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Em meio ao avanço de governos conservadores na América do Sul e às tentativas dos Estados Unidos de ampliar sua influência política e militar na região, o Brasil mantém uma posição de resistência baseada na defesa da soberania nacional, no multilateralismo e na autonomia de sua política externa.
A avaliação é de especialistas ouvidas pela Sputnik Brasil, em reportagem publicada nesta quinta-feira (9). Segundo as analistas, a postura brasileira não decorre apenas das escolhas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas de uma tradição institucional construída ao longo de décadas pela diplomacia, pela burocracia estatal e por diferentes setores da sociedade.
A atual configuração política sul-americana tem sido chamada de “Onda Azul”, em contraste com a chamada “maré rosa”, que marcou a chegada de governos progressistas à região no início dos anos 2000. Países como Argentina, Paraguai, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru passaram a ser governados por representantes da direita ou da extrema direita, alguns deles defensores de um alinhamento mais próximo com Washington.
O governo do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, busca aproveitar esse cenário para reforçar a presença norte-americana no continente. Em julho de 2025, ao parabenizar o presidente argentino Javier Milei por uma vitória nas eleições legislativas, Trump afirmou estar “concentrando muito na América do Sul e conseguindo forte controle no continente em muitos sentidos”.
Segurança pública vira instrumento de pressão
A área de segurança tornou-se um dos principais eixos da política dos Estados Unidos para a América do Sul. Washington tem ampliado acordos militares, defendido operações regionais e pressionado governos a adotar suas próprias classificações e estratégias de combate ao crime organizado.
No caso brasileiro, o governo Trump tenta obter apoio de Brasília para que organizações criminosas atuantes no país sejam classificadas como grupos terroristas. O governo Lula, no entanto, resiste à proposta e defende que decisões sobre segurança pública e legislação penal sejam tomadas de acordo com os interesses e as instituições brasileiras.
Segundo Fernanda Carvalho Calado Coutinho, doutoranda em estudos estratégicos da defesa e segurança e pesquisadora de América do Sul pelo Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval, a complexidade do Brasil dificulta interferências externas diretas.
“É justamente essa característica que torna inferências externas igualmente mais complexas. A estratégia que me parece plausível é avançar pelos ‘flancos’ mais vulneráveis. Acho que os EUA encontraram um considerável: organizações criminosas”, afirmou.
A pesquisadora destaca que a soberania nacional deverá ocupar posição central no debate eleitoral brasileiro. “Quem não compreender isso, não levará as eleições de 2026”, declarou.
Pix se transforma em símbolo da autonomia brasileira
Outro ponto de atrito entre Brasil e Estados Unidos envolve o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado e administrado pelo Banco Central. O mecanismo tornou-se alvo de questionamentos norte-americanos por seu impacto sobre empresas privadas de cartões e meios de pagamento.
Para Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo, o Pix ultrapassou a condição de ferramenta bancária e passou a ser percebido como uma conquista nacional.
“A população e o setor produtivo identificam o sistema [Pix] como um patrimônio de inclusão financeira e eficiência nacional”, afirmou.
Segundo a especialista, a reação brasileira às pressões norte-americanas não deve ser interpretada como uma iniciativa circunstancial do governo Lula.
A resistência “é reflexo de uma política externa que vem sendo desenhada há muito tempo com busca de autonomia e multilateralismo”, explicou.
“O Brasil sempre defendeu o multilateralismo, desde o período da democracia, que ainda é incipiente. […] Os indicadores empíricos dessa autonomia se destacam pela consolidação da China como um dos principais parceiros do Brasil e, ao meu ver, o BRICS vai ganhando mais institucionalidade”, acrescentou.
Peso do Brasil limita projetos dos Estados Unidos
Com uma população superior à de qualquer outro país sul-americano, uma economia diversificada e forte presença diplomática, o Brasil ocupa uma posição determinante nos projetos de integração ou de reorganização política da América do Sul.
Segundo Bressan, nenhuma estratégia regional conduzida por uma potência estrangeira pode alcançar plenamente seus objetivos sem algum nível de participação brasileira.
“Qualquer projeto de governança regional ou de isolamento de atores considerados antagônicos se mostra ineficaz sem a anuência ou cooperação ativa do Estado brasileiro”, ressaltou.
A professora afirma que a rejeição a alinhamentos automáticos não está limitada a um partido ou a um governo específico, mas integra uma visão mais ampla sobre o papel do Brasil no mundo.
“A sociedade e a burocracia brasileira, elas tendem a rejeitar alinhamentos automáticos ou submissões de caráter unipolar, por compreenderem que o Estado brasileiro, o interesse nacional, se realiza por meio da inserção soberana em diferentes e múltiplos fóruns globais, e não pela simples subordinação ao status quo de uma única potência”, declarou.
A ampliação das relações comerciais e diplomáticas com a China, o fortalecimento do BRICS e a participação brasileira em diferentes organismos multilaterais são apontados como exemplos dessa estratégia de diversificação das parcerias internacionais.
Eleições colocam soberania no centro do debate
As pressões relacionadas à segurança pública, às tarifas comerciais e ao Pix devem ganhar espaço na campanha eleitoral brasileira. De um lado, o presidente Lula defende o diálogo diplomático e a rejeição à ingerência estrangeira. De outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como um dos possíveis adversários do campo governista, realiza acenos políticos à Casa Branca e defende maior alinhamento com os Estados Unidos.
Apesar da polarização partidária, as especialistas consideram que a defesa da autonomia nacional ultrapassa divisões ideológicas. A resistência à interferência estrangeira estaria presente tanto entre setores da população quanto entre empresários, diplomatas, militares e integrantes da administração pública.
Nesse cenário, a soberania pode se tornar um dos temas centrais da disputa presidencial, especialmente diante das tentativas de Washington de influenciar decisões internas relacionadas à segurança, à economia e à política externa.
Resistência à ALCA marcou posição histórica do Brasil
A atual defesa da autonomia brasileira tem precedentes importantes. Um dos principais foi a resistência à criação da Área de Livre Comércio das Américas, a ALCA, proposta pelos Estados Unidos em 1994.
O projeto pretendia estabelecer uma ampla zona comercial abrangendo praticamente todo o continente, mas foi rejeitado por diferentes governos latino-americanos e acabou paralisado na Cúpula das Américas de 2005, realizada em Mar del Plata, na Argentina.
Naquele período, o Brasil priorizava o fortalecimento do Mercosul e se opunha a um acordo que poderia ampliar a dependência das economias regionais em relação ao mercado norte-americano.
“Enquanto diversos países da região cederam às pressões, assinaram TLCs com os Estados Unidos, que são tratados de livre comércio bilaterais, a diplomacia brasileira liderou essa resistência técnica e política coordenada no âmbito do Mercosul”, afirmou Bressan.
Coutinho também destacou o papel desempenhado pelo então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, um dos principais símbolos políticos da oposição à proposta norte-americana.
A derrota da ALCA consolidou, naquele momento, uma agenda voltada ao fortalecimento da integração sul-americana e demonstrou a capacidade dos países da região de estabelecer limites à influência dos Estados Unidos.
Duas décadas depois, o debate retorna sob novas formas. Pressões sobre o sistema financeiro, acordos militares, políticas de segurança e disputas comerciais substituíram parte dos antigos projetos de livre comércio, mas a questão central permanece: até que ponto os países latino-americanos estão dispostos a abrir mão de sua autonomia para acompanhar os interesses estratégicos de Washington?
No caso brasileiro, a resposta indicada pelas especialistas é clara: a soberania continua sendo considerada um valor inegociável.
Foto: Ricardo Stuckert