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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Editorial, Geral

Está no Blog do Luís Nassif

O Natal de Vitória


Por Eduardo Magalhães

O conto que não escrevi

Pensei em escrever um conto de Natal. Começaria com uma dessas almas em transe que vagam por esta cidade. Seria uma mulher pobre, imigrante nordestina, e a história seria ambientada em São Paulo.

Numa paródia ao nascimento de Jesus Cristo, tornaria grávida minha “Maria” imaginária valendo-me da onipotência que permite ao escritor criar universos inteiros em conformidade com seu menor capricho, e a faria vagar com seu “José” de hospital em hospital, noite a dentro, sem encontrar guarida como acontece de fato com tantas outras “Marias” brasileiras todos os dias pelos quatro cantos do país.

Minha fictícia “Mãe do Filho de Deus” pariria seu Rebento Divino no vão sujo de algum viaduto estrondosamente barulhento e enfumaçado em meio a poças de água formadas das goteiras de uma chuva fina que tornariam ainda mais desolador o ambiente nesta cidade desoladora em que se desenrolaria a história.

Talvez os reis magos fossem alguns playboyzinhos de classe média alta convertidos pela magia do Natal em seres piedosos que, ao verem uma mulher no vão sujo de um viaduto com um ser tão pequeno e frágil nos braços, compadecer-se-iam e decidiriam levar aos desabrigados o incenso e a mirra, os quais talvez eu pudesse representar, por exemplo, usando uma cesta básica.

Mas não daria certo. Seria um clichê. Poderia construí-lo bem, dar-lhe cores e cheiros, fazer com que exalasse sentimentos, angústia, ódio, inveja, desprezo e amor ou generosidade, mas, ainda assim, não passaria de um clichê previsível e inverossímil.

Foi então que, ao ir à cozinha atacar a geladeira enquanto a inspiração não me visitava, veio-me uma epifania do vislumbre da cena de minha família reunida.

Ali, diante de mim, estava Victoria, a filha de onze anos que passou quase três meses num leito de UTI sofrendo de uma forma que me fez temer perdê-la. Hoje, vendo-a como acabo de ver segundos antes de começar a escrever, mal posso crer que cheguei a cogitar o que faria da minha vida se ela se fosse.

E a cena ainda incluía Gabriela, que pisou no Brasil, vinda do outro lado do planeta, no exato dia em que Victoria deixou o hospital, uma “coincidência” espantosa. Chegamos a brincar com essa possibilidade, a família, de que a filha do meio chegaria da Austrália a tempo de ir buscar a irmãzinha no dia da alta.

E ali estavam todos eles na sala, brincando, rindo, a Victoria gordinha como jamais a vira nesses seus onze anos de vida, e minha mulher, minha Cristina, com os olhos reluzindo, e minha primogênita amada, Carla, abraçada com a filha, Letícia, minha neta, olhando-me, ambas, com aqueles olhares marotos que me fazem persegui-las para lhes fazer cócegas. E finalmente o meu garoto, meu André, para variar brigando com a Gabriela por alguma coisa… Menino bom, gente.

Sim, eu já tinha o meu milagre de Natal. Comecei, então, a me alegrar, mas, de repente, veio-me à mente o conto de Natal que não escrevi, e que, apesar disso, era tão desoladoramente real devido às “Marias” e “Josés” que se arrastam diariamente por toda parte deste país em busca de algum milagre.

Naquele momento, pois, o meu “milagre” familiar começou a parecer apenas parte do “pacote” do branco de classe-média do Sul Maravilha. Mas talvez o milagre do conto que não escrevi também posa se materializar hoje. Talvez alguém que tenha meios sinta piedade de alguém que precise. Quem sabe não acontece com você, leitor, ou comigo…

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