido ganha ainda mais relevância diante da carta golpista divulgada por Flávio Bolsonaro [2] após sua chegada a Miami. No documento, o senador agradeceu a Trump e Milei pelo acolhimento, contestou sem provas o resultado das eleições e chegou a se autoproclamar o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, antes de recuar e passar a se apresentar como “líder do Brasil”.

A representação reúne uma série de elementos que, segundo os deputados, justificam a abertura de uma investigação sobre a possível articulação internacional.

Passaportes cancelados, escolta e jatinho: a rota da fuga

A petição detalha como Flávio Bolsonaro deixou o Brasil após descumprir a decisão do ministro Alexandre de Moraes, que havia determinado a entrega de seus passaportes, incluindo documentos de outras nacionalidades, e proibido sua saída do território nacional.

Na noite de terça-feira (27), o senador atravessou a fronteira de Foz do Iguaçu (PR) com a Argentina, acompanhado da esposa e das duas filhas. Segundo os registros migratórios argentinos, o grupo ingressou no país às 22h50, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, e embarcou em uma aeronave particular no aeroporto de Puerto Iguazú. O avião fez escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami, onde pousou na manhã de quarta-feira (28).

Um dos pontos mais graves destacados na representação envolve os documentos utilizados pelo senador. Segundo as informações reunidas pelos deputados, Flávio apresentou seu passaporte italiano [3] para ingressar na Argentina e utilizou o passaporte diplomático brasileiro para entrar nos Estados Unidos. Este último já havia sido cancelado pela Polícia Federal, depois que o parlamentar deixou de cumprir a determinação judicial.

Os deputados querem esclarecer por que as autoridades norte-americanas permitiram o ingresso com o documento cancelado, se já tinham conhecimento das restrições impostas pelo STF e se houve alguma intervenção política para facilitar a entrada do senador.

Outro elemento destacado é o acompanhamento de agentes da Policía de Seguridad Aeroportuaria argentina durante o deslocamento até a aeronave. A petição pede que seja identificado quem autorizou a escolta e se autoridades do governo Milei participaram da operação.

Quem pagou pela fuga? Empresa aérea tem ligações com escândalo no governo Milei

A investigação solicitada também pretende identificar a origem do dinheiro utilizado para custear a operação. O jatinho que transportou Flávio e sua família pertence à frota da Baires Fly, empresa argentina citada em uma investigação sobre um esquema de corrupção na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), que atingiu integrantes do governo Javier Milei.

A companhia é ligada comercialmente ao empresário Sergio Daniel Mastropietro, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro na Argentina. A Baires Fly, entretanto, não figura como acusada no processo citado na representação.

Os parlamentares querem saber quem contratou a aeronave, quem pagou pelo fretamento e se os recursos utilizados têm alguma relação com os crimes financeiros investigados pela Justiça brasileira.

Outro personagem que aparece no documento é o advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito que levou Moraes a determinar a apreensão dos passaportes de Flávio. Conforme revelou a Fórum [4], a PF examina a movimentação de um jatinho atribuído a uma empresa controlada por Tomaz, que deixou Brasília na madrugada de terça-feira (27) com destino à Argentina.

A presença de Flávio nessa aeronave não foi comprovada. A representação pede a identificação dos passageiros e a apuração de eventual participação do advogado no planejamento ou financiamento da fuga.

O nome de Eduardo Bolsonaro também aparece entre os possíveis articuladores. Antes do segundo turno, ele havia defendido publicamente que o irmão deixasse o país caso fosse derrotado por Lula. Agora, os deputados querem saber se Eduardo participou dos contatos com autoridades estrangeiras, da obtenção dos vistos ou da organização da viagem.

Carta golpista e agradecimentos a Trump e Milei

A dimensão política da fuga ganhou força com o pronunciamento divulgado por Flávio Bolsonaro diretamente dos Estados Unidos, na quarta-feira (28).

Na primeira versão de sua carta, o senador se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de ter perdido a disputa para Lula por mais de 4,4 milhões de votos. Posteriormente, alterou o documento [5] e passou a se definir como “líder do Brasil”, mas manteve as acusações infundadas de fraude eleitoral.

O senador também agradeceu aos dois presidentes estrangeiros citados na representação apresentada à PF.

“Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher”, afirmou.

No texto, Flávio sustenta, sem apresentar provas, que o processo eleitoral foi fraudado e acusa o STF de interferência no resultado das urnas. O senador também anuncia a intenção de comandar a oposição brasileira a partir do território norte-americano.

As acusações reproduzem a estratégia de contestação eleitoral adotada por seu pai, Jair Bolsonaro, condenado pelo STF por participação na trama golpista que tentou impedir a posse de Lula após as eleições de 2022.

Embora os agradecimentos feitos por Flávio não comprovem a participação direta dos dois governos no planejamento da fuga, a representação pede que sejam esclarecidos os contatos e as decisões que permitiram sua passagem pela Argentina e sua admissão nos Estados Unidos.

Uma operação de desinformação para despistar a PF?

Além do financiamento e das conexões internacionais, os deputados pedem a investigação de uma possível estratégia coordenada de desinformação.

Durante a terça-feira (27), enquanto a Polícia Federal tentava localizar Flávio, aliados do senador divulgaram versões contraditórias sobre seu paradeiro. Algumas informações indicavam que ele ainda estava no Brasil; outras afirmavam que já havia chegado aos Estados Unidos. Também circulou a versão de que a fuga teria ocorrido pela Venezuela.

Entre os personagens mencionados na petição estão Eduardo Bolsonaro, Rogério Marinho, Fábio Wajngarten e Maurício Marcon, além de outras fontes brasileiras e estrangeiras que transmitiram informações posteriormente contrariadas pelos registros migratórios argentinos.

A investigação deverá esclarecer se as declarações foram resultado de informações equivocadas ou se integraram uma ação deliberada para desviar a atenção das autoridades e permitir que Flávio deixasse o país.

Pedido à PF mira Interpol, investigação financeira e governos estrangeiros

A representação solicita uma série de diligências para reconstituir a operação e identificar os responsáveis por sua execução. Entre elas estão o rastreamento dos pagamentos, a obtenção de imagens da travessia da fronteira, a identificação dos contratantes dos transportes e a análise das comunicações entre os envolvidos.

Os parlamentares também solicitam que a PF promova a difusão azul da Interpol, mecanismo voltado à localização de pessoas e à obtenção de informações sobre seus deslocamentos. O pedido é complementar à solicitação de prisão preventiva e inclusão de Flávio na difusão vermelha da organização, já apresentada ao STF em 27 de outubro.

A representação pede ainda que sejam apurados possíveis crimes de favorecimento pessoal, embaraço à investigação, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e descumprimento de decisão judicial.

Na frente diplomática, os deputados defendem que o Itamaraty solicite explicações formais aos governos da Argentina, dos Estados Unidos e do Equador. Também pedem que seja avaliada a convocação do embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos sobre a escolta policial e as circunstâncias da saída do senador.

A petição deverá ser comunicada ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, e à Procuradoria-Geral da República (PGR).

A principal questão levantada pelos parlamentares é saber se Flávio Bolsonaro contou apenas com a ajuda de aliados políticos e empresários ou se sua fuga envolveu uma articulação mais ampla, capaz de mobilizar recursos financeiros, aeronaves privadas e estruturas de governos estrangeiros para permitir que o senador escapasse do alcance da Justiça brasileira.

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