E-book

Baú de um Repórter

O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.

Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Geral

Crônica

Uma rolinha salva de dentes felinos

Por Stella Galvão

Seria mais um dia de mormaço em Nova Parnamirim, 24h após o país ser chacoalhado pelo assassinato de 12 crianças em uma escola pública na cidade do Rio de Janeiro. O assunto ainda rendia comentários perplexos por afrontar a idéia de coexistência pacífica na sociedade. Ledo engano.

Quase a replicar a barbárie que se impõe como uma sombra sobre vidas que trazem a marca do efêmero, não era das mais fáceis a convivência dos passarinhos das redondezas com uma gata próxima de completar dois anos de existência. Fora batizada de Nina em homenagem à personagem do filme homônimo (dirigido por Heitor Dhalia em 2004), livremente inspirada em Raskólnikov, cujo papel é central na trama de “Crime e Castigo”, publicado em 1866 pelo escritor russo Fiodor Dostoiévski. Como ambos, Nina, a gata, também vivia momentos aparentemente inconciliáveis.

Carinhosa com os humanos da família, a ponto de tolerar as brincadeiras que a confundiam com um cãozinho fofo e peludo, ela também correspondia plenamente a seu lugar na cadeia alimentar da natureza animal. Por essa lógica darwiniana (hábitos adquiridos explicariam a evolução e a sobrevivência das espécies), ela deveria capturar e ingerir tantos animais esvoaçantes de pequeno porte quanto fosse possível. Ela não precisava dessa ração natural porque já recebia sua cota de alimento balanceado desde o primeiro sopro de vida.

Assim, capturava por instinto e para deleite. Ao movimentarem-se, os pássaros ao alcance da gata viravam brinquedos dela. Dependendo do vigor de Nina, a brincadeira podia ter trágicas consequências, com a morte do pequeno ser alado, ou encerrar-se com um bater de asas, ou ainda resultar em avarias passíveis de reparo. Geralmente a família não percebia esses movimentos, exceto quando alguém topava em algum canto da casa com um cadáver cercado de penas. Era nesse momento que a gata adquiria feições quase humanas. Não, diria o escritor Mark Twain: “Se o homem pudesse ser cruzado com o gato, isto melhoraria o homem, mas deterioraria o gato.”

Naquela sexta-feira foi diferente. Nina adentrou subitamente a cozinha da casa trazendo um filhotinho de rolinha entre os dentes. A chefe da família dividiu-se entre um horror primal pela cena e a condição de salva-vida do animal em desvantagem, ao ouvir um som débil, como um grito de socorro. Nina foi então apartada de sua presa e expulsa dos limites da casa. O passarinho ficou inerte no chão da sala. A mãe tinha faltado às aulas de primeiros socorros. Enfim as filhas chegaram, duas adolescentes lindas e prontas a defender causas animais.

O filhote foi batizado prontamente de Paul em homenagem ao ex-beatle mais ativo na cena musical. Julia, esse o nome da socorrista, se dedicou ao exame e alimentação do bebê voador, com a ajuda da irmã Luisa. Nessa altura Paul já fizera sua escolha, empoleirando-se na primeira menina que o acudiu. Se ela tentava apartar-se, ele voava e se atracava com a roupa daquela que já enxergava como mãe adotiva. A busca elementar por proteção e aconchego. Mas a vida seguia e Julia precisava se ausentar. Então, Paul foi encerrado no quarto da mãe. A noite findou com a rolinha finalizando a digestão, em súbita sintonia com a gata Nina. De volta à sua condição animal, foi convidada a alçar vôo, e não se fez de rogada.

*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *