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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Leonardo Attuch, no Brasil 247
A eleição presidencial brasileira de 2026 será decidida por muitas questões domésticas, mas uma variável externa ganha importância cada vez maior: o fator China. O que está em jogo não é simplesmente se o Brasil deve escolher Pequim ou Washington. A verdadeira questão é saber se o País continuará tendo liberdade para escolher seus parceiros, defender seus interesses econômicos e tomar decisões soberanas ou se aceitará que suas políticas comercial, industrial, tecnológica e externa sejam condicionadas pelos Estados Unidos.
Essa discussão deixou de ser abstrata desde que o presidente Donald Trump passou a utilizar tarifas e outras formas de pressão econômica como instrumentos explícitos de poder. O Brasil foi atingido pelas novas barreiras comerciais norte-americanas e decidiu acionar a Lei da Reciprocidade Econômica, sem abandonar a negociação. O governo iniciou consultas diplomáticas e abriu o caminho jurídico para eventuais contramedidas proporcionais.
É nesse contexto que a China se transforma inevitavelmente em tema da eleição brasileira. Não porque o Brasil tenha decidido trocar uma dependência pela outra, mas porque o governo Lula insiste em algo elementar: o Brasil deve negociar com Estados Unidos, China, Europa, Índia, países do BRICS, América Latina e qualquer outro parceiro que contribua para seu desenvolvimento.
Em outras palavras: o Brasil não precisa pedir licença para crescer.
Emprego e investimento mostram que existe outro caminho
Os resultados econômicos ajudam a explicar por que essa disputa ganhou tamanha dimensão política.
Entre 2023 e 2026, os dados da RAIS apontaram saldo positivo de 10,1 milhões de vínculos formais de trabalho. O número inclui diferentes modalidades de emprego formal e não deve ser confundido com o saldo do Novo Caged, que utiliza metodologia distinta, mas revela uma expansão muito significativa do universo de trabalhadores formalizados durante o terceiro governo Lula.
Ao mesmo tempo, o Brasil voltou a ocupar posição de destaque como destino dos investimentos chineses. Em 2025, tornou-se o principal destino mundial dos aportes chineses, recebendo 10,9% do total global, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China.
Essa combinação é fundamental.
O Brasil precisa de emprego, investimento produtivo, industrialização, infraestrutura, energia e tecnologia. A China tem capital, empresas, capacidade industrial e interesse em ampliar sua presença no País. Em um mundo normal, isso não deveria representar ameaça a ninguém.
Se uma empresa chinesa deseja construir uma fábrica de automóveis no Brasil, produzir equipamentos, financiar infraestrutura, investir em energia, pesquisar biotecnologia ou participar da construção da infraestrutura brasileira de inteligência artificial, a pergunta brasileira deveria ser simples: esse investimento é bom para o Brasil?
Empresas chinesas continuam, aliás, ampliando sua presença e o próprio governo brasileiro trabalha com uma estratégia de inteligência artificial que prevê infraestrutura tecnológica tanto chinesa quanto norte-americana, numa tentativa de preservar autonomia e diversificação.
Esse é o princípio de uma política externa verdadeiramente soberana: comprar de quem oferece as melhores condições, vender para quem deseja nossos produtos e receber investimentos que contribuam para o desenvolvimento nacional.
Trump subverteu as regras
O problema é que Donald Trump subverteu as regras que durante décadas foram apresentadas pelos próprios Estados Unidos como fundamentos da economia mundial.
Livre comércio, concorrência, abertura dos mercados e integração das cadeias produtivas sempre foram defendidos por Washington enquanto favoreciam a supremacia econômica norte-americana. Agora que a China se tornou uma potência industrial, tecnológica e comercial capaz de competir em setores de ponta, esses mesmos princípios são relativizados.
Tarifas, controles tecnológicos e pressões sobre terceiros países tornaram-se instrumentos da disputa. Além disso, Washington tenta fazer com que outros países também participem de sua estratégia de contenção de Pequim.
Argentina mostra o preço da submissão
Na Argentina de Javier Milei, um extremista de direita controlado por forças externas, vê-se claramente o que acontece quando um governo abre mão progressivamente de sua autonomia em favor de um alinhamento automático com Washington.
O embaixador dos Estados Unidos, Peter Lamelas, passou a interferir publicamente no debate sobre a presença da Huawei em projetos ligados a Vaca Muerta. A controvérsia envolve inclusive um projeto de data center e infraestrutura tecnológica.
Lamelas acusou a empresa chinesa de representar riscos e vinculou explicitamente a questão tecnológica aos investimentos em Vaca Muerta. Mais grave ainda: dirigentes da cooperativa CALF denunciaram pressões de representantes norte-americanos para que uma negociação com a Huawei fosse abandonada, inclusive com referências a possíveis restrições de vistos.
Independentemente da opinião que cada um tenha sobre Huawei, China ou Estados Unidos, existe uma pergunta anterior: desde quando cabe ao embaixador de uma potência estrangeira decidir quais empresas podem ou não investir em um país soberano?
O silêncio do governo Milei diante dessa interferência é revelador.
A Argentina deveria decidir o que é melhor para a Argentina. Os Estados Unidos devem defender os interesses norte-americanos. A China deve defender os interesses chineses. E Buenos Aires deveria defender os interesses argentinos.
Quando essa última parte desaparece, desaparece também a política externa soberana.
Panamá e a nova fronteira da Doutrina Monroe
O Panamá apresenta outro sinal preocupante.
Washington pretende implementar no país um projeto-piloto de credenciamento das cadeias de suprimentos relacionadas à inteligência artificial. O chamado “Pax Silica AI Assistance Project” prevê uma plataforma operada em cooperação com autoridades portuárias e aduaneiras panamenhas. Segundo o Global Times, a iniciativa se insere na tentativa norte-americana de construir cadeias tecnológicas menos dependentes da China.
Não é difícil compreender por que o Panamá foi escolhido.
O Canal do Panamá é uma das principais artérias comerciais do planeta. Quem consegue estabelecer padrões para aquilo que atravessa essa rota adquire enorme capacidade de influência sobre cadeias globais.
Surge, assim, uma espécie de atualização digital da velha Doutrina Monroe. A América Latina volta a ser enxergada por setores de Washington como espaço estratégico no qual os Estados Unidos teriam direito de limitar a presença de outras potências.
Antes, o debate girava em torno de territórios, bases militares e recursos naturais. Agora envolve semicondutores, minerais críticos, inteligência artificial, data centers, redes de telecomunicações e infraestrutura digital.
É a geopolítica do século XXI.
Reciprocidade significa soberania
É justamente por isso que a decisão brasileira de colocar em movimento a Lei da Reciprocidade Econômica possui importância que ultrapassa a questão tarifária.
O governo Lula não decidiu automaticamente retaliar os Estados Unidos. Pelo contrário: a prioridade declarada continua sendo negociar. Mas o Brasil estabeleceu que possui instrumentos para responder caso seja necessário.
Isso é soberania. Reciprocidade não significa hostilidade aos Estados Unidos. Significa estabelecer que uma relação saudável entre países precisa pressupor respeito mútuo.
O Brasil deve buscar as melhores relações possíveis com Washington. Os Estados Unidos são uma potência econômica, tecnológica e científica fundamental e continuarão sendo parceiros relevantes. Mas parceria, obviamente, é diferente de subordinação.
Com Lula, o Brasil demonstra que pretende negociar sem renunciar ao direito de defender seus interesses. É legítimo perguntar, no debate eleitoral de 2026, qual seria a posição de um eventual governo brasileiro de extrema direita diante de pressões semelhantes às que hoje Washington exerce sobre a Argentina.
Aceitaria que uma embaixada estrangeira estabelecesse quais empresas chinesas poderiam investir no Brasil? Abriria mão de investimentos em infraestrutura, veículos elétricos, energia ou tecnologia para satisfazer prioridades geopolíticas de Washington? Permitiria que terceiros países determinassem com quem o Brasil pode negociar?
Essas perguntas precisam ser respondidas pelos candidatos.
Lula e Claudia apontam outro caminho para a América Latina
Há ainda uma dimensão regional dessa disputa.
Na noite de 13 de agosto, Lula conversou por videoconferência com a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum. Os dois reafirmaram a importância estratégica das relações entre Brasil e México, defenderam o multilateralismo e discutiram a ampliação das relações econômicas, inclusive por meio da cooperação entre Petrobras e Pemex.
O encontro tem significado que vai além da agenda bilateral.
Brasil e México são as duas maiores economias da América Latina. Num momento em que as pressões geopolíticas aumentam, países que preservam capacidade própria de decisão precisam aprofundar seus vínculos.
Isso não significa construir um bloco contra os Estados Unidos. Tampouco significa alinhar automaticamente a região à China.
Significa construir capacidade latino-americana de negociação.
Quanto mais isolados estiverem os países da região, mais vulneráveis serão às pressões das grandes potências. Quanto mais coordenados estiverem, maior será sua capacidade de negociar investimentos, tecnologia, comércio e financiamento em condições favoráveis.
O fator China chegou à eleição de 2026
Por tudo isso, o fator China será um elemento central da eleição presidencial brasileira.
A pergunta não será simplesmente “China ou Estados Unidos?”. Colocada dessa maneira, ela já nasce errada.
A verdadeira escolha é entre soberania e subordinação.
O Brasil pode manter excelentes relações com Washington e, simultaneamente, aprofundar sua parceria estratégica com Pequim. Pode comprar tecnologia norte-americana e chinesa. Pode receber investimentos dos dois países. Pode vender soja, petróleo, minério, aviões, alimentos e produtos industriais para todos os mercados possíveis.
O critério deve ser o interesse brasileiro.
Trump transformou comércio, tarifas e tecnologia em instrumentos explícitos da disputa pelo poder mundial. A pressão sobre o Brasil, a interferência norte-americana na Argentina e a iniciativa tecnológica no Panamá mostram que essa disputa já chegou definitivamente à América Latina.
Nesse novo mundo, a maior riqueza que um país pode preservar é sua capacidade de dizer sim quando uma proposta lhe interessa e não quando ela contraria seus interesses.
É isso que significa soberania.
E é exatamente por isso que, em 2026, discutir China será também discutir que tipo de país o Brasil pretende ser.
* Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”
Foto reproduzida da Internet
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