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Receita de ONG ligada à produtora de Dark Horse cresceu 170 vezes em três anos

Está no Brasil 247

A ONG Instituto Conhecer Brasil, ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, declarou receita de R$ 54 milhões em 2025, valor cerca de 170 vezes maior que o faturamento registrado três anos antes, quando a entidade informou ter arrecadado R$ 306 mil. O crescimento ocorreu no período em que a organização mantinha um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de wi-fi em áreas periféricas da capital, segundo o Metrópoles [1].

O Instituto Conhecer Brasil é investigado por suspeita de desvio de recursos públicos no contrato firmado com a gestão municipal. Karina Ferreira da Gama também é sócia da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, longa-metragem sobre Jair Bolsonaro (PL). Uma das linhas de apuração do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) é a possibilidade de que dinheiro público destinado ao projeto de conectividade tenha sido usado para financiar a produção cinematográfica.

Demonstrações financeiras indicam que a receita declarada pela ONG saltou de R$ 306 mil no fim de 2022 para R$ 54 milhões no fim de 2025. Do total informado no último ano, R$ 51,9 milhões aparecem classificados como “parcerias e subvenções governamentais”. Outros R$ 2 milhões foram registrados como “subvenções com educação”, além de R$ 2,6 milhões em “receita prestações de serviço”.

A documentação foi apresentada pelo Instituto Conhecer Brasil ao Ministério da Justiça em fevereiro deste ano, como parte do pedido para obter o certificado de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). O reconhecimento é concedido a entidades sem fins lucrativos e pode facilitar a celebração de parcerias e a captação de recursos públicos. A solicitação, porém, não foi aprovada de imediato pela pasta.

Em parecer técnico emitido em 29 de março, um analista do Ministério da Justiça apontou inconsistências no estatuto social da ONG e concedeu prazo de 60 dias úteis para adequações. Entre as mudanças exigidas estavam a retirada de previsão de benefícios a associados e a inclusão da prestação gratuita dos serviços, conforme as regras aplicáveis às Oscips.

No documento, o técnico afirmou que o estatuto da entidade contrariava a legislação ao permitir que associados fossem beneficiados pelos serviços oferecidos pela própria organização. “Conforme disposto no artigo 8º inc II, do Estatuto Social, a entidade estabelece que os associados serão beneficiados pelos serviços oferecidos pela entidade. Dessa forma, verifica-se que entidade incide na vedação prevista no artigo 2º, inciso V, da Lei nº 9.790/99, uma vez que dispõe que os associados poderão ser beneficiados pelos serviços prestados pela entidade social. Ocorre que os serviços oferecidos pela entidade social devem ter caráter exclusivamente público, não permitindo a Lei nº 9.790/99 o usufruto dos serviços da entidade pelos seus associados”, diz o parecer.

O prazo para regularização terminou em 29 de maio. Até a publicação das informações, não havia confirmação sobre eventuais alterações no estatuto social do Instituto Conhecer Brasil.

As despesas declaradas pela ONG também chamaram a atenção dos investigadores. No balanço referente a 2022, praticamente toda a receita do ano, cerca de R$ 299 mil, foi lançada como gasto com “serviços de terceiros”, sem detalhamento sobre os pagamentos. Em 2025, a entidade informou R$ 52 milhões em despesas com a mesma finalidade.

Além desse montante, a ONG declarou gastos administrativos como R$ 452 mil com pessoal, R$ 85 mil com encargos sociais, R$ 224 mil com aluguéis, R$ 70 mil com transporte e veículos, R$ 88,7 mil com despesas bancárias, R$ 18,8 mil com comunicação e R$ 72 mil em outras despesas ou manutenção de projetos. Também constam valores menores com manutenção de imóvel, impostos, multas, juros, depreciação e amortização.

O contrato de R$ 108 milhões entre o Instituto Conhecer Brasil e a Prefeitura de São Paulo foi assinado em 2024 e previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi em regiões periféricas da capital paulista. Para executar o serviço, a entidade subcontratou empresas especializadas.

A investigação sobre possível desvio de recursos teve como base, entre outros elementos, notas fiscais apresentadas para comprovar pagamentos supostamente realizados a empresas envolvidas no projeto. Entre os documentos analisados estava uma nota de R$ 1,2 milhão emitida em nome do próprio Instituto Conhecer Brasil e outra, de R$ 2 milhões, que foi cancelada.

Ao pedir a apresentação de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre Karina Ferreira da Gama, a promotora Marina de Azevedo Pedersolli afirmou que o caso envolve suspeitas de diferentes crimes. “Os fatos investigados envolvem, em tese, possíveis crimes licitatórios, lavagem de capitais, organização criminosa e eventual desvio de verbas públicas”, disse a promotora.

Em 1º de junho, a Go Up Entertainment e o Instituto Conhecer Brasil foram alvos de uma operação da Polícia Civil. A produtora nega que recursos pagos pela Prefeitura de São Paulo à ONG tenham sido utilizados para financiar Dark Horse.

A Go Up declarou que o filme custou R$ 75 milhões, sendo R$ 54,2 milhões em despesas nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil. Os valores foram apresentados em uma perícia privada contratada pela própria produtora e anexada ao inquérito que apura o suposto desvio de dinheiro público. A investigação tramita sob segredo de Justiça.

O custo informado pela produtora é R$ 44,8 milhões inferior ao valor que teria sido negociado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em 2025. Diálogos envolvendo Vorcaro, seu cunhado Fabiano Zettel e o empresário Thiago Miranda trataram de possíveis fluxos de pagamento para a produção do filme.

Um dos modelos discutidos previa 12 parcelas de US$ 1,6 milhão e outras duas de US$ 2 milhões, totalizando US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134 milhões. Posteriormente, Flávio Bolsonaro enviou um áudio a Vorcaro demonstrando preocupação com parcelas atrasadas do patrocínio do Banco Master ao longa. A conversa ocorreu em 16 de novembro, um dia antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura uma fraude bilionária atribuída ao banco no mercado financeiro.

Imagem reproduzida da Internet

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