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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Thaís Cremasco, na Revista Fórum
Há frases que escapam como um lapso. E há frases que revelam um projeto de sociedade.
Quando Flávio Bolsonaro afirmou que teve duas filhas “exatamente para isso”, para que cuidem dele quando envelhecer, não fez apenas uma piada infeliz. Expôs, em poucas palavras, uma visão de mundo na qual meninas já nascem com um destino previamente traçado: servir, cuidar, abdicar.
O mais preocupante é que essa fala não surge isoladamente. Ela dialoga com uma tradição profundamente patriarcal que transforma o cuidado — atividade essencial para a sobrevivência da sociedade — em obrigação feminina. Não como uma escolha, mas como uma expectativa.
Enquanto meninos são incentivados a liderar, conquistar espaços e construir patrimônio, meninas continuam sendo educadas para sustentar emocionalmente famílias inteiras. Crescem ouvindo que são mais sensíveis, mais dedicadas, mais aptas ao cuidado. O resultado é conhecido: mulheres acumulam jornadas invisíveis, interrompem carreiras, assumem o trabalho doméstico não remunerado e envelhecem com menos renda e menos autonomia.
Mas existe uma violência ainda mais profunda nessa lógica.
Quando um pai afirma publicamente que teve filhas para cuidar dele na velhice, transmite uma mensagem poderosa sobre o lugar que espera delas. Não pergunta quais são seus sonhos. Não imagina quais caminhos desejam construir. Antes mesmo da vida adulta, o futuro já está decidido: elas existirão para atender necessidades alheias.
É assim que começa a naturalização das desigualdades.
A violência contra meninas e mulheres raramente começa com um tapa. Ela começa quando lhes dizem qual deve ser seu papel. Quando seus desejos valem menos do que as expectativas dos homens ao redor. Quando sua existência é tratada como instrumento para satisfazer necessidades familiares.
No Brasil, a violência intrafamiliar é uma das formas mais perversas de violação dos direitos de meninas. É dentro de casa que muitas aprendem, desde cedo, que devem obedecer, silenciar, cuidar e suportar. E é justamente por isso que discursos como esse não podem ser tratados como mera brincadeira.
O simbolismo político torna tudo ainda mais grave.
O mesmo candidato que projeta para suas próprias filhas um futuro de trabalho de cuidado escolheu como companheiro de chapa um político que responde a graves acusações relacionadas à violência sexual contra vulnerável, fatos que seguem sob apuração pelas autoridades competentes. A presunção de inocência deve ser respeitada, mas a escolha política também comunica prioridades e valores.
A discussão torna-se ainda mais sensível quando se observa que figuras públicas submetidas a investigações ou denúncias por crimes de violência sexual contra crianças ou adolescentes permanecem ocupando posições de destaque na vida política. A Constituição assegura a presunção de inocência, princípio indispensável ao Estado Democrático de Direito, e qualquer pessoa investigada ou denunciada tem o direito de se defender e de ser julgada por um processo justo. Esse princípio, contudo, não impede um debate legítimo sobre critérios éticos para a composição de candidaturas e para a escolha de representantes.
Os crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes possuem características próprias. Em regra, ocorrem sem testemunhas, em ambientes privados e envolvem vítimas em condição de extrema vulnerabilidade, circunstâncias que tornam sua apuração especialmente complexa. Justamente por isso, o ordenamento jurídico estabelece protocolos específicos para a escuta protegida e para a produção de provas, buscando equilibrar a proteção das vítimas e as garantias do acusado.
No plano político, entretanto, a discussão não se limita ao aspecto jurídico. Candidaturas carregam uma dimensão simbólica. A escolha de quem ocupa espaços de liderança comunica valores, prioridades e compromissos institucionais. Em um país em que as mulheres representam a maioria do eleitorado e no qual a violência de gênero permanece como um problema estrutural, é legítimo questionar quais parâmetros éticos devem orientar a seleção daqueles que pretendem exercer os mais altos cargos públicos.
Esse debate não significa antecipar um juízo de culpa nem relativizar a presunção de inocência. Significa reconhecer que a confiança pública também é construída por critérios de prudência, responsabilidade e compromisso com a proteção de grupos historicamente vulnerabilizados. Em sociedades democráticas, espera-se que lideranças políticas compreendam que determinadas escolhas produzem efeitos que vão além da esfera individual, alcançando a mensagem transmitida às vítimas, às famílias e à sociedade.
Não se trata apenas de pessoas. Trata-se do imaginário que esse projeto político oferece às mulheres brasileiras.
Que futuro é esse em que meninas já nascem destinadas ao cuidado? Que futuro é esse em que suas dores são ignoradas mesmo quando elas gritam por socorro e ajuda? Que futuro é esse em que discursos que reforçam papéis de gênero são normalizados? Que futuro é esse em que mulheres são chamadas para apoiar um projeto que continua tratando seus corpos, seu trabalho e sua autonomia como secundários?
O debate sobre os direitos das mulheres nunca foi apenas sobre igualdade formal. Sempre foi sobre liberdade. Liberdade para escolher se querem ou não cuidar, para construir uma carreira, para ocupar espaços de poder, para viver sem violência dentro de casa, nas ruas ou nas instituições.
Toda vez que um líder político reduz o destino das meninas ao cuidado dos homens, reduz nosso grito ao silenciamento e nossos corpos ao serviço deles, ele não está apenas falando sobre sua família. Está oferecendo ao país um retrato da sociedade que considera desejável.
E esse é um futuro que as mulheres brasileiras conhecem bem demais — justamente porque passaram décadas lutando para deixá-lo para trás.
*Thaís Cremasco (frequentemente buscada como Thaísa Cremasso) é uma advogada brasileira de Campinas (SP), especialista em direito do trabalho, direitos humanos e defesa dos direitos das mulheres. Ela também atua em investigações e debates públicos recentes sobre denúncias financeiras envolvendo seu antigo escritório
Foto reproduzida da Internet
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