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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Por Stella Galvão
Eu decidi ser mãe, em comum acordo com o meu então marido, quando contava 30 anos. Duas perdas muito sofridas e uma gravidez muito delicada depois, nasceram nossas amadas filhas Julia e Luisa, hoje a caminho dos 15 anos. Era uma dura e instigante vida de repórter em um grande jornal na maior metrópole brasileira. Logo percebi o impacto de um (no caso dois!) seres na vida de um adulto. Deixei de fazer duas viagens internacionais, a trabalho, única e exclusivamente por amamentar as meninas.
O pai temia, com base em puro empirismo, que elas se abalariam para todo o sempre por ficar alguns (vários) dias sem a a criatura que as tinha trazido a esse mundão. Esperneei porque eram viagens maravilhosas, mas desisti no dia em que notei aqueles olhos lindos vidrados nos meus durante uma dupla sessão de amamentação. Ah, a Europa continuaria lá, mas eu não estaria cá quando elas procurassem dois globos oculares nos quais já enxergavam, certamente, uma expressão intensa de amor.
O passo seguinte foi deixar o emprego e virar free lancer exclusivamente para ficar mais perto daquelas criaturas perfeitamente moldadas pelo divino. Claro que nem sempre havia flores pelo caminho. Ao contrário, pedras se interpuseram, como uma dolorosa separação que se impôs pela certeza de que a preservação da amizade é o bem mais supremo a unir pai e mãe, sempre. Juntos ou apartados. E seguiu-se uma vida com certo grau de dificuldade no campo profissional, com as incertezas próprias de quem atua como profissional liberal, em oposição à convivência maravilhosa, ao estar juntas com uma frequência muito maior, às brincadeiras que se sucediam, às longas sessões de filmes e leituras.
Ao longo destes quase 15 anos de exercício desse doce (e por vezes tenebroso, porque não se trata de rosas apenas) ofício da maternidade, perdi muitas oportunidades profissionais por não abrir mão de estar perto das minhas amadas filhas, por não conseguir não almoçar ou ao menos jantar com elas. Fiz uma escolha da qual não me arrependo. Inclusive quando decidi mudar-me de armas e bagagens para Natal, retorno engendrado muitos anos depois da partida, porque queria que elas fugissem da pressão e tensões da grande cidade. Decisão sofrida para elas, que entenderam muito cedo que há escolhas difíceis, mas necessárias, e há recomeços igualmente árduos e indispensáveis. E que não se perde quem já se achou no olhar amoroso de uma mãe que quis e cultivou esse desejo de gerar e cuidar, de alguém que nos acolhe amorososamente, mesmo quando há desavenças, gritos e gemidos.
Trazer filhos ao mundo é um aprendizado permanente, uma aposta na vida, ou melhor, na reinvenção da vida. Na possibilidade de uma mãe (sem jamais esquecer do pai, figura extremamente importante e significativa na teia dos afetos) oferecer os meios e os estímulos para criar um ser autonômo, pensante, crítico, amigo, solidário, capaz de conviver bem com o outro, por mais diferente que seja de si próprio. Uma empreitada de uma vida. E aí, não dá pra sufocar a alegria quando, um belo dia, dois pares de olhos lindos encaram você e dizem: “Mãe, a gente quer ter filhos legais assim como a gente. Qual é a receita?”
Um beijo carinhoso para aquelas mulheres que não esquecem do encantamento e do privilégio diário de gerar e educar seres humanos para tornar o mundo um lugar melhor de viver.
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
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