por Leonardo Attuch, no Brasil 247
Em apenas dez dias, dois acontecimentos de enorme significado político podem ter marcado uma inflexão histórica. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Flávio Bolsonaro e interrompeu a possibilidade de retorno da extrema direita ao poder. Nos Estados Unidos, Donald Trump sofreu uma derrota expressiva nas eleições legislativas, perdendo o controle do Congresso para os democratas.
Os dois resultados sinalizam que a onda política representada pelo movimento MAGA (Make America Great Again), pelo trumpismo e pelo bolsonarismo pode ter encontrado seus limites. A retórica do ódio, a exploração das divisões sociais e o nacionalismo agressivo já não parecem suficientes para assegurar vitórias eleitorais.
A derrota de Trump é especialmente significativa porque atinge um presidente que prometeu prosperidade e paz, mas entregou inflação, combustíveis mais caros e uma guerra contra o Irã. Os eleitores americanos começaram a cobrar a distância entre as promessas e a realidade.
A vitória de Lula, por sua vez, possui uma dimensão internacional. Representa o fortalecimento do Sul Global, da multipolaridade e da soberania dos povos diante das pretensões hegemônicas de Washington. É também uma vitória dos valores humanistas contra o capitalismo predatório, a concentração extrema da riqueza e a lógica das guerras infinitas.
Lula demonstrou que é possível enfrentar a extrema direita com um projeto baseado na inclusão social, na democracia e na cooperação internacional. Sua reeleição fortalece os BRICS e amplia as possibilidades de construção de uma ordem mundial mais equilibrada.
O enfraquecimento de Trump tende a produzir consequências em toda a América Latina. E um dos líderes mais expostos a essa mudança é o presidente argentino Javier Milei, que disputará a reeleição em 2027.
Milei construiu sua identidade política em estreita associação com Trump, compartilhando sua retórica agressiva e sua defesa de políticas econômicas favoráveis ao grande capital. Se o movimento MAGA perder força internacionalmente, o presidente argentino poderá enfrentar dificuldades adicionais para sustentar seu projeto.
Naturalmente, a eleição argentina dependerá sobretudo das condições econômicas e sociais do próprio país. Mas o ambiente internacional também importa. E o cenário que favoreceu a ascensão de Milei pode estar começando a se desfazer.
A vitória de Lula e a derrota de Trump não significam o fim da extrema direita. Mas indicam que sua expansão não é inevitável e que existe espaço para uma alternativa fundada na soberania, na justiça social e na paz.
Em 2026, o Brasil e os Estados Unidos deram sinais de mudança. Em 2027, a Argentina poderá completar esse movimento. E Javier Milei poderá ser o próximo a descobrir que a história mudou de direção.
* Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”
Foto reproduzida da Internet