E-book

Baú de um Repórter

O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.

Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Artigo

Ao poupar Flávio Bolsonaro, a mídia conservadora normaliza o golpismo nas eleições de 2026

por João Filho, no Intercept Brasil

A grande imprensa brasileira quer eleger o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL. Na reta final da campanha isso ficou ainda mais claro, com a imprensa engrossando o coro do bolsonarismo contra o Judiciário, inflando o caso Lulinha a todo custo e omitindo casos de corrupção importantes que atingem a candidatura de Flávio. 

O candidato que representa o grupo político que invadiu e destruiu os prédios dos Três Poderes na tentativa de aplicar um golpe de estado foi normalizado no noticiário.

Estamos falando de alguém que é filho de um ex-presidente que concordou com  um plano para assassinar o presidente eleito, seu vice-presidente e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

‘Quando um dos lados é o golpe e a barbárie, a neutralidade vira endosso do caos’.

Flávio representa um grupo de traidores da pátria que trabalham em conjunto com Donald Trump para prejudicar a economia brasileira e defendem abertamente entregar o país para ele. A lista de motivos que deveriam fazer a imprensa brasileira combater uma candidatura autoritária e fascistóide é infinita. 

Quando a neutralidade vira endosso

Quando um dos lados é o golpe e a barbárie, a neutralidade vira endosso do caos. A função primordial do jornalismo é — ou deveria ser —  a defesa incondicional da democracia. Não existe jornalismo fora dela e, portanto, trata-se de uma questão de sobrevivência.

Apostar no doisladismo, quando um dos lados já tentou destruir a democracia e promete voltar à carga, é engrossar as fileiras do golpismo. Esse movimento de legitimação da candidatura golpista aconteceu nas eleições de 2018, arrefeceu na de 2022, mas voltou com tudo neste ano. 

A Globo, que ainda é o grupo de mídia mais influente do país, tem se esforçado para poupar Flávio Bolsonaro no seu noticiário. O escândalo do Master, por exemplo, é abordado como uma questão suprapartidária, que envolveria todos os partidos e poderes. É claro que não é bem assim. Só há um candidato nessa disputa que pediu dinheiro do Vorcaro e que viajou no jatinho dele.

‘Flávio representa um grupo de traidores da pátria que trabalham em conjunto com Donald Trump para prejudicar a economia brasileira e defendem abertamente entregar o país para ele’.

Foi o bolsonarismo, através de Ciro Nogueira,  que operou no Congresso em defesa dos interesses do banqueiro. Foi no governo Bolsonaro que as falcatruas do banco Master se desenrolaram. Vorcaro financiou as campanhas eleitorais de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro. 

Mau-caratismo

Qual a relação de Lula com o escândalo? Sob sua gestão, o banco foi liquidado e Vorcaro foi para a cadeia. Equalizar as suspeitas que recaem sobre Jaques Wagner, do PT, com a pornochanchada sem limites que a cúpula do bolsonarismo protagonizou com Vorcaro não é mau jornalismo. É mau caratismo.

Este é um escândalo essencialmente bolsonarista, mas a Globo faz o jogo de Flávio Bolsonaro quando aponta que todos os lados estão igualmente sujos de lama. 

Há honrosas exceções no jornalismo global, mas a linha editorial não deixa dúvidas de que lado os donos do jornal estão. Basta ler os editoriais da empresa, observar as manchetes escolhidas para circular e as omissões de fatos importantes nos jornais de maior audiência da programação.

As notícias negativas para Flávio até são publicadas, mas a repercussão é controlada. Não há um aprofundamento dos escândalos e o peso do bolsonarismo no escândalo do banco Master vai sendo diluído. 

A postura de hoje é incomparável com a campanha de escandalização liderada pela Globo durante a Lava Jato. O áudio entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, que veio à tona graças ao jornalismo do Intercept, por exemplo, não foi exibido sequer uma vez no Fantástico, um dos programas de maior audiência da emissora.

A Globo, que foi um tigrão ao dedicar boa parte de sua programação jornalística para bater sem dó em Lula e no PT nos tempos de Lava Jato, virou um tchutchuco diante do bolsonarismo chafurdando na lama do Vorcaro. 

Alinhamento entre Globo e bolsonarismo

Nesta última semana, o noticiário foi inundado por uma série de falsos debates. As eleições já estão sofrendo intervenção dos EUA e um dos candidatos é francamente golpista, mas o noticiário às vésperas da votação se ocupou com o tema de Nossa Senhora da Aparecida, a fala infeliz do Lula sobre exame de próstata ou a briga política entre ministros do STF.

Tudo isso deve ser registrado, é claro, mas são assuntos quase irrelevantes perto do risco que a democracia está correndo.

A Globo fez o que pôde para impedir que Renan Santos ficasse fora do debate, mesmo ele estando tecnicamente empatado na terceira colocação nas intenções de voto. A decisão da emissora favoreceria Flávio, já que o candidato do Missão é o único à direita que o enfrenta.

Uma decisão de Gilmar Mendes determinou que Renan deveria participar do debate. Com medo de ter que debater de verdade, Flávio anunciou a desistência e culpou o judiciário. A Globo fez exatamente a mesma coisa: cancelou o evento inteiro e, em editorial, acusou o STF de censurar o debate.

O alinhamento entre a Globo e o bolsonarismo nessa reta final é evidente. Não é à toa que Flávio, diferente do pai, não tem criticado a emissora. 

Uma escolha muito difícil 2

Outros editoriais desta semana não deixam dúvidas de que lado os barões da imprensa estão. A Folha requentou o famigerado editorial do Estadão de 2018, que considerou “muito difícil” escolher entre um democrata e um golpista com tendências fascistas.

Entre outros absurdos, a Folha diz: “O país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse financeiro”.

Donald Trump está fechando consulados no Brasil e investindo grana para atacar o STF, mas os donos da Folha estão muito preocupados com o ajuste fiscal. 

Ninguém nega que existe uma profunda crise no Judiciário. Política, moral e institucional. Mas é preciso dizer que essa é uma crise que foi aprofundada pelos ataques golpistas do bolsonarismo nos últimos anos.

O golpismo contra o judiciário agora conta com o apoio da imprensa brasileira e da maior potência bélica e econômica do mundo. 

A democracia está à beira do abismo, mas no noticiário só se fala em outra coisa. São horas gastas nas mesas redondas falando sobre diversos assuntos, mas pouco ou quase nada se fala sobre o fato de que uma das candidaturas pretende acabar com a democracia do modo que a conhecemos.

A eleição será amanhã e o estrago já está feito.

Que o povo brasileiro tenha sabedoria para desviar dessa arapuca midiática e defender a democracia nas urnas. 

* João Filho é cientista social e jornalista. Autor do Jornalismo Wando

Foto reproduzida da Internet

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *