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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Leonarto Attuch, no Brasil 247
A primeira semana após a histórica vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi marcada por um paradoxo. Enquanto o resultado eleitoral reafirmou a confiança da maioria dos brasileiros em seu projeto político, os mercados financeiros reagiram com forte desvalorização cambial, queda das bolsas e crescente incerteza sobre os rumos da economia. O contraste revela que o maior desafio do quarto mandato de Lula não será apenas político, mas sobretudo econômico. E, nessa frente, o presidente só tem a ganhar se decidir ancorar rapidamente as expectativas.
A indefinição sobre a futura equipe econômica contribuiu para ampliar a volatilidade. Ao mesmo tempo, ganhou espaço o debate sobre uma possível saída heterodoxa para o problema dos juros, a partir da proposta do economista André Lara Resende de reduzir a Selic para 7,5% ao ano. Embora a iniciativa tenha méritos ao colocar em discussão o custo extraordinário da política monetária brasileira, o próprio governo tratou de afastar a hipótese de uma mudança abrupta de orientação. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, desmentiu especulações sobre uma reunião de Lula com Lara Resende para discutir a proposta.
O resultado concreto dessa combinação de incertezas apareceu na decisão de ontem do Comitê de Política Monetária. O Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, encontrou na deterioração das expectativas inflacionárias e na depreciação cambial argumentos para manter a taxa Selic em 13,75% ao ano. O comunicado reconheceu a desaceleração da atividade econômica, mas considerou necessário preservar uma política monetária substancialmente contracionista.
É uma situação preocupante. Nenhuma economia consegue sustentar um ciclo vigoroso de crescimento, investimento produtivo e geração de empregos de qualidade com juros reais próximos de 9% ao ano por um período prolongado. Esse patamar encarece o crédito, desestimula o investimento, compromete a capacidade financeira das empresas e aumenta o custo de carregamento da dívida pública. Cria-se, assim, um círculo vicioso: juros elevados pressionam as contas públicas, enquanto a deterioração das expectativas fiscais serve de justificativa para a manutenção dos próprios juros.
Romper esse círculo exige mais do que críticas ao Banco Central. Exige uma estratégia econômica clara, capaz de combinar credibilidade fiscal, crescimento e redução sustentável das taxas de juros.
Lula já demonstrou, em seus três governos, que sabe fazer essa combinação – o que deverá ser reiterado em seu pronunciamento previsto para o domingo. Seus dois primeiros mandatos foram marcados pela expansão do emprego, valorização do salário mínimo, redução da pobreza, fortalecimento do mercado interno e acumulação de reservas internacionais, ao mesmo tempo em que o país buscou preservar o equilíbrio das contas públicas. No terceiro mandato, mesmo diante de condições políticas mais adversas, o presidente retomou políticas sociais e procurou reconstruir instrumentos de planejamento e investimento.
Não há, portanto, qualquer incompatibilidade necessária entre responsabilidade fiscal e compromisso social. Ao contrário: a estabilidade econômica é uma das condições para que um projeto de desenvolvimento inclusivo seja duradouro.
O problema é que as condições de partida do quarto mandato são mais complexas. A economia brasileira já apresenta sinais de desaceleração, o ambiente internacional é marcado por conflitos geopolíticos e instabilidade financeira, e o espaço fiscal para novas iniciativas é mais estreito. Além disso, as promessas feitas durante a campanha terão de ser acomodadas em um orçamento pressionado por despesas obrigatórias e pela necessidade de preservar investimentos.
Nesse cenário, a indefinição sobre o comando da política econômica cobra um preço elevado.
Dario Durigan, por maiores que sejam seus esforços e independentemente de suas qualidades pessoais, perdeu parte importante de sua autoridade política. Não porque tenha deixado de exercer formalmente o comando da Fazenda, mas porque poucos na Esplanada acreditam em sua continuidade no cargo. Um ministro cuja permanência é considerada provisória encontra dificuldades adicionais para coordenar expectativas, negociar medidas estruturais e transmitir segurança aos agentes econômicos.
Ao mesmo tempo, Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí e um dos nomes que despontam como favoritos para assumir a Fazenda, já se tornou alvo de fogo amigo dentro do próprio campo governista. As objeções à sua indicação, alimentadas por disputas de espaço e por argumentos sobre sua experiência em Brasília, mostram que a sucessão ministerial corre o risco de se transformar em uma disputa política prolongada.
Fonteles reúne atributos relevantes. É um governador jovem, com formação técnica, experiência administrativa e identificação com o projeto político de Lula. Sua eventual escolha, naturalmente, dependerá da avaliação soberana do presidente. Mas o desgaste antecipado de seu nome não contribui para a construção de um ambiente de confiança.
Tudo indica que Lula só começará a anunciar sua nova equipe depois das viagens internacionais previstas para a Turquia, onde participará da COP31, e para as Filipinas, por ocasião da cúpula da Asean. É compreensível que o presidente deseje preservar sua liberdade de escolha e não se deixar pressionar por especulações de mercado ou disputas internas.
Também é legítimo que Lula não queira iniciar seu quarto mandato com um sucessor político previamente definido, o que poderia reduzir sua própria autoridade. Mas uma coisa é preservar o comando político do governo. Outra, muito diferente, é permitir que a indefinição sobre a área econômica se prolongue a ponto de produzir custos concretos para o país.
E esses custos já começaram a aparecer.
A decisão do Copom de ontem foi o primeiro sinal inequívoco de que a deterioração das expectativas pode limitar o espaço para uma política monetária menos restritiva. Quando o câmbio se desvaloriza, as projeções de inflação sobem e o mercado passa a duvidar da trajetória fiscal, o Banco Central encontra razões adicionais para manter os juros elevados, mesmo diante da perda de dinamismo da atividade econômica.
É precisamente por isso que Lula deveria tomar a iniciativa.
Ancorar expectativas não significa submeter o governo aos interesses do mercado financeiro, muito menos renunciar ao programa aprovado pelas urnas. Significa apresentar ao país uma direção econômica consistente, com objetivos claros, instrumentos críveis e uma equipe capaz de executá-los.
Significa demonstrar como será possível estabilizar a dívida pública, rever despesas e benefícios fiscais pouco eficientes, preservar investimentos estratégicos e financiar os compromissos sociais do novo mandato. Significa, sobretudo, criar as condições para que a queda dos juros seja uma consequência sustentável da melhora do ambiente econômico, e não apenas uma reivindicação política.
Lula tem autoridade histórica para fazer esse movimento. Sua experiência demonstra que o crescimento econômico e a inclusão social não precisam ser sacrificados em nome da estabilidade. Mas também ensina que a confiança é um ativo fundamental para qualquer governo que pretenda transformar a economia.
O presidente não precisa anunciar precipitadamente todos os nomes de sua equipe, nem aceitar imposições de agentes financeiros. Precisa, porém, sinalizar desde já qual será a arquitetura econômica de seu quarto mandato e quem terá autoridade para conduzi-la.
A vitória eleitoral concedeu a Lula um novo mandato e uma oportunidade histórica. O desafio agora é transformar essa legitimidade política em confiança econômica, investimento, emprego e crescimento.
O tempo político do presidente pode recomendar cautela na montagem do governo. O tempo econômico, entretanto, exige decisões.
Não há tempo a perder. Quanto antes Lula ancorar as expectativas, mais cedo poderá abrir caminho para a redução dos juros e para um novo ciclo de desenvolvimento. E, nessa escolha, quem mais tem a ganhar é o próprio presidente — e, sobretudo, o Brasil.
*Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”
Foto reproduzida da Internet
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