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Se as melhores parlamentares do Brasil são mulheres progressistas, a conclusão óbvia é: precisamos de um Congresso mais feminino e mais popular

por Leonardo Attuch, no Brasil 247

Os resultados da 19ª edição do Prêmio Congresso em Foco trazem uma mensagem política que deveria ser cuidadosamente observada por todos aqueles que desejam um Brasil mais democrático, mais justo e mais representativo. Quando o povo é chamado a escolher diretamente os parlamentares que mais admira, as mulheres, e particularmente as mulheres progressistas, aparecem com uma força muito superior à presença feminina efetiva no Congresso Nacional.

Não é um detalhe. É um recado.

Entre os deputados destacados nacionalmente pelo júri popular aparecem Benedita da Silva, Duda Salabert, Erika Hilton, Gleisi Hoffmann e Sâmia Bomfim, ao lado de Duda Ramos, Lindbergh Farias, Nikolas Ferreira e Pastor Henrique Vieira, segundo a relação divulgada pelo Congresso em Foco.

Ou seja: entre os nove nomes efetivamente relacionados na lista divulgada, cinco são mulheres. E quatro dessas cinco — Benedita, Duda Salabert, Erika e Sâmia — pertencem claramente ao campo progressista, assim como Gleisi Hoffmann, uma das principais lideranças do PT.

O fenômeno se repete quando olhamos para os estados.

No Paraná, Gleisi Hoffmann foi escolhida a melhor deputada. No Rio de Janeiro, Benedita da Silva. Em São Paulo, Erika Hilton. No Rio Grande do Norte, Natália Bonavides. No Rio Grande do Sul, Fernanda Melchionna. Em Mato Grosso do Sul, Camila Jara.

São mulheres de gerações diferentes, histórias diferentes e experiências políticas distintas, mas que compartilham uma característica fundamental: seus mandatos estão fortemente associados à defesa de direitos sociais, das mulheres, dos trabalhadores, das minorias, dos serviços públicos, da democracia e de um Estado capaz de enfrentar desigualdades.

Há aqui uma conclusão óbvia: se tantas das parlamentares mais reconhecidas diretamente pelo povo são mulheres progressistas, precisamos de um Congresso mais feminino, mais popular, mais negro, mais indígena e mais conectado com a sociedade brasileira.

Mulheres são sub-representadas, mas super-reconhecidas

A representação feminina no Congresso brasileiro continua muito aquém da importância das mulheres na sociedade.

As mulheres constituem mais da metade da população e do eleitorado brasileiro, mas continuam ocupando uma parcela muito menor das cadeiras do Parlamento.

Essa distorção fica ainda mais evidente diante do resultado do Prêmio Congresso em Foco.

Quando desaparecem, ainda que momentaneamente, algumas das barreiras que dificultam o acesso das mulheres ao poder — estruturas partidárias, financiamento, distribuição de recursos eleitorais, redes tradicionais de poder e máquinas políticas — e o cidadão simplesmente responde à pergunta sobre quem são os melhores parlamentares, as mulheres aparecem proporcionalmente muito mais.

Isso significa que o problema evidentemente não está na capacidade feminina de exercer mandatos. Ao contrário.

O problema está nas condições para que mais mulheres consigam chegar ao Congresso.

Benedita representa a história

Basta observar as trajetórias das vencedoras.

Benedita da Silva é parte da própria história da democratização brasileira. Foi pioneira como mulher negra na Câmara Municipal do Rio, participou da Constituinte de 1988 e tornou-se a primeira mulher negra no Senado e a primeira mulher negra a governar o Rio de Janeiro.

Hoje, em seu quinto mandato como deputada federal, continua sendo reconhecida pelo eleitor.

Sua vitória no Rio de Janeiro não é apenas uma homenagem a uma trajetória. É também a confirmação de que a defesa da inclusão social e da representação das camadas populares permanece viva.

Gleisi representa a força política

No Paraná, a vencedora foi Gleisi Hoffmann, que reúne experiência no Senado, na Câmara, na Casa Civil, na direção do Partido dos Trabalhadores e no Executivo.

Gleisi se tornou uma das principais articuladoras políticas do campo progressista brasileiro e uma das vozes mais firmes na defesa de políticas sociais e do papel do Estado no desenvolvimento.

Seu reconhecimento popular em um estado politicamente disputado tem significado especial.

Erika representa um novo Brasil

Em São Paulo, Erika Hilton venceu pelo segundo ano consecutivo.

Eleita deputada federal em 2022 com 256.903 votos, depois de ter sido a mulher mais votada para a Câmara Municipal paulistana em 2020, Erika tornou-se em março de 2026 a primeira mulher trans a presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.

Sua atuação abrange direitos humanos, igualdade racial, direitos das mulheres, inteligência artificial e redução da jornada de trabalho.

Erika simboliza um Brasil que durante muito tempo não conseguia enxergar a si próprio nas instituições de poder e que agora exige representação.

E é significativo que ela não tenha sido reconhecida apenas pelo voto popular. Erika também aparece entre os três deputados escolhidos pelo júri de jornalistas, ao lado de Arnaldo Jardim e Tabata Amaral.

Natália, Fernanda e Camila mostram a renovação progressista

No Rio Grande do Norte, Natália Bonavides conquistou pelo segundo ano consecutivo o reconhecimento popular como melhor deputada do estado.

Sua atuação está ligada aos direitos humanos, ao desenvolvimento urbano, aos direitos das mulheres e à redução da jornada de trabalho. Durante a pandemia, destacou-se na luta pela suspensão dos despejos de famílias vulneráveis.

No Rio Grande do Sul, a escolhida foi Fernanda Melchionna, que veio do movimento estudantil, passou dez anos pela Câmara Municipal de Porto Alegre e chegou ao Congresso defendendo educação, moradia, transporte público, direitos das mulheres e serviços públicos. Durante a pandemia, teve participação importante na aprovação do auxílio emergencial em dobro para mulheres chefes de família.

Em Mato Grosso do Sul, venceu Camila Jara, uma representante de uma geração ainda mais nova, que combina em seu mandato direitos sociais, meio ambiente, economia, direitos das mulheres e um dos assuntos mais decisivos deste século: a regulamentação da inteligência artificial.

Não estamos, portanto, diante de um fenômeno isolado.

Estamos vendo surgir e se consolidar uma geração de mulheres progressistas com enorme capacidade de conexão com a sociedade.

O mapa do Brasil confirma a tendência

As categorias estaduais do prêmio tornam essa realidade ainda mais interessante.

Além das seis parlamentares já mencionadas, o voto popular escolheu Socorro Neri, no Acre; Erika Kokay, no Distrito Federal; Jack Rocha, no Espírito Santo; Coronel Fernanda, em Mato Grosso; Dilvanda Faro, no Pará; e Julia Zanatta, em Santa Catarina.

São 12 mulheres entre os 27 vencedores estaduais da Câmara, quase 45% do total.

Isso não significa, evidentemente, que todas pertençam ao mesmo campo ideológico. Não pertencem. E isso é positivo: a ampliação da presença feminina deve ser uma bandeira democrática que ultrapasse fronteiras partidárias.

Mas é impossível deixar de perceber o peso extraordinário das mulheres progressistas entre as mais reconhecidas pelo eleitorado.

No Senado, a votação regional também escolheu duas mulheres entre cinco vencedores: Soraya Thronicke, no Centro-Oeste, e Leila Barros, no júri dos jornalistas, ao lado de outras parlamentares reconhecidas nas diferentes modalidades.

O próprio júri especializado reforça a importância das mulheres. Entre os três nomes da Câmara escolhidos pelos jornalistas, duas são mulheres: Erika Hilton e Tabata Amaral. Entre os três do Senado, duas também são mulheres: Leila Barros e Tereza Cristina.

Portanto, seja pelo voto popular, seja pela avaliação de profissionais que acompanham diariamente o Parlamento, as mulheres ocupam um espaço de destaque muito superior à sua presença quantitativa no Congresso.

Precisamos mudar o Congresso em 2026

Esse debate ganha importância ainda maior porque estamos diante de uma eleição que poderá definir não apenas quem ocupará a Presidência da República, mas que tipo de Congresso governará o Brasil a partir de 2027.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso confirme nas urnas o favoritismo para conquistar um provável quarto mandato presidencial, precisará de algo que não teve plenamente nos últimos anos: um Congresso amigo do povo.

Não se trata de defender um Parlamento submisso ao Executivo. Isso seria ruim para a democracia.

Trata-se de eleger deputados e senadores comprometidos com uma agenda que tenha respaldo popular: valorização do salário mínimo, redução das desigualdades, defesa do SUS, educação pública, proteção ambiental, desenvolvimento econômico, soberania nacional, direitos das mulheres, combate ao racismo, tributação mais justa e melhores condições de trabalho.

Um presidente pode ter enorme legitimidade popular. Mas, no presidencialismo brasileiro, nenhuma transformação estrutural é realizada sem maioria parlamentar.

Um Congresso amigo do povo

A experiência brasileira demonstra que governos eleitos com programas progressistas frequentemente encontram um Parlamento muito mais conservador do que a própria sociedade.

Essa contradição produz bloqueios, distorções e negociações permanentes que limitam a capacidade de executar o programa aprovado nas urnas.

Por isso, a eleição parlamentar de 2026 será tão importante quanto a presidencial.

Não basta votar em Lula para presidente e, na eleição proporcional, entregar o Congresso aos adversários das políticas que o próprio eleitor deseja ver implementadas.

É preciso compreender que Presidência e Congresso fazem parte da mesma escolha sobre o futuro do País.

Se queremos continuar elevando o salário mínimo acima da inflação, ampliar políticas sociais, defender o emprego, reduzir a jornada de trabalho, investir em saúde e educação, fortalecer a indústria brasileira e enfrentar as novas desigualdades produzidas pelas transformações tecnológicas, será necessário construir maioria política para isso.

Mais mulheres, mais povo

O Prêmio Congresso em Foco não é uma eleição nacional e não pretende funcionar como pesquisa eleitoral. Seus resultados devem ser interpretados dentro dos limites da própria premiação.

Mas eles oferecem uma pista extremamente interessante.

Quando os cidadãos são convidados a reconhecer quem se destaca no Parlamento, mulheres aparecem repetidamente entre os nomes mais valorizados.

E muitas delas são justamente mulheres progressistas, comprometidas com as pautas que dizem respeito à vida concreta da maioria da população.

Talvez isso aconteça porque quem historicamente precisou lutar mais para ocupar um espaço político compreenda melhor a importância de abrir esse mesmo espaço para os outros.

Talvez seja porque mulheres que chegam ao Parlamento apesar de tantas barreiras sejam submetidas a um processo de seleção política muito mais duro.

Ou talvez seja simplesmente porque a sociedade brasileira mudou mais rapidamente do que sua representação institucional.

Seja qual for a explicação, o resultado está diante de nós.

Benedita da Silva, Gleisi Hoffmann, Erika Hilton, Natália Bonavides, Fernanda Melchionna e Camila Jara não são exceções que confirmam uma regra masculina. São sinais de uma transformação política que precisa ser acelerada.

O Brasil de 2027 precisa de um Congresso que se pareça mais com o Brasil real.

Um Congresso com mais mulheres. Mais trabalhadores. Mais negros. Mais representantes dos movimentos sociais. Mais gente que conheça a vida concreta do povo brasileiro.

E, se Lula conquistar um quarto mandato, precisará ao seu lado não de um Congresso que simplesmente diga “sim” ao governo, mas de um Parlamento que diga “sim” ao povo brasileiro.

O voto popular do Prêmio Congresso em Foco acaba de nos oferecer uma pista sobre onde encontrar alguns dos melhores nomes para essa tarefa.

Se as melhores parlamentares do Brasil são mulheres progressistas, a conclusão é realmente óbvia: está na hora de construirmos um Congresso mais feminino e mais popular.

* Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”

Foto reproduzida da Internet

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