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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Artigo

O mundo ontem torceu pela Bélgica e o `crime´ da dupla Trump-Infantino não compensou

por Leonardo Attuch, no Brasil 247

Há momentos em que uma partida de futebol deixa de ser apenas um jogo. Ontem foi um desses dias. A Bélgica entrou em campo carregando muito mais do que sua tradição esportiva. Carregava a expectativa de milhões de pessoas que desejavam que a Copa do Mundo de 2026 não fosse definitivamente marcada pela maior vergonha de sua história recente.

Se os Estados Unidos tivessem avançado depois da polêmica reintegração de Folarin Balogun, expulso na partida anterior e liberado por uma decisão que indignou torcedores, atletas, dirigentes e especialistas, o torneio correria o risco de perder sua credibilidade. O futebol vive da imprevisibilidade, da igualdade de condições e da confiança de que as regras valem para todos. Quando essa percepção desaparece, desaparece também parte da magia do esporte.

A eliminação estadunidense, por isso, representou muito mais do que um resultado esportivo. Foi uma vitória do próprio futebol.

Desde o início desta Copa, os Estados Unidos já haviam colocado o torneio sob uma sombra preocupante. O tratamento dispensado à delegação do Irã, submetida a restrições e constrangimentos incompatíveis com o espírito universal de uma Copa do Mundo, já havia produzido uma mancha difícil de apagar. Um Mundial existe justamente para aproximar povos, não para transformar rivalidades geopolíticas em instrumentos de intimidação.

A Fifa, sob Gianni Infantino, aceitou conviver com essa realidade. Depois, ao permitir a presença de Balogun em circunstâncias extremamente controversas, revertendo um cartão vermelho a pedido de Trump, agravou ainda mais uma crise de credibilidade que ela própria criou. Em vez de proteger a autoridade das regras, passou a alimentar a percepção de que interesses políticos e econômicos podem falar mais alto do que o regulamento. A lei da selva no futebol, assim como vem acontecendo nas relações internacionais após a volta de Trump ao poder.

O mais curioso é que essa intervenção pode ter produzido exatamente o efeito contrário ao desejado.

A seleção dos Estados Unidos vinha realizando uma boa campanha. Tinha mostrado organização, intensidade e um futebol competitivo. Talvez pudesse enfrentar a Bélgica em igualdade de condições e construir sua classificação dentro das quatro linhas. Mas a vitória obtida previamente no tapetão acabou transformando a equipe em alvo da indignação mundial. A pressão tornou-se gigantesca. A cada toque na bola de Balogun e de seus companheiros, a lembrança da controvérsia reaparecia. Em vez de fortalecer o time, a manobra parece ter criado um peso psicológico adicional que nenhum treinador consegue eliminar.

O resultado foi devastador. Um delicioso chocolate belga, de 4 a 1, saboreado pelo mundo inteiro.

Há também um simbolismo interessante nesta fase da competição. Os três países anfitriões ficaram pelo caminho nas oitavas de final. O Canadá foi derrotado por Marrocos. O México sucumbiu diante da Inglaterra. E os Estados Unidos sofreram uma goleada da Bélgica. A Copa mostrou que jogar em casa não basta quando o nível técnico da competição é extraordinariamente elevado.

E este talvez seja o aspecto mais positivo deste Mundial.

Até aqui, a Copa de 2026 vem premiando as seleções que realmente apresentaram o melhor futebol. França, Argentina, Espanha, Inglaterra, Colômbia, Noruega e Marrocos confirmaram em campo suas credenciais. A Bélgica juntou-se a esse grupo ao eliminar os donos da casa de maneira contundente.

É exatamente isso que os torcedores esperam de uma Copa do Mundo: que vençam os melhores, e não os mais influentes nos corredores do poder.

O futebol sobreviveu a guerras, ditaduras, boicotes e interesses econômicos gigantescos porque sempre preservou uma verdade fundamental: quando a bola rola, ela pertence aos jogadores e não aos políticos. Sempre que essa lógica é invertida, perde o esporte, perdem os torcedores e perde a própria Fifa.

Ontem, felizmente, a bola restabeleceu uma parte dessa ordem.

O mundo inteiro parecia torcer pela Bélgica. E não porque tivesse algo contra a seleção americana ou seus jogadores, mas porque uma Copa do Mundo simplesmente não poderia ser definida por decisões tomadas fora do campo.

A Bélgica venceu. O futebol agradeceu. E o crime da dupla Trump-Infantino não compensou.

* Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe

Foto: Reprodução/Belgian Red Devils

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