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O YouTube e as redes sociais tornaram-se a principal porta de entrada para o consumo de notícias em todo o mundo, superando pela primeira vez os sites e aplicativos das organizações jornalísticas. A constatação é do Reuters Institute Digital News Report 2026, divulgado em junho pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, considerado um dos mais abrangentes estudos internacionais sobre hábitos de consumo de informação.
Baseado em uma pesquisa com quase 100 mil pessoas em 48 países, o relatório aponta que o ecossistema global de notícias atravessa uma transformação estrutural. O crescimento das plataformas digitais, a explosão do consumo de vídeo, a ascensão dos criadores de conteúdo e o uso crescente da inteligência artificial estão alterando profundamente a forma como as pessoas se informam. Ao mesmo tempo, a confiança na imprensa atingiu um dos níveis mais baixos já registrados.
Os autores afirmam que o jornalismo enfrenta um cenário de elevada volatilidade política, mudanças tecnológicas aceleradas e crescente fragmentação das audiências, exigindo novos modelos de distribuição, monetização e relacionamento com o público.
Redes sociais ultrapassam veículos tradicionais
O principal marco identificado pelo estudo é a consolidação das plataformas digitais como principal canal de acesso à informação.
Pela primeira vez, 54% dos entrevistados afirmam acessar notícias por meio de redes sociais e plataformas de vídeo, percentual superior aos 51% que utilizam diretamente os sites e aplicativos dos veículos jornalísticos.
Segundo o Reuters Institute, esse movimento representa uma mudança histórica no comportamento das audiências.
Cada vez mais leitores encontram reportagens enquanto navegam por redes sociais, aplicativos de mensagens ou plataformas de entretenimento, em um processo mediado pelos algoritmos das grandes empresas de tecnologia.
O relatório descreve esse fenômeno como uma “deriva” do consumo informativo: o acesso às notícias deixa de ser direto e passa a ocorrer de forma incidental.
Os efeitos sobre os veículos tradicionais já são evidentes. Desde 2020, o acesso direto aos sites jornalísticos caiu 12 pontos percentuais, enquanto aplicativos como o WhatsApp mantêm crescimento contínuo como canais de distribuição de conteúdo.
O vídeo consolida sua liderança
Outra tendência destacada é a consolidação do vídeo como principal formato jornalístico.
Segundo o levantamento, 77% da população dos 48 mercados pesquisados assiste semanalmente a vídeos de notícias online, o maior índice já registrado.
Em 45 dos 48 países, o consumo de notícias em vídeo pela internet já supera a audiência da televisão aberta e por assinatura.
O crescimento é impulsionado principalmente pelo YouTube, utilizado por 34% da população para acompanhar notícias, seguido pelo Instagram (26%) e pelo TikTok (20%).
Enquanto essas plataformas ampliam sua influência, o consumo de vídeos publicados diretamente nos sites dos jornais caiu cinco pontos percentuais apenas no último ano.
O estudo também registra o crescimento das smart TVs, utilizadas por 27% dos entrevistados para assistir notícias sob demanda por meio de aplicativos.
Criadores de conteúdo ganham protagonismo
Os influenciadores digitais também assumem um papel cada vez mais relevante no ecossistema da informação.
Hoje, 27% do público mundial acompanha notícias produzidas por criadores especializados, que frequentemente utilizam linguagem mais simples, formatos mais dinâmicos e uma comunicação mais próxima do cotidiano dos usuários.
Os entrevistados afirmam considerar esses produtores mais acessíveis e envolventes do que os veículos tradicionais, embora reconheçam que eles costumam ser menos imparciais e menos confiáveis.
Segundo o Reuters Institute, os criadores ainda funcionam, na maior parte dos casos, como complemento ao jornalismo profissional, mas sua influência cresce rapidamente em diversos mercados.
Inteligência artificial muda a forma de consumir notícias
O relatório mostra que a inteligência artificial começa a ocupar uma posição relevante na relação entre público e informação.
Atualmente, 10% da população mundial já utiliza regularmente chatbots de IA, como ChatGPT e Google Gemini, para acompanhar notícias.
Entre pessoas com menos de 35 anos, esse percentual sobe para 16%.
O recurso considerado mais útil pelos usuários é a possibilidade de fazer perguntas complementares para compreender melhor os acontecimentos, funcionalidade apontada por 42% dos entrevistados.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores alertam para um novo desafio econômico.
A expansão das respostas geradas por inteligência artificial diretamente nos mecanismos de busca pode reduzir significativamente o tráfego direcionado aos sites jornalísticos, fenômeno que vem sendo chamado de “Google Zero”.
Confiança continua em queda
O Reuters Institute também registra um agravamento da crise de credibilidade da imprensa.
A confiança média nas notícias caiu para 37%, o menor índice desde o início da série histórica.
Em 29 dos 48 países, houve nova redução da confiança do público.
O interesse pelo noticiário também diminuiu.
Desde 2021, a proporção de pessoas que afirmam estar muito interessadas em notícias caiu 13 pontos percentuais, reflexo da fadiga informativa, da polarização política e da percepção de excesso de notícias negativas.
Assinaturas digitais encontram limite
O estudo mostra ainda que o modelo de assinaturas digitais parece ter atingido um ponto de estagnação.
Nos 20 países monitorados especificamente para esse indicador, apenas 17% dos consumidores pagam por notícias online, percentual praticamente inalterado nos últimos anos.
Para os pesquisadores, esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita das empresas jornalísticas.
Brasil reúne vários dos desafios apontados pelo relatório
O Brasil aparece como um dos mercados mais impactados pelas transformações descritas no estudo.
Segundo o Reuters Institute, 53% dos brasileiros utilizam redes sociais para acompanhar notícias, enquanto a televisão caiu para 44%, consolidando uma mudança histórica no consumo de informação.
O Instagram tornou-se a principal plataforma jornalística do país, alcançando 49% da população. Em seguida aparecem o WhatsApp (46%) e o YouTube (42%).
O relatório também destaca o crescimento da publicidade digital, que já responde por 40,6% dos investimentos em mídia, praticamente empatando com a televisão, que concentra 41,3%.
Polarização fortalece influenciadores políticos
O Brasil é citado como um dos principais exemplos mundiais de ecossistema digital altamente polarizado.
Segundo o estudo, 33% dos brasileiros acompanham notícias produzidas por criadores especializados em política.
Brasil está entre os líderes no uso de IA
O país também figura entre os mercados que mais rapidamente incorporam inteligência artificial ao consumo de notícias.
Segundo o levantamento, 13% dos brasileiros utilizam semanalmente chatbots de IA para acompanhar informações, uma das maiores taxas entre todos os países pesquisados.
A principal utilização consiste em fazer perguntas adicionais para compreender melhor acontecimentos complexos.
O estudo também observa que o mercado brasileiro já começa a desenvolver acordos comerciais envolvendo licenciamento de conteúdo jornalístico para empresas de inteligência artificial.
Crise de confiança atinge nível histórico
No Brasil, a confiança nas notícias caiu para 36%, o menor patamar registrado em doze anos de pesquisa.
Além disso, 47% dos brasileiros afirmam evitar notícias com frequência ou ocasionalmente, evidenciando um processo crescente de desgaste emocional diante do noticiário.
O percentual de pessoas que pagam por notícias digitais também recuou para 15%, reforçando os desafios econômicos enfrentados pelo setor.
Para o Reuters Institute, o jornalismo entra em uma nova fase, na qual plataformas digitais, inteligência artificial e criadores de conteúdo deixam de ser apenas canais complementares e passam a ocupar posição central na disputa pela atenção e pela confiança das audiências.