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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Isto É
Os tucanos voam mais alto
Personagem quase lendário da história de Minas Gerais, o ex-governador Benedito Valadares ensinou que a política se move como nuvem. E ganha novas formas a cada instante, para perplexidade do próprio meio político. Na quinta-feira 17, o jovem governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), encarregou-se de mostrar que a lição de Valadares está mais viva do que nunca: num movimento surpreendente, anunciou sua desistência de concorrer à Presidência da República em 2010, abrindo caminho para a candidatura do governador de São Paulo, José Serra. Aguardada apenas para meados de janeiro, a súbita definição de Aécio sobre seu futuro eleitoral veio exatamente quando seu nome dá sinais de rápido crescimento nas consultas de opinião. Segundo pesquisa realizada para ISTOÉ pelo instituto Vox Populi, entre os dias 11 e 14 de dezembro – a primeira feita no País depois da mais recente rodada de programas eleitorais de televisão e com chapas fechadas –, Aécio Neves, como candidato do PSDB, venceria a corrida presidencial, com o deputado do PSB e ex-ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, de vice. De acordo com a pesquisa, se as eleições fossem hoje, a dupla Aécio/Ciro bateria a chapa da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB), por 35% a 21% dos votos. Esta é a primeira vez que Aécio aparece em uma pesquisa à frente de Dilma. Em seguida, ficaram a senadora Marina Silva (PV-AC) e o sócio da Natura, empresário Guilherme Leal, com 13%.
Em todos os cenários da pesquisa ISTOÉ/Vox Populi, os candidatos tucanos aparecem como vencedores. A chapa Serra com a vice Kátia Abreu, senadora pelo DEM de Tocantins, é a que alcança o maior índice: 44%, contra 21% da dobradinha Dilma/Temer e 10% da dupla Marina Silva/Guilherme Leal. Na pesquisa estimulada com apenas cabeças de chapa, a situação se agrava para a ministra Dilma, quando Ciro não figura entre os candidatos. Neste caso, Serra praticamente liquida a eleição no primeiro turno. Aparece com 46% das intenções de voto, contra 21% de Dilma e 11% de Marina. Mas, com Ciro na disputa, a vantagem de Serra diminui. Fica com 39%, ao passo que Dilma aparece em segundo com 18% seguida de Ciro com 17% e Marina com 8%. Em outra simulação, quando Serra é substituído por Aécio como o candidato do PSDB, o governador de Minas também mostra força no jogo sucessório. No cenário com a presença de Ciro e Dilma, Aécio aparece em primeiro lugar, com 24%, em empate técnico com o pré-candidato do PSB, com 23%. Em terceiro, vem a ministra com 17% e depois Marina com 11%. Na amostragem sem o nome de Ciro, o governador de Minas permanece na frente, mas sobe para 28% das intenções de voto. Em segundo, aparece Dilma com 24% e em terceiro, Marina com 15%. Outra questão pesquisada, a de quanto cada candidato é conhecido pelo eleitor, revela: Aécio é o que possui os menores índices de identificação pelos entrevistados, ou seja, o que teria maior potencial de crescimento a partir de uma intensa campanha eleitoral (confira os resultados nos quadros ao longo da reportagem).
A despeito de o vento estar a favor, dentro da melhor tradição mineira, o jovem governador entendeu que o tempo da política tem dinâmica própria. E o importante agora é evitar que a divisão no ninho tucano se aprofunde. “Deixo a partir deste momento a condição de pré-candidato do PSDB à Presidência da República, mas não abandono minhas convicções e minha disposição para colaborar para a construção das bandeiras da social-democracia brasileira”, disse ele, em carta ao presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PSDB-PE). Nos bastidores, porém, políticos próximos a Aécio garantem que a desistência foi estratégica. Seu real objetivo seria expor José Serra a chuvas e trovoadas, forçando-o a assumir a candidatura. Tudo que ele não quer, pois considera temerário bater de frente com a popularidade recorde do presidente Lula. Serra prefere entrar em cena só a partir de março, para, então, competir com sua adversária de fato, a ministra Dilma Rousseff. Acredita-se que, ao entrar na disputa, Serra pode se desgastar rapidamente, o que, mais à frente, forçaria o PSDB a retomar o projeto de candidatura de Aécio para presidente. Em torno de abril de 2010, o governador mineiro retornaria ao jogo sucessório como a salvação da lavoura tucana. Foi exatamente esta a leitura que o presidente do PT, Ricardo Berzoini, fez ao comentar a desistência: “Aécio ainda não fechou a porta. Caso Serra desista da disputa no ano que vem, pode ser que Aécio, sob muita insistência do PSDB, volte como candidato.”
Época
O império do vice de Arruda
Três adolescentes que andavam juntos em Brasília nos anos 60 ficaram conhecidos de todo o país pouco mais de duas décadas depois. Fernando Collor de Mello foi o primeiro presidente eleito depois da ditadura militar e sofreu impeachment pelo Congresso Nacional acusado de corrupção. Luiz Estevão entrou para a história como o primeiro senador cassado pelos colegas, também acusado de corrupção. Paulo Octávio Pereira, o terceiro da turma, foi parceiro dos outros dois na Operação Uruguai, a farsa montada para tentar salvar Collor, mas que desmoralizou a defesa do então presidente. Atual vice-governador do Distrito Federal, Paulo Octávio tornou-se, até agora, um sobrevivente nesse roteiro. No mundo empresarial, ele criou um verdadeiro império em construção civil, hotelaria e comunicações, com movimento financeiro de bilhões de reais. Tornou-se um dos homens mais ricos de Brasília. Sua carreira política também é um sucesso: foi deputado federal e senador, antes de chegar ao segundo cargo mais importante do governo local. Agora, porém, seu império poderá ruir. Paulo Octávio é alvo de duas investigações da Polícia Federal, que juntaram provas surpreendentes nas apurações sobre corrupção na capital.
Uma delas é a Operação Caixa de Pandora, que expôs ao país imagens do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, secretários, deputados distritais e empresários pagando ou recebendo dinheiro em espécie. Em alguns vídeos, o personagem é Marcelo Carvalho, principal executivo dos negócios de Paulo Octávio. Ele fala em nome do chefe, negocia valores e faz confidências sobre a prestação de contas. A defesa de Paulo Octávio diz que ele não pode ser acusado, pois não surgiu nenhuma imagem em que ele apareça recebendo dinheiro. Essa versão não resiste a outra apuração da Polícia Federal, a Operação Tucunaré, mantida sob sigilo. De acordo com os investigadores, há vídeos em que Paulo Octávio distribui dinheiro a deputados aliados de Brasília.
A Operação Tucunaré começou na Polícia Civil do DF para investigar lavagem de dinheiro e evasão de divisas por doleiros. Ela foi assumida pela PF em junho deste ano, quando a polícia grampeou uma conversa entre o doleiro Fayed Trabously – personagem citado em escândalos do PMDB e do antigo PFL – e o policial aposentado Marcelo Toledo Watson. Tucunaré é o apelido de Toledo, policial que saiu da ativa, aos 28 anos, depois de ser baleado durante o resgate da filha do senador Luiz Estevão, vítima de um sequestro em 1997.
Veja
A hora de Serra
Faltam dez meses e meio para que os eleitores brasileiros escolham o próximo presidente da República. A base aliada do governo Lula já sabe há algum tempo que irá para a disputa tendo à frente a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A oposição, no entanto, resistia a definir o seu representante no pleito. Essa dúvida acabou na quinta-feira passada. O candidato que enfrentará Dilma nas urnas será o tucano José Serra, atual governador de São Paulo. O caminho dele ficou livre por uma decisão tomada em Belo Horizonte pelo governador mineiro, Aécio Neves. Muitíssimo bem avaliado em seu estado e festejado por políticos de todo o país, Aécio era o único que ameaçava disputar com Serra a cabeça da chapa presidencial do PSDB, mas decidiu retirar sua pré-candidatura. A partir de agora, todo o campo oposicionista, que além do PSDB abarca o DEM e o PPS, voltará integralmente sua atenção para o Palácio dos Bandeirantes, sede do Executivo paulista. Serra personifica a esperança de alternância de poder no Brasil. É a melhor aposta para romper com a hegemonia alcançada pelo PT na política brasileira durante os últimos sete anos.
Serra não anunciará oficialmente sua candidatura agora. Ele avalia que, se fizesse isso, teria a perder. Afinal, já está muito bem posicionado para 2010, pois aparece em primeiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto. Na visão de Serra, se assumir a candidatura neste momento, ele só estará se expondo à intensificação dos ataques adversários. O governador pretende provar que não estava brincando quando disse, recentemente, que tem “nervos de aço na política”. Vai deixar o anúncio oficial para a última hora, em março, quando expira o prazo legal para que os candidatos renunciem aos cargos públicos e se dediquem exclusivamente à campanha. Enquanto isso, deixará nas mãos do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, a missão de negociar por ele as formações de palanques estaduais com aliados fora de São Paulo.
Aécio, por seu lado, cresceu em admiração dentro do PSDB. A decisão de abrir espaço para Serra foi muito bem recebida pelos tucanos, que atribuem a divisões internas – entre outras questões – a derrota do partido para o PT em 2006. A movida de peças de Aécio pode significar que o PSDB, enfim, marchará unido. Como Serra se tornou o candidato natural, todos os grupos do partido – além do DEM e do PPS, que também integram a oposição ao governo Lula – deverão trabalhar com afinco por sua candidatura. Dessa vez, afirmam tucanos graúdos, não haverá fissuras.
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