por Marco Damiani, no Brasil 247
A histórica tabelinha entre Michelle Bolsonaro e o ministro André Mendonça, do STF, voltou a campo. A comemoração em palavras ininteligíveis – na chamada glossalalia – feita pela ex-primeira-dama quando ele recebeu a aprovação do Senado para o cargo, em dezembro de 2021, após indicação do presidente Jair Bolsonaro, avançou agora em um recado bem mais claro em linguagem eleitoral. Antes “terrivelmente evangélico”, na expressão do ex-presidente, hoje Mendonça é o “ungido de Deus” segundo a candidata a senadora pelo PL no Distrito Federal.
“Você foi chamado para esse tempo”, saudou Michelle em mensagem nas redes sociais. “A nossa maior alegria é saber que você é um grande e verdadeiro homem de Deus”. A saudação ocorreu depois que o próprio Mendonça gravou vídeo em que agradece o apoio que vem recebendo das alas mais fanáticas da comunidade evangélica. É como se ele tivesse levantado a bola do corte religioso de sua atividade no Supremo e Michelle subisse para cabecear em gol a favor da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Com essa jogada, a relação entre fé e eleição, que andava meio arquivada, voltou a ganhar relevância na disputa eleitoral, criando novos ruídos. Sem medo de apelar à religiosidade, Michelle e Mendonça estão sintonizados para sustentar o discurso do fanatismo até o final da disputa.
A atuação de Michelle Bolsonaro no cenário político sempre foi pautada pela linguagem das igrejas evangélicas, sobretudo da tradição neopentecostal. O vídeo que circulou amplamente durante a aprovação do nome de André Mendonça pelo Senado retrata a consagração do processo de escolha pública como uma vitória do plano espiritual. A celebração efusiva, com orações, choro e expressões de júbilo, refletiu uma narrativa na qual a ocupação de espaços de autoridade não se dá apenas pelo preenchimento de requisitos técnicos e constitucionais, mas por um propósito pré-determinado de ordem religiosa.
Com seu vídeo dirigido ao público evangélico, Mendonça buscou reforçar a crença de que sua atuação no Supremo é guiada pela mão divina, especialmente, é claro, no caso em que denunciou o colega Alexandre de Moraes por ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro.
O fanatismo religioso voltou à baila como forte elemento de forte engajamento identitário para a extrema-direita. A figura do magistrado “ungido de Deus, manifestada por Michelle, busca transmitir a imagem de um gestor de conduta ilibada, cuja fidelidade a Deus garantiria uma atuação justa nas decisões de estado e no cumprimento das leis.
Na prática, as mensagens públicas de Mendonça e Michelle ofendem o caráter laico do estado brasileiro e ilustram como a fé evangélica continua sendo uma arma poderosa nas mãos dos bolsonaristas. Os riscos que a candidatura de Flávio Bolsonaro representa para o País só aumentam.
* Marco Damiani é editor especial do Brasil 247 no Rio de Janeiro
Foto: Redes Sociais